Escolha com Desafio
A decisão portuguesa de avançar, através de um acordo Estado a Estado com a Itália, para três fragatas de nova geração deve ser lida como uma decisão sobre o lugar de Portugal no Atlântico. O anúncio oficial prevê entregas entre 2029 e 2030, sustentação, transferência de tecnologia e condições de exploração operacional durante um ciclo de vida não inferior a trinta anos.[1]
Fragata italiana ITS Alpino, da família FREMM.
É um horizonte que atravessará várias gerações de militares, governos, ameaças, munições e software. Por isso, escolher uma fragata não é comprar uma conjunto de capacidades em 2026: é contratar uma arquitetura de combate, uma cadeia logística, uma comunidade industrial e uma trajetória de modernização até à década de 2060.
Importa também fixar desde já uma cautela metodológica. O comunicado português confirma três navios e o quadro SAFE, mas não divulga uma ficha técnica completa da configuração nacional. O SAFE (Security Action for Europe) é um instrumento financeiro da União Europeia, criado pelo Regulamento (UE) 2025/1106, destinado a reforçar a prontidão militar europeia e a Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia através do financiamento de aquisições conjuntas. Disponibiliza até 150 mil milhões de euros sob a forma de empréstimos de longo prazo, concedidos aos Estados-Membros em condições competitivas, abrangendo áreas como munições, defesa aérea e antimíssil, capacidades navais de superfície e submarinas, drones, guerra eletrónica, inteligência artificial e sistemas C4ISTAR. No âmbito deste instrumento, foi disponibilizado a Portugal um empréstimo máximo de aproximadamente 5,84 mil milhões de euros, do qual o programa de aquisição das três fragatas constitui apenas uma parcela, cerca de 3,2 mil milhões de euros, não devendo este montante ser confundido com o preço dos navios.
Consequentemente, a verba global de 5,8 mil milhões de euros citadas publicamente respeita ao conjunto dos investimentos SAFE, e não pode ser tratada como preço isolado das fragatas.[2] A sua aquisição representa um investimento global da ordem dos €4 mil milhões. Embora o preço anunciado de cada plataforma seja de cerca de €960 milhões, quando se consideram armamento, munições, sustentação ao longo do ciclo de vida, infraestruturas, capacitação industrial do Arsenal do Alfeite, doca, equipamentos de teste e sistemas de treino, o esforço financeiro equivalente ascende a aproximadamente €1,34 mil milhões por navioAo longo deste artigo, FREMM EVO[3] designa, portanto, a referência italiana publicamente conhecida; os sistemas concretos dos navios portugueses só deverão ser apresentados como definitivos quando forem confirmados pelas autoridades nacionais.
As Soluções Consideradas e os Padrões de Comparação
A informação oficial portuguesa disponível não publicou uma lista completa dos concorrentes nem a grelha de avaliação. Contudo, informação especializada divulgada após a decisão refere que a Marinha avaliou, além da FREMM EVO, a F110[4] da Navantia, a FDI[5] da Naval Group e a ASWF[6] da Damen.[7] O Diário de Notícias identificou igualmente a F110 entre as plataformas europeias de nível comparável à FREMM EVO. Esta distinção é importante: a Type 26 britânica da BAE Systems e a F125 alemã da Arbeitsgemeinschaft são muito úteis como padrões técnicos de comparação, mas não existe, nas fontes públicas consultadas, prova equivalente de que tenham integrado a mesma avaliação formal portuguesa.
Assim, a análise que se segue separa as soluções que foram publicamente associadas à avaliação portuguesa – FREMM EVO, F110, FDI e ASWF – das outras duas referências, no domínio ASW oceânico, e na presença prolongada e elevada disponibilidade que ajudam a aferir escolhas de desenho.
Comparação qualitativa
A tese central é simples. Se a pergunta fosse apenas “qual é a fragata europeia mais convincente para caçar submarinos no Atlântico Norte?”, a resposta tenderia para a Type 26 britânica. Se a pergunta for “qual é o pacote de capacidade mais equilibrado, maduro e sustentável para Portugal?”, a FREMM EVO oferece argumentos muito fortes. A escolha italiana não apaga as virtudes britânicas; pelo contrário, torna útil estudá-las como padrão de exigência para especificar, receber, testar e evoluir a futura esquadra.
Fragata Tipo 26.
Contudo, a opção britânica enfrentava uma limitação financeira e industrial significativa. Embora o Reino Unido pudesse participar em aquisições conjuntas por força da sua Parceria de Segurança e Defesa com a União Europeia, a aquisição de fragatas Type 26 construídas predominantemente pela indústria britânica não era automaticamente elegível para financiamento através do SAFE. Essa possibilidade dependia da conclusão de um acordo específico entre a União Europeia e o Reino Unido, nos termos do artigo 17.º do Regulamento SAFE, ou de uma solução industrial europeizada que respeitasse as regras de origem, segundo as quais os componentes provenientes de países terceiros não abrangidos não poderiam exceder 35% do custo estimado do produto final.
F125 alemã.
