PHDA no adulto: quando não é distração nem feitio

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Olá, seja bem-vindo a mais um "Tratar da Saúde". Nos próximos episódios desfazemos alguns dos mitos com a ajuda da Dra. Maria Ana Sobral, médica de família dos Centros de Saúde CUF. Doutora, bom dia, bem-vinda. Obrigada por se juntar a nós.

Bom dia, Maria João.

Bom dia. Hoje vamos falar de uma realidade que só recentemente começou a ser mais reconhecida. Adultos que recebem um diagnóstico de PHDA, Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, depois de muitos anos a sentirem que alguma coisa não encaixava. Dra. Maria Ana, o que é exatamente a PHDA?

A PHDA não é uma doença, mas é uma perturbação efetivamente do neurodesenvolvimento e está relacionada com a forma como o cérebro gera a atenção, a motivação, a organização e até o controle dos impulsos. Se pensarmos só nos adultos, a hiperatividade nem sempre aparece como estar a correr ou não conseguir estar sentado. Pode surgir como aquela sensação de inquietação interna, a necessidade de estar sempre a fazer alguma coisa, de estar sempre com o pensamento acelerado.

Muitas pessoas só recebem este diagnóstico aos 30, 40 ou 50 anos. Como é que é possível que tenha passado despercebido durante tanto tempo?

Pode haver imensas razões, mas algumas pessoas conseguiram desenvolver estratégias de compensação e outras são as consideradas distraídas, preguiçosas, desorganizadas, sem que nunca ninguém tivesse percebido a origem deste comportamento. Naturalmente, quando aumentam as exigências da vida, as estratégias antigas podem deixar de ser suficientes e a pessoa começa a sentir-se completamente sobrecarregada.

Imagino. E o que pode mudar na vida de uma pessoa quando finalmente chega o diagnóstico?

Acho que, fundamentalmente, o diagnóstico traz uma explicação e pode ajudar a pessoa a compreender uma série de anos de esquecimentos, de impulsividade, desorganização. Naturalmente que há pessoas que sentem alívio e outras que sentem tristezas por não terem sido compreendidas mais cedo. Mas um diagnóstico não muda a personalidade nem apaga automaticamente as dificuldades. A pergunta deixa de ser: "Por que eu não consigo fazer como os outros fazem?" E passa a ser: "Que estratégias e apoios funcionam melhor para o meu modo de funcionamento?"

Então, e depois de receber esse diagnóstico, que mudanças práticas é preciso fazer no dia a dia?

É importante, em termos de vida profissional e até social, tentarmos ter formas de ajudar a gerir a gestão do tempo, como instruções, calendarizações, reuniões que têm que ser mais objetivas e alterações que permitam um trabalho sem interrupções. Na vida familiar, é importante perceber que a PHDA não é falta de interesse, não é falta de respeito, mas pode afetar a comunicação e a gestão de responsabilidades.

E quem é que pode fazer este diagnóstico num adulto?

O diagnóstico é sempre clínico, realizado por pelo menos psiquiatra e psicólogo com experiência em PHDA no adulto. A avaliação não é um único momento, inclui uma entrevista detalhada sobre a história da vida, desde a infância até à idade adulta, o funcionamento em diferentes contextos, o impacto das dificuldades e alguns testes que têm que ser validados. Não há uma análise de sangue ou um exame de imagem que confirme o diagnóstico.

Então, e qual é o papel do médico de família?

O médico de família pode ser, primeiro, a porta de entrada, ou seja, o médico de família vai ouvir as queixas e pode ajudar a encaminhar a pessoa para um especialista se houver realmente esta suspeita de PHDA.

E o diagnóstico significa obrigatoriamente tomar medicação, Dra. Mariana?

Não, o plano tem que ser individualizado e decidido com o médico. O objetivo não é mudar quem a pessoa é, mas reduzir o sofrimento e melhorar o funcionamento no dia a dia.

Estamos a terminar, Dra. Mariana, que mensagem gostaria de deixar a um adulto que se reconhece nesta descrição que aqui fizemos?

Saber sempre que pedir ajuda não é admitir um fracasso, é procurar compreender o que está a acontecer conosco e encontrar apoio. Ter sempre em conta que atualmente fala-se muito neste diagnóstico e a sociedade em geral e alguns profissionais de saúde podem entender, achar que isto é uma moda. Este preconceito não deve condicionar ninguém a procurar ajuda.

Portanto, um diagnóstico tardio não apaga o passado e pode mudar o futuro. Dra. Mariana Sobral, muito obrigada por esta conversa. Até amanhã.

Obrigada, Maria João.