Phubbing: como o vício em telas está afetando as relações amorosas | Gshow

Chamado de phubbing, o comportamento de ignorar quem está por perto para prestar atenção no celular pode parecer banal no começo, mas, dentro de uma relação amorosa, a repetição pode gerar frustração e afastamento emocional.

Phubbing: como o vício em telas está afetando as relações amorosas — Foto: Pexels

O assunto foi um dos temas do Papo de Segunda desta semana e, ao gshow, a psicóloga e neuropsicóloga Tatiana Serra e a sexóloga Débora Pádua explicam como esse hábito tem afetado as relações.

Sobre o phubbing...

O termo, que faz referência às palavras em inglês “phone” (telefone) e “snubbing”, descreve situações em que a pessoa prioriza o celular enquanto alguém tenta interagir com ela.

Tanto homens quanto mulheres estão suscetíveis aos algoritmos de redes sociais que facilitam a prática do phubbing -- afinal, jogos, grupos de mensagens, notícias e até demandas profissionais podem prender a atenção de ambos.

“Ao mesmo tempo, compreender essa pressão não elimina nossa responsabilidade de estabelecer limites e proteger as relações que consideramos importantes”, defende a psicóloga Tatiana Serra.

Phubbing: como o vício em telas está afetando as relações amorosas — Foto: Pexels

Débora Pádua pontua, no entanto, que as mulheres acabam sendo mais afetadas no sentido de que, para elas, o desejo costuma surgir de estímulos como a conversa, o carinho e atenção:

“O modelo não linear de resposta sexual proposto pela [sexóloga canadense Rosemary] Basson mostra que a pessoa não precisa iniciar uma interação já sentindo desejo, mas de uma conexão e, a partir de estímulos agradáveis, desenvolver desejo e excitação”.

Por isso, quando grande parte do tempo disponível é consumido pelos eletrônicos, esses estímulos diminuem: “O problema não é apenas o dispositivo, mas a sensação de não estar sendo visto, ouvido ou considerado”, analisa Serra.

Quais são os prejuízos nas relações?

Uma olhada eventual no celular não define o ato como vício. O alerta acende quando o comportamento se repete e começa a substituir momentos de encontro, como refeições, lazer e intimidade.

Isso gera um efeito cascata: a pessoa afetada pode interpretar esse hábito como falta de interesse, rejeição ou ausência de prioridade e, consequentemente, afetando a autoestima, segurança emocional e desejo. Sem desejo, a excitação não acontece e, assim, começam os impactos na vida sexual.

“Existem fatores que favorecem a excitação e outros que funcionam como ‘freios’. Sentir-se ignorada, insegura ou emocionalmente distante pode aumentar esses freios. Então, o celular pode não ser a causa direta de uma dificuldade sexual, mas pode contribuir para um ambiente com menos estímulos para o desejo e a excitação”, explica a sexóloga.

Phubbing: como o vício em telas está afetando as relações amorosas — Foto: Pexels

A psicóloga Tatiana Serra ainda complementa, detalhando que “o cérebro humano é muito sensível aos sinais de atenção, reciprocidade e pertencimento”. Portanto, quando buscamos contato e encontramos alguém encarando uma tela, podemos experimentar uma ruptura de conexão.

“Com o tempo, a pessoa pode parar de procurar o parceiro, porque já espera não ser correspondida. E aí o problema deixa de ser o celular e passa a ser a solidão vivida dentro da própria relação”.

Como conversar sobre o assunto?

Outro problema acontece quando, mesmo após comunicar seus incômodos, a situação não muda. É preciso haver espaço para o diálogo e negociação. Mas essa conversa não precisa começar com um “você só fica nesse celular”. Para Débora Pádua, é mais produtivo falar sobre o efeito daquele comportamento e sobre o que gostaria de mudar.

“Ao invés de atacar o(a) parceiro(a), pode dizer: ‘Eu sinto que estamos tendo pouco tempo de verdade juntos e gostaria que a gente mudasse isso’”.

Phubbing: como o vício em telas está afetando as relações amorosas — Foto: Pexels

Tatiana segue a mesma lógica: descrever o comportamento, o impacto e a necessidade tende a ser mais assertivo do que acusar a intenção do outro. Em vez de “você prefere o celular”, algo como: “Quando estamos conversando e você olha repetidamente para o celular, eu sinto que perdemos nossa conexão”.

A ideia é que a conversa aconteça antes de o incômodo virar uma crise. Como explica a sexóloga: “É muito mais fácil proteger a conexão do casal do que tentar reconstruí-la depois que ressentimento, rejeição ou afastamento já estão estabelecidos”.

O que pode ajudar?

Estabelecer limites para o uso do aparelho pode ser saudável, desde que os combinados façam sentido para os dois, fluam bem e não sejam só mais uma regra a ser cumprida. Uma possibilidade é definir um período sem telefone ao chegar em casa, durante as refeições ou em determinado horário da noite.

Phubbing: como o vício em telas está afetando as relações amorosas — Foto: Pexels

O intervalo, orienta Débora, não precisa ser transformado automaticamente em um momento sexual: “O objetivo é abrir espaço para que os estímulos apareçam novamente, como conversar, rir, fazer carinho, cozinhar juntos ou simplesmente estar presente”.

Tatiana faz uma ressalva importante! Ficar sem celular não garante, sozinho, uma relação mais próxima: “O objetivo não deveria ser demonizar a tecnologia, mas recuperar a capacidade de estar presente”.

E quando o casal tem filhos?

O impacto do phubbing também chega à relação entre pais e crianças. Segundo Tatiana, os pequenos aprendem sobre vínculo observando como os adultos oferecem atenção. Quando procuram compartilhar uma descoberta ou contar uma história e encontram, repetidamente, um rosto voltado para a tela, a qualidade daquela interação pode ser afetada.

“Além disso, existe o aprendizado pelo exemplo. É difícil ensinar uma criança a regular o uso das telas quando os próprios adultos permanecem constantemente conectados”.

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