A F125[9] alemã foi pensada para presença prolongada, estabilização e elevada disponibilidade, mas não para ser o instrumento europeu de referência em ASW de alta intensidade. [10]/[11] A FREMM oferece um casco oceânico provado e flexível; a Type 26 leva mais longe a especialização acústica e a modularidade. Não há vencedor abstrato: há adequação a missões, riscos, pessoas e dinheiro.
Atlântico Português – Periferia Europeia, Centralidade Mundial
Portugal é simultaneamente um Estado costeiro europeu, um arquipélago atlântico e um aliado situado entre o sub-continente norte-americano, a Europa e as rotas que conduzem ao Mediterrâneo e à África Ocidental. Nessa geografia, a fragata continua a ser o navio que melhor combina presença, escolta, luta anti-submarina, defesa aérea local, ataque de superfície, comando de forças e resposta a crises. O regresso da competição entre potências, a ameaça a cabos submarinos, a proliferação de mísseis e drones e a expansão de submarinos convencionais silenciosos devolvem ao Atlântico uma densidade militar que a Europa subestimou durante décadas.[12]
Operar no Atlântico Norte impõe mais do que velocidade e armamento. Exige comportamento marinheiro com mau tempo, baixa assinatura acústica, redundância de energia e comunicações, autonomia logística, capacidade de reabastecimento no mar, oficinas que reparem em missão e alojamentos ergonómicos, confortáveis e compatíveis com destacamentos longos.
Considerando que uma fragata deverá permanecer ao serviço durante várias décadas, o seu projeto inicial deve prever reservas de espaço, peso, energia elétrica, refrigeração e capacidade de processamento de dados. Estas margens permitirão integrar, ao longo da vida do navio, novos radares, servidores, armas de energia dirigida e sistemas não tripulados, sem exigir alterações estruturais profundas ou excessivamente dispendiosas. É aqui que a comparação entre plataformas ganha utilidade. A FDI[13] francesa concentra sensores e armamento de primeira linha numa fragata compacta de cerca de 4.500 toneladas, 122 metros e autonomia publicitada de 45 dias.[14]
F110 — A Alternativa Espanhola
A F110 da Navantia merece ocupar um lugar central na comparação porque foi publicamente associada à avaliação portuguesa e porque representa uma das fragatas europeias mais ambiciosas da nova geração. A primeira unidade, F111 Bonifaz, foi lançada em setembro de 2025 e o programa espanhol encontrava-se em produção em série em 2026.[15]
F110 espanhola.
A Navantia define a F110 como uma escolta polivalente com capacidades antiaéreas, antissuperfície e anti-submarinas, concebida para proteção da força e projeção de poder naval. O projeto incorpora propulsão híbrida CODOE, espaço multimissão, arquitetura digital, cibersegurança, sensores avançados e um conceito de “navio inteligente” suportado por gémeo digital e manutenção baseada em dados.[16]
No plano do combate, a F110 combina o sistema espanhol SCOMBA[17] com radar SPY-7[18], lançadores Mk 41[19] e uma arquitetura de sensores integrada. O mastro integrado concentra radares, sensores eletro-óticos e guerra eletrónica, enquanto a componente ASW beneficia de sonar de casco e soluções de sonar rebocado/de profundidade variável.[20] Em termos de defesa aérea e crescimento de armamento, a utilização do Mk 41 constitui uma vantagem importante pela diversidade potencial de munições e pela ampla comunidade de utilizadores.
Para Portugal, os seus principais argumentos seriam a proximidade geográfica e industrial, a dimensão oceânica, a sofisticação AAW, a digitalização do ciclo de vida e a possibilidade de cooperação ibérica. As reservas seriam a menor maturidade operacional de uma classe ainda em introdução, o custo, o calendário e a dependência de componentes e autorizações norte-americanas em áreas críticas do sistema de combate. Acresce que, no quadro SAFE, a origem dos componentes é uma variável relevante. Assim, a F110 surge como uma alternativa tecnicamente fortíssima, mas menos madura do que uma família FREMM já amplamente operada.
ASWF — A Alternativa Neerlandesa
A ASWF, desenvolvida sob liderança neerlandesa pela Damen Naval com o Thales e em cooperação com a Bélgica, é a alternativa que mais diretamente desafia a FREMM EVO no eixo da luta anti-submarina. O contrato inicial previa quatro navios – dois para os Países Baixos e dois para a Bélgica – para substituir as fragatas M-Karel Doorman.[21]
ASWD Neerlandesa.
O projeto foi concebido de raiz com a ASW como prioridade, ainda que mantenha capacidade multimissão. A Damen publicou uma plataforma de cerca de 145 metros, 18 metros de boca e aproximadamente 6.400 toneladas de deslocamento, dimensões que oferecem espaço para sensores, combustível, aviação, crescimento e persistência oceânica. A Thales fornece o sistema integrado de radar e direção de tiro e o programa procura combinar elevada automação, assinatura reduzida e sensores de nova geração.
Há ainda uma afinidade histórica particularmente interessante para Portugal: as atuais fragatas Bartolomeu Dias derivam precisamente da família M-Karel Doorman construída nos Países Baixos. Isso não cria automaticamente vantagem logística, porque a ASWF é um projeto de nova geração, mas significa que existe uma tradição de relacionamento técnico entre as marinhas e a indústria neerlandesa que não deve ser ignorada.
