Por um Portugal de terceiro mundo

Está na hora de transformar Portugal num país de terceiro mundo. Sim, leram bem. Não é exagero (talvez um bocadinho). É uma proposta política séria para um objetivo para o qual até já estamos a trabalhar, mas sem o reconhecimento oficial e mediático que merece.

Portugal já provou, ano após ano, que tem o talento necessário para atingir este sonho. Falta apenas que a classe política assuma o compromisso.

Aqui fica o manifesto, medida a medida, para tornar Portugal num país de terceiro mundo.

Habitação: ninguém deve ter casa

Um país de terceiro mundo caracteriza-se pela ausência de habitação digna para a maioria da população. Portugal já está bem encaminhado, mas ainda há muito trabalho por fazer.

Medidas propostas:

Bloquear qualquer tentativa séria de simplificar licenciamentos, para que construir uma casa continue a demorar mais tempo do que construir uma estação espacial.

Garantir que os programas de habitação pública sejam anunciados com grande alarido, mas executados com a velocidade de um caracol reumático e à escala de uma festa da terrinha.

Continuar a vender o país a quem paga mais e a inundar o mercado de procura. Manter os incentivos para investidores estrangeiros, nómadas digitais e imigrantes desesperados enquanto se ignora o humano português normal.

Garantir que a construção nova seja sempre de luxo, nunca acessível, pois o luxo dá melhor aspeto. Exceto quando se trata de barracas e bairros de lata. Aí queremos construção em massa.

Resultado esperado: uma geração inteira a viver com os pais ou em quartos partilhados até aos 40 anos. Estamos quase lá.

Saúde: filas para todos, saúde para ninguém

O caminho para uma saúde de terceiro mundo é um sistema de saúde onde esperar é a norma e ser atendido é a exceção. O objetivo final é a destruição do mesmo sistema.

Medidas propostas:

Continuar a fechar urgências por falta de médicos, sem nunca resolver verdadeiramente os problemas que os fazem emigrar.

Garantir que os tempos de espera para consultas de especialidade sejam medidos em anos, não em semanas, muito menos em dias.

Maximizar o número de grávidas a ter filhos em ambulâncias, ensinando a lição valiosa às crianças de que nunca vão ter estabilidade na vida.

Investir generosamente em bugigangas tecnológicas e aplicações disfuncionais, enquanto os hospitais funcionam a pombo correio.

Sempre que possível, anunciar reforços que nunca chegam ao terreno, mas que fazem excelentes conferências de imprensa.

Estamos no caminho certo.

Justiça: lenta e injusta

Um sistema judicial falhado caracteriza-se pela lentidão processual e pela sensação generalizada de impunidade para quem tem poder.

Medidas propostas:

Manter processos judiciais a arrastar-se durante uma década ou mais, especialmente quando envolvem figuras políticas ou económicas influentes. O objetivo é bater recordes do Guinness.

Garantir que a prescrição de crimes complexos aconteça antes de qualquer condenação, através de recursos, adiamentos e tecnicismos infinitos.

Investir o mínimo possível em digitalização e modernização dos tribunais, mantendo processos em papel e medievais.

Garantir que quem rouba um telemóvel apanhe pena mais pesada do que quem desvia milhões em fundos públicos. No entanto, o ideal é mesmo ninguém sofrer consequências pelos seus crimes. Só assim podemos assegurar uma sociedade insegura e disfuncional.

A justiça deve ser cega. Mas também pode ser lenta, seletiva e cansativa. Devemos ser ambiciosos no nosso caminho para o terceiro mundo.

Corrupção: institucionalizada e generalizada

Não basta haver corrupção. Num país orgulhosamente de terceiro mundo, é preciso normalizá-la e torná-la parte da identidade nacional.

Medidas propostas:

Garantir que processos de corrupção de alto perfil demorem tanto tempo que os visados já estejam reformados, esquecidos, ou mortos quando inevitavelmente não houver condenação.

Sustentar uma classe política onde transitar entre cargos públicos e conselhos de administração privados seja normal, sem período de nojo relevante.

Permitir financiamento a partidos políticos através de esquemas opacos para nunca se saber verdadeiramente quem paga a quem.

E claro, garantir que quando escândalos aparecem, a resposta oficial seja sempre “vamos apurar responsabilidades”, seguida de uma orquestra de grilos.

A corrupção institucionalizada é a marca de qualquer país de terceiro mundo digno desse nome. Portugal já domina a técnica, falta-lhe assumi-la publicamente.

Educação: diplomas para todos e futuro para ninguém

Um país falhado precisa de um sistema educativo que produza diplomas em quantidade, mas desajustados à realidade do mercado e do mundo.

Medidas propostas:

Continuar a desvalorizar a carreira docente até que ensinar deixe de ser opção viável para os mais competentes.

Permitir que universidades multipliquem cursos sem garantir empregabilidade correspondente.

Garantir abundância de vagas no ensino superior e facilidade do acesso ao mesmo, assegurando competição feroz no mercado de trabalho e inevitável desvalorização salarial.

Garantir que os melhores alunos, assim que terminam os estudos, tenham fortes incentivos para emigrar, deixando o país permanentemente empobrecido de talento.

Arruinar a qualidade do ensino profissional, porque não queremos saber das pessoas que não querem seguir o ensino superior e preferem trabalhar no terreno. Afinal de contas, para que precisamos mesmo de especialistas técnicos?

Economia: turismo sim, indústria não

Uma economia de sucesso vive de setores de baixo valor e mão-de-obra barata, nunca de inovação ou produtividade. É esse o nosso sonho.

Medidas propostas:

Continuar a apostar tudo no turismo, ignorando setores de maior valor acrescentado como tecnologia, indústria avançada ou investigação científica.

Manter salários estagnados enquanto o custo de vida dispara, garantindo que trabalhar em Portugal seja cada vez menos racional.

Evitar reformas estruturais que aumentem produtividade, preferindo soluções cosméticas, anúncios grandiosos sem impacto real, ou chicotadas nas costas do trabalhador comum para fazer mais umas horas extra a olhar para a parede.

Garantir que os poucos setores competitivos que temos sejam sistematicamente sufocados por burocracia excessiva.

Conclusão: já lá estamos, só falta assumir

A verdadeira pergunta não é como transformar Portugal num país de terceiro mundo. A pergunta é quando é que vamos admitir que é para lá que caminhamos?

Este manifesto não é, naturalmente, uma proposta séria. É uma mera observação daquilo que é óbvio para qualquer português: Portugal está todos os dias a ficar pior.

Será que queremos continuar neste caminho por inércia, fingindo que somos primeiro mundo enquanto antecipamos viver em condições de terceiro? Ou será que temos coragem de admitir o problema e fazer diferente?

Portugal não precisa de um manifesto para se tornar terceiro mundo. Precisa de um manifesto para deixar de o ser, porque é para lá que caminhamos. A escolha, como sempre, é nossa. Será que temos coragem de a fazer?