Plano Nocional de Leitura (XLIX)

Quase nenhum poeta no activo acha hoje que está a brincar; e quem acha não é tomado a sério como poeta. Ao ler os livros de poesia que se publicam é difícil imaginar que as coisas se tenham alguma vez passado de outra maneira.  E no entanto houve períodos em que os poetas se tomaram menos a sério.  Os livros, quando os havia, dependiam menos deles, e da sua vontade de explicar o que se passava consigo; e eram comuns as antologias de versos feitas à revelia dos poetas, e sem protestos dos antologiados e dos excluídos.

O melhor guia português para esse modo de leveza antiga é o Cancioneiro Geral, impresso em 1516 por Garcia de Resende (1470-1536).   Nos manuais chama-se-lhe antologia de poesia cortês, e é em certa medida verdade; mas a corte portuguesa dessa altura, onde havia cerca de trezentos poetas, não servia para aprender a escrever poesia.  Garcia diz que a poesia era uma das coisas “a somenos” com que lá se ocupavam as muitas horas livres.  O Cancioneiro Geral colige esses entreténs de repartição, rabiscos feitos em jantares de colegas que interessavam sobretudo a quem lá tinha estado.

É por isso que quando no Cancioneiro Geral procuramos coisas parecidas com aquilo a que chamamos actualmente poesia quase só encontramos má poesia.   Muito mais compensador é o que nos parece estapafúrdio e remoto.   Um bom exemplo é a extensa discussão entre dois cunhados difíceis de distinguir (Jorge da Silveira e Nuno Pereira), que declaram estar apaixonados pela mesma pessoa, a quem pedem que decida dos méritos comparativos das respectivas dores sentimentais:  vale mais a um apaixonado estar preocupado em silêncio, ou dar ais de amor?

A discussão, conhecida como “O cuidar e o suspirar”, parece um processo judicial; inclui alegações das partes, petições, despachos, advogados e testemunhas.   Para Nuno Pereira, um adepto dos ais, as preocupações dão mau resultado: são “querer abafar, / sem poder esfolegar”; mas para Jorge da Silveira, adepto das abafações, os uivos dos poetas são apenas “partir alma da carne.” Jorge e Nuno achariam talvez graça à ideia de decidir por sentença a expressão mais correcta de um sentimento; e seguramente à ideia de que a expressão dessa brincadeira para-judicial era também poesia.

Esta desgarrada impenetrável entre cunhados caricatura porém sem querer as duas categorias principais da poesia posterior; e o género comum a ambas, que é o dos poetas que se tomam a sério.   Mas nem Jorge, nem Nuno, nem mesmo Garcia, se tomavam realmente a sério; achavam que fazer versos era um jeito que tinham, como para assobiar.  Apenas quando mais tarde se extinguiram os seus postos de trabalho e fazer versos voltou a ser um motivo de importância para quem os fazia noutros lados é que o caso se tornou sério; e é essa seriedade que ainda hoje reconhecemos como poesia.