A principal reserva é a maturidade. Em 2026, o programa continuava em desenvolvimento e fontes especializadas reportavam pressão significativa sobre o calendário.[22] Para uma Marinha que precisa de substituir navios envelhecidos num horizonte curto, o risco de desenvolvimento pesa muito. A ASWF pode vir a revelar-se uma das melhores fragatas ASW europeias da sua geração; porém, no momento da decisão portuguesa, oferecia menos evidência operacional e maior incerteza de calendário do que a família FREMM.
FDI – A Alternativa Francesa
A FDI[23] francesa merece particular reconhecimento pela extraordinária densidade tecnológica que concentra num casco relativamente compacto, com cerca de 4.500 toneladas de deslocamento e 122 metros de comprimento. Trata-se de uma fragata de primeira linha, concebida desde a origem para operações de elevada intensidade nos domínios antiaéreo, antissuperfície, antissubmarino, assimétrico e cibernético. A sua arquitetura de combate integra o radar multifunções Sea Fire, de faces fixas e varrimento eletrónico, capaz de vigilância aérea e de superfície a 360 graus e de seguimento simultâneo de múltiplos alvos, incluindo ameaças supersónicas; mísseis ASTER para defesa aérea; Exocet MM40 Block 3C para ataque antissuperfície; torpedos MU90; canhão de 76 mm; contramedidas antitorpedo; e capacidades orgânicas para operar simultaneamente um helicóptero da classe de 10 toneladas e um UAV de descolagem vertical.
A FDI distingue-se igualmente pela sua conceção digital nativa. A arquitetura do navio foi estruturada em torno de centros de dados embarcados, com especial atenção à ciber-resiliência, à automatização e à capacidade de incorporar evoluções futuras de software e sensores. A forte automação permite manter um efetivo relativamente reduzido para uma fragata desta capacidade, sem sacrificar a amplitude das missões.
FDI Amiral Ronarc`h.
A primeira unidade, Amiral Ronarc’h, foi entregue à Marine nationale em outubro de 2025 e realizou, em 2026, um longo destacamento operacional de 123 dias, incluindo operações no Atlântico Norte e em ambientes de águas frias, precisamente para validar o comportamento e as capacidades do navio em condições exigentes.
É, por isso, uma solução extremamente moderna e poderosa para marinhas que procuram uma fragata de primeira linha mais compacta. Para Portugal, contudo, a principal reserva não reside na qualidade dos sensores ou do sistema de combate, mas na margem física oferecida pela plataforma. Em operações prolongadas no Atlântico Norte, um casco de maior deslocamento pode oferecer vantagens em comportamento no mar, reservas de combustível e munições, habitabilidade, capacidade logística, embarque de equipamentos adicionais e margem de crescimento ao longo de três ou quatro décadas de serviço. Essa vantagem não é absoluta — maior deslocamento significa igualmente maiores custos de aquisição, operação e manutenção — mas, para uma marinha com vocação atlântica e exigências de permanência prolongada no mar, constitui um critério que não deve ser subestimado.
FREMM EVO: Evolução com Risco Controlado
A principal virtude da FREMM EVO reside no equilíbrio entre continuidade e transformação. A família franco-italiana já gerou navios operacionais em várias marinhas, acumulou anos de mar e criou uma base industrial e logística ampla. A EVO não parte de uma folha em branco: atualiza uma plataforma conhecida com novos sensores, redes, gestão de plataforma, guerra eletrónica e integração de sistemas não tripulados.[24] Esta continuidade reduz parte do risco de engenharia e permite aproveitar lições reais de manutenção, ergonomia e disponibilidade, assim as lições sejam efetivamente incorporadas no desenho português.
- Plataforma, energia e sobrevivência
A evolução do sistema de gestão do navio, da distribuição elétrica e da climatização parece pouco vistosa ao lado de radares e mísseis, mas é decisiva. A eletrificação crescente dos sensores, a necessidade de arrefecer processadores e a guerra cibernética potenciam a sua capacidade de combate. O anúncio italiano refere um Ship Management System ciber-resiliente, modernização elétrica e de climatização com medidas de eficiência ambiental.[25] Em termos de luta anti-submarina, a qualidade do casco e da propulsão não é um assunto separado do sonar. Vibração de maquinaria, cavitação, ruído de ventiladores e transmissão estrutural podem mascarar contactos fracos e denunciar o navio. A FREMM dispõe de uma herança acústica credível, especialmente nas variantes destinadas a este tipo de ameaça. O desafio é garantir que a EVO portuguesa preserve essa disciplina de projeto, incluindo montagem resiliente de equipamentos, regimes silenciosos de propulsão e procedimentos de controlo de ruído ao longo da vida. - Da Deteção à Decisão de Comando
O sistema de combate SADOC 4 ciber-resiliente é apresentado como o núcleo da FREMM EVO italiana. SADOC é uma sigla em italiano para Sistema Automatico di Direzione das Operazioni di Combattimento é um sistema de gerenciamento de combate e comando e controlo (C2) de última geração, desenvolvido pela empresa aeroespacial e de defesa italiana Leonardo. CMS é o acrónimo inglês para Combat Management System (Sistema de Gestão de Combate). Consiste no núcleo tecnológico (“cérebro”) de um navio de guerra moderno, responsável por integrar e centralizar os dados recebidos de todos os sensores (como radares AESA) e processar as ordens para os sistemas de armas (como o CIWS). O sistema analisa o ambiente tático em tempo real, prioriza ameaças e apoia os comandantes na tomada de decisões operacionais de defesa e ataque de forma automatizada. Em termos funcionais, o CMS deve fundir radar, sonar, guerra eletrónica, identificação, optrónica, data links e informação cooperativa numa imagem tática coerente; distribuir alvos pelos sensores e armas; registar decisões; e continuar a operar sob degradação ou ataque digital.[26] A qualidade de um CMS mede-se menos pelo aspeto das consolas do que pela velocidade com que transforma dados imperfeitos numa decisão de comando e numa solução de tiro segura. - Radar multifunções e defesa aérea
A referência italiana prevê o radar dual-band DBR-X-C[27] de faces fixas. Uma arquitetura AESA fixa elimina a espera mecânica por uma nova rotação da antena e permite formar múltiplos feixes eletrónicos, acompanhar muitos alvos e repartir tempo e energia entre busca de volume, seguimento de precisão, apoio a armas e vigilância de ameaças balísticas. A combinação de bandas procura explorar qualidades complementares: maior alcance e cobertura numa banda, maior precisão e discriminação noutra. O fabricante indica capacidade de apoio à defesa contra ameaças de trajetória balística; isto não significa, por si só, que toda a configuração nacional disponha de capacidade de interceção antibalística, até porque as especificações finais ainda não são conhecidas. O radar não combate sozinho. A defesa aérea depende de uma cadeia integrada: deteção, classificação, identificação, regras de empenhamento, qualidade do eco radar, ligação de dados do míssil, pesquisa terminal e avaliação dos resultados. Depende ainda de guerra eletrónica, engodos e artilharia ou sistemas CIWS[28] contra alvos que atravessem as diversas camadas externas. A combinação exata entre radar, lançadores verticais e variantes ASTER será, por isso, um dos indicadores mais importantes da ambição portuguesa. ASTER é uma família franco-italiana de mísseis terra-ar de lançamento vertical e operação sob quaisquer condições meteorológicas, desenvolvida pelo consórcio Eurosam. O sistema engloba variantes de curto a médio alcance (Aster 15) e de longo alcance (Aster 30), sendo utilizado tanto em plataformas navais como terrestres, tais como o sistema SAMP/T (Sol-Air Moyenne Portée/Terrestre – Superfície-Ar de Médio Alcance/Terrestre), para a defesa de área contra ameaças aéreas de alta intensidade, incluindo aeronaves, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos. O consórcio fabricante é composto pela Thales e pela MBDA (Matra BAe Dynamics Alenia). O sistema distingue-se pela sua elevada agilidade devido à tecnologia PIF-PAF (Pilotage en Force – Pilotage Aérodynamique Fort – Pilotagem por Força – Pilotagem Aerodinâmica Forte), que combina o controlo aerodinâmico convencional com a vetorização de impulso direto no centro de gravidade do míssil.[29] - Sonar, Ambiente e Luta Anti-submarina
Uma configuração anti-submarina moderna deve combinar sensores com geometrias diferentes. O sonar de casco oferece disponibilidade imediata e boa utilidade tática em certas condições; um sonar rebocado ou de profundidade variável pode afastar o sensor do ruído do navio e posicioná-lo abaixo ou acima de camadas térmicas; sonoboias lançadas pelo helicóptero ampliam a área; e sensores passivos exploram a emissão acústica do submarino sem revelar a própria posição. O anúncio FREMM EVO confirma a evolução do sistema sonar, mas não permite atribuir, sem reserva, todos os modelos e desempenhos à futura configuração portuguesa.
A eficácia resulta da equipa formada por navio, helicóptero, aeronaves de patrulha marítima, submarinos amigos e redes aliadas. A luta anti-submarina é uma operação de busca paciente e continuada, baseada na recolha e correlação de indícios acústicos, no conhecimento das condições oceanográficas, na capacidade de manter o contacto durante longos períodos e na coordenação entre navios, helicópteros, aeronaves de patrulha marítima e sistemas não tripulados. O melhor sonar perde valor se a guarnição não tiver horas de mar para reconhecer falsos contactos; o melhor helicóptero chega tarde se a manutenção reduzir a disponibilidade; e o melhor torpedo é inútil se a cadeia de identificação não suportar uma decisão de comando em segundos.
Construir uma Defesa por Camadas
A família ASTER dá profundidade à defesa aero-naval. O ASTER 15 é apresentado para curta/média distância e o ASTER 30 para defesa de área, com pesquisa ativa e controlo aerodinâmico combinado com vetoração direta de impulso do míssil.[30] A ficha pública da MBDA indica alcances superiores a 30 e 120 quilómetros, respetivamente, mas números de catálogo nunca devem ser confundidos com envelopes garantidos contra todos os alvos.[31] Para Portugal, a questão essencial é a quantidade e a combinação de munições, a capacidade de recarga e sustentação, a integração com redes aliadas e a reserva de espaço para evoluções futuras.
Na luta anti-superfície e contra alvos terrestres, o Teseo Mk2/E italiano acrescenta um seeker (pesquisador) AESA, planeamento de missão e controlo em voo por ligação satélite. O Teseo Mk2/E (Teseo Mark 2 Evolution) é um sistema de mísseis de cruzeiro anti-navio e de ataque terrestre de longo alcance, desenvolvido pela MBDA (Matra BAe Dynamics Alenia) para responder às necessidades operacionais da Marinha Italiana. Esta variante apresenta um alcance superior a 350 km em perfil de voo sea-skimming (voo rasante ao mar), velocidade subsónica elevada e capacidade de manobra terminal de alta carga de gravidade (high-G). O sistema utiliza guiamento autónomo por INS/GPS (Inertial Navigation System / Global Positioning System – Sistema de Navegação Inercial / Sistema de Posicionamento Global) acoplado a um radioaltímetro. Na fase terminal, destaca-se pela sua cabeça de busca dupla, que integra um sensor RF (Radio Frequency – Radiofrequência) com tecnologia AESA e capacidade ECCM (Electronic Counter-Countermeasures – Contra-contra-medidas Eletrónicas), combinado com um canal EO (Electro-Optical – Eletroótico) para garantir elevada precisão contra alvos marítimos e terrestres em ambientes de forte interferência eletromagnética. O controlo dinâmico em voo é assegurado por um data-link (ligação de dados) bidirecional por satélite, permitindo a reatribuição de alvos em tempo real e a execução de ataques coordenados com base no conceito STOT (Simultaneous Time-On-Target – Hora Simultânea sobre o Alvo).
A MBDA confirmou a futura integração na FREMM EVO italiana e a possibilidade de adaptação a clientes internacionais.[32] Até confirmação nacional, deve ser tratado como opção de referência, não como armamento português contratado. O mesmo princípio se aplica a qualquer capacidade de ataque terrestre: alcance sem intel (informações), atualização de alvo, regras políticas e stocks é apenas potencial teórico.
A artilharia continua relevante porque oferece resposta graduada, volume de fogo e custo por empenhamento inferior ao de um míssil. A OTO 76/62 SR (Super Rapid – Super Rápido) é um sistema de artilharia naval polivalente e automatizado de calibre 76 mm, desenvolvido pela empresa italiana Leonardo (anteriormente OTO Melara). Esta variante evoluída destaca-se pela sua cadência de tiro elevada, atingindo os 120 tpm (tiros por minuto), e por uma dispersão inferior a 0,3 mrad (miliradianos), o que lhe confere precisão contra ameaças aéreas, terrestres e de superfície. O sistema vem equipado com um MFD (Multi Feeding Device – Dispositivo de Alimentação Múltipla), capaz de selecionar em tempo real munições convencionais HE (High Explosive – Alto Explosivo) ou projéteis avançados. Entre estes, incluem-se as munições guiadas de longo alcance Vulcano e o sistema Strales, que recorre a um autodirector de RF (Radiofrequência) acoplado ao cano para guiar projéteis DART (Driven Ammunition Reduced Time of flight – Munição Guiada de Tempo de Voo Reduzido) contra mísseis anti-navio em manobra. Devido à sua versatilidade e ao escudo com tecnologia stealth (furtiva para redução da assinatura radar), atua frequentemente integrado com o CMS.
Peças de maior calibre, como 127 mm, reforçam o apoio de fogos e o alcance com munições evoluídas, mas exigem espaço, paióis e uma escolha clara de missão. A configuração ótima não é a que reúne todos os catálogos: é a que mantém coerência entre sensores, munições, espaço, guarnição e orçamento.
Contra submarinos, torpedos ligeiros como o MU90 podem ser lançados pelo navio ou pela aeronave orgânica. O MU90 Impact é um torpedo ligeiro avançado de terceira geração, desenvolvido de forma conjunta pela França e pela Itália através do consórcio europeu EuroTorp – composto pela Naval Group, Thales e Leonardo. O nome do vetor resulta da fusão dos projetos originais que lhe deram origem nos anos 80: o francês Murène e o italiano A290. Projetado especificamente para a ASW (Anti-Submarine Warfare – Luta Anti-submarina), este armamento do tipo fire-and-forget (disparar e esquecer) é capaz de neutralizar qualquer classe de submarino convencional ou nuclear. O sistema utiliza propulsão elétrica por pump-jet (hidrojato) alimentada por uma bateria de alumínio-óxido de prata ativada por água do mar, o que lhe permite navegar de forma silenciosa a velocidades variáveis entre 29 e mais de 50 nós, evitando a deteção precoce. A sua secção frontal aloja um autodirector acústico avançado que opera em modo ativo e passivo, processando múltiplos sinais em simultâneo para discriminar contramedidas e alvos falsos. A ogiva está equipada com uma carga explosiva moldada de alta penetração, otimizada para perfurar cascos duplos e operar tanto em águas profundas como em ambientes litorais de baixa profundidade. O torpedo atua integrado com o CMS das plataformas lançadoras, que incluem navios de superfície, helicópteros e aeronaves de patrulha marítima. O valor militar depende da qualidade da solução de ataque e da colocação da arma: um helicóptero pode lançar mais perto do contacto, reduzindo o tempo de reação do submarino e mantendo o navio fora da zona imediata de ameaça.[33] A defesa exige, em paralelo, deteção de torpedos, manobra, engodos e doutrina.
Sistemas Não Tripulados: Extensão de Armas e Sensores
A FREMM EVO italiana foi anunciada com capacidade para gerir sistemas não tripulados no ar, à superfície e sub-superfície, além de defesa moderna contra drones.[34] Esta formulação é mais importante do que parece. Um UAV pode prolongar a vigilância e identificar contactos além do horizonte; um USV pode colocar sensores em zona de risco, patrulhar ou apoiar guerra de minas; um UUV pode mapear fundos, inspecionar infraestruturas e atuar como nó de uma barreira ASW. Em conjunto, transformam a fragata de plataforma isolada em navio-mãe de uma constelação de defesa e de ataque distribuída.
A integração séria exige espaço de armazenamento e manutenção, meios de lançamento e recolha com mar formado, largura de banda, controlo de missão, cibersegurança, regras de autonomia e pessoal treinado. Exige também uma arquitetura de software que aceite novos veículos sem reconstruir o CMS. A diferença entre “transportar um drone” e “combater com sistemas não tripulados” está precisamente nessa integração.
Para a Marinha Portuguesa, esta área oferece uma oportunidade industrial realista. Empresas e centros nacionais podem contribuir em autonomia, comunicações, fusão de dados, cargas úteis, gémeos digitais e manutenção preditiva. Em vez de perseguir a produção integral de todos os grandes sensores, Portugal pode procurar autoridade de integração e capacidade para introduzir, certificar e apoiar módulos nacionais ao longo do ciclo de vida. É uma forma concreta de soberania tecnológica e de participação na visão aliada de um “oceano digital”.[35]
O Helicóptero Embarcado – Sensor e Arma Além do Horizonte
Nenhuma fragata ASW moderna está completa sem aviação orgânica. O helicóptero é equipado com radar, sistema eletro-ótico, ESM[36], sonoboias, sonar de imersão variável e torpedos para uma ser projetado para um posição taticamente vantajosa. Pode investigar um contacto sem desviar o navio, criar uma geometria multistática, manter pressão sobre um submarino e, em luta anti-superfície, identificar um alvo além do horizonte para o do emprego de mísseis. Em missões não combatentes, acrescenta busca e salvamento, evacuação médica, transporte e apoio a operações especiais.
NH90 NFH (Naval Frigate Helicopter).
O NH90 NFH constitui a referência italiana natural. A Leonardo descreve-o para ASW e ASuW[37], vigilância marítima, busca e salvamento e operações especiais, com sonar, sonoboias, comandos fly-by-wire, dobragem de pás e cauda e sistema de fixação ao convés; anuncia até cinco horas de autonomia e 530 milhas náuticas de alcance máximo em condições de referência.[38] Mas o facto de a FREMM italiana operar NH90 não significa que Portugal tenha escolhido esse helicóptero.
A Marinha Portuguesa opera Lynx Mk95A a partir das classes Vasco da Gama e Bartolomeu Dias e acumula experiência valiosa em ASW, ASuW, interdição e busca e salvamento.[39] A renovação da fragata obriga, contudo, a decidir o futuro da componente aérea: prolongar e integrar o Lynx modernizado, adquirir uma aeronave média com sonar de imersão e maior persistência, ou adotar uma solução faseada. Convés, hangar, elevadores, combustível, munições, oficinas, data links e sistema de movimentação devem ser dimensionados para a ambição futura, não apenas para a Esquadrilha de Helicópteros da Marinha existente.
Onde a Escolha Ganha ou Perde
Uma fragata moderna pode ter menos pesoal do que antecessoras maiores, mas cada militar acumula competências e a organização em quartos torna-se menos tolerante a baixas, cursos, licenças e destacamentos. Automatização reduz tarefas repetitivas; não elimina vigilância, controlo de avarias, manutenção, proteção da força ou equipas de voo. O dimensionamento deve partir da guarnição sustentável em guerra, e não apenas do mínimo demonstrável em paz. As referências públicas apontam para um núcleo de 157 na Type 26, com capacidade total para 208, e até cerca de 200 pessoas na FREMM italiana, números que não equivalem diretamente à futura guarnição portuguesa.[40]
A soberania decisiva será a capacidade de manter e alterar. O acordo português associa o programa à indústria nacional, transferência de tecnologia e revitalização do Arsenal do Alfeite.[41] Para que isso não se reduza a percentagens de contrapartidas, devem existir objetivos verificáveis: acesso a documentação e dados de configuração; formação de engenheiros e técnicos; bancadas de teste; autoridade para certas reparações; stocks dimensionados; capacidade de integrar software e cargas nacionais; e contratos que evitem dependência absoluta do estaleiro estrangeiro.
O custo de ciclo de vida nasce em decisões de desenho. Acessibilidade a válvulas e equipamentos, qualidade de revestimentos, proteção anticorrosiva, modularidade de eletrónica, padronização de componentes e facilidade de retirar um motor determinam dias de indisponibilidade durante décadas. A experiência acumulada nas atuais fragatas portuguesas deve ser convertida numa lista de requisitos de manutenção e ergonomia, acompanhada por equipas nacionais durante construção e provas. A inspeção de acabamentos não é vaidade: é prevenção de custo e perda de prontidão.
A transferência de tecnologia deve incluir o “direito de compreender”. Um navio ciber-resiliente cujo software só pode ser diagnosticado fora do país continua operacionalmente dependente. Um radar excelente sem acesso a dados de saúde ou um sonar sem capacidade nacional de análise perde disponibilidade. Num ciclo de vida de três décadas, dados, códigos, ferramentas de teste e propriedade intelectual negociada podem valer tanto como aço e motores.[42]
A aquisição de três navios representa uma recuperação decisiva, mas reduz a margem. Em qualquer frota pequena, um navio pode estar em grande manutenção, outro em aprontamento e apenas um plenamente disponível. A matemática não é fixa, depende da fiabilidade, planeamento e intensidade de emprego, mas a experiência demonstra que três navios raramente produzem duas fragatas permanentemente prontas para missões prolongadas. Uma quarta unidade deve, por isso, ser reequacionada como objetivo de força, ainda que não seja contratada de imediato.
Uma questão de perspetiva
Quando se afirma que uma fragata pode representar um investimento da ordem dos €1,34 mil milhões, o número é suficientemente elevado para, isoladamente, causar impressão. Mas os grandes investimentos públicos devem também ser analisados na escala temporal em que produzem efeitos.
Se esse valor for distribuído pelos 30 anos de vida útil esperada do navio, corresponde a cerca de €44,7 milhões por ano, ou aproximadamente €122 mil por dia. Esta conta não inclui, naturalmente, manutenção planeada ou corretiva, modernizações futuras, combustível, munições ou pessoal; serve apenas para colocar o investimento inicial em perspetiva.
Para perceber a ordem de grandeza, basta uma comparação simples: em 2024, a TAP gastou cerca de €60,8 milhões apenas em manutenção corrente da sua frota aérea, o equivalente a cerca de €167 mil por dia. Assim, o custo diário médio, ao longo de três décadas, da aquisição de uma fragata capaz de defender o espaço marítimo nacional, proteger rotas comerciais e infraestruturas submarinas, operar com aliados e permanecer disponível em situações de crise é, nesta perspetiva, inferior ao custo diário da manutenção corrente da frota da companhia aérea nacional.
Pode ainda olhar-se para o mesmo valor de outra forma. Com uma população residente estimada pelo INE em cerca de 11,4 milhões de pessoas, aqueles €44,7 milhões anuais equivalem a aproximadamente €3,91 por residente por ano, pouco mais de um cêntimo por pessoa por dia.
Não significa que uma fragata seja barata. Significa apenas que €1,34 mil milhões vistos de uma só vez contam uma história muito diferente de €3,91 por cidadão e por ano durante uma geração. E talvez seja essa a escala mais justa para avaliar uma capacidade estratégica destinada a servir o país durante três décadas.
Escolher a Fragata é escolher o lugar de Portugal no Atlântico
A escolha da futura fragata da Marinha não pode ser reduzida a uma comparação entre preços de aquisição, número de lançadores ou listas de equipamentos. Trata-se de uma decisão estratégica com consequências operacionais, financeiras, industriais e diplomáticas durante, pelo menos, três décadas. O verdadeiro custo de um navio de guerra mede-se ao longo de todo o seu ciclo de vida: na manutenção, nas modernizações, na disponibilidade efetiva, na formação das guarnições, no consumo de recursos humanos e na capacidade nacional para o sustentar sem uma dependência excessiva do construtor ou de entidades estrangeiras.
No estrito âmbito deste artigo, a Type 26 britânica apresenta qualidades extraordinárias e merece um reconhecimento inequívoco. É uma plataforma concebida de raiz para a guerra anti-submarina, dotada de elevado silêncio acústico, excelente comportamento oceânico, grande margem para o aumento de capacidades operacionais e uma arquitetura particularmente adequada à integração futura de sensores, armamento e sistemas não tripulados. A opção britânica beneficiaria ainda da relação histórica entre as marinhas portuguesa e britânica e da longa experiência da Marinha Portuguesa no treino operacional conduzido pelo FOST, em Devonport. Essa ligação constitui um património de interoperabilidade, confiança e cultura marítima que não deve ser ignorado.
Contudo, uma decisão nacional não pode resultar apenas da identificação abstrata da melhor plataforma numa determinada área da guerra naval. Deve considerar a maturidade do projeto, o risco tecnológico, os prazos de entrega, os custos de sustentação, a dimensão das guarnições, a compatibilidade com as infraestruturas existentes e, sobretudo, a capacidade de Portugal participar na manutenção, modernização e evolução dos navios ao longo de toda a sua vida operacional.
Considerada nesta perspetiva mais ampla, a FREMM EVO italiana poderá representar a solução mais equilibrada para Portugal. Conjuga capacidade oceânica, guerra anti-submarina, defesa aérea, sensores modernos, aviação embarcada e integração de sistemas não tripulados com a maturidade de uma família de navios já experimentada operacionalmente. A automatização, o potencial de evolução da plataforma e a possibilidade de estabelecer em Portugal uma capacidade soberana de sustentação poderão reduzir riscos e aumentar a disponibilidade operacional ao longo das próximas décadas. A escolha da FREMM EVO não deve, porém, significar uma adesão acrítica ao projeto ou ao construtor. Portugal terá de exigir rigor na qualidade da construção, nos materiais, nos acabamentos, na proteção anticorrosiva, na documentação técnica, na transferência de conhecimento e nas garantias contratuais. As Type 26 devem também, na justa medida do possível, produzir ensinamentos e lições aprendidas ao longo do tempo de vida útil das futuras FREMM portuguesas.
Esta decisão deve também ser compreendida à luz da atlanticidade de Portugal. O Atlântico não é apenas uma referência geográfica ou uma evocação histórica: foi, é e será sempre o espaço estratégico que define a posição internacional do país. O território continental, os arquipélagos dos Açores e da Madeira, a extensa Zona Económica Exclusiva e a pretensão de extensão da plataforma continental conferem a Portugal direitos, responsabilidades e interesses marítimos de enorme dimensão. Proteger este espaço, conhecer o que nele acontece e garantir liberdade de ação exige presença naval persistente, sensores adequados, autonomia logística e navios capazes de operar durante períodos prolongados em condições meteorológicas exigentes.
Essa necessidade torna-se ainda mais evidente perante o aumento da atividade submarina no Atlântico e a renovada importância das rotas marítimas, dos cabos submarinos, das infraestruturas energéticas e das ligações entre a América do Norte, a Europa, o Ártico, o Mediterrâneo e o Golfo da Guiné. A luta anti-submarina regressou ao centro da competição naval. Detetar, identificar, acompanhar e, se necessário, contrariar uma ameaça submarina exige muito mais do que um sonar instalado num navio: requer plataformas silenciosas, helicópteros embarcados, sensores rebocados, sistemas não tripulados, capacidade de processamento de informação, persistência no mar e integração com forças aliadas.
Portugal possui uma ligação histórica particularmente profunda ao Atlântico. Foi através deste espaço marítimo que o país se projetou para além da sua dimensão territorial, construiu relações com diferentes continentes e adquiriu relevância internacional. Portugal afirmou-se quando teve a coragem, a determinação e a capacidade de se aventurar no Atlântico. Virar-lhe agora as costas, por falta de visão, investimento ou ambição, constituiria um profundo erro estratégico e uma renúncia a uma das principais fontes da relevância nacional.
A renovação da esquadra não é, portanto, um luxo nem uma questão exclusivamente militar. É um investimento na soberania, na segurança das comunicações marítimas, na proteção dos recursos, na ciência, na indústria, na diplomacia e na capacidade de Portugal cumprir os seus compromissos perante os aliados. Naturalmente, os custos devem ser escrutinados e comparados com rigor. Mas a discussão pública não pode limitar-se ao preço inicial dos navios, ignorando o custo da indisponibilidade, da obsolescência ou da perda de capacidade oceânica.
As futuras fragatas deverão ser navios portugueses, ainda que construídos com tecnologia estrangeira. Isso significa garantir participação industrial nacional, formação especializada, acesso aos dados técnicos, capacidade de manutenção em território português e liberdade suficiente para integrar futuros sensores, armas e sistemas. Uma plataforma só será verdadeiramente soberana se Portugal puder operá-la, sustentá-la e modernizá-la de acordo com os seus interesses.
Se for acompanhada por um contrato exigente, por uma estratégia de sustentação nacional e por um programa coerente de formação e retenção de pessoal, a FREMM EVO poderá proporcionar à Marinha a capacidade oceânica de que necessita para as próximas décadas. A escolha não deve encerrar o debate, mas orientar a sua fase mais importante: assegurar que os navios entregues correspondem efetivamente às necessidades nacionais e que Portugal conserva os meios humanos, técnicos e financeiros necessários para os manter disponíveis e relevantes.
No fundo, a questão não é apenas saber qual é a melhor fragata. É decidir que Marinha pretende Portugal possuir e que papel deseja continuar a desempenhar no Atlântico. Um país com a nossa história, geografia e responsabilidade marítima não pode contentar-se com observar o oceano a partir da praia. O futuro de Portugal continuará, em larga medida, a ser decidido no mar.
Portugal, por certo, escolheu bem. Por certo, em 2060, os navios continuarão silenciosos, atualizáveis, armados, guarnecidos e disponíveis, assim o país saiba mantê-los e transformá-los sem pedir licença a ninguém.
NOTAS
[1] Ministério da Defesa Nacional, “Defesa assina acordo com a Itália para a aquisição de três fragatas de nova geração no âmbito do SAFE,” comunicado, 20 de julho de 2026, https://www.defesa.gov.pt/pt/comunicacao/comunicados/Lists/PDEFINTER_DocumentoList/20260720_MDN_AcordoSAFE.pdf (consultado em 9 de setembro de 2026). O comunicado confirma três navios, entregas entre 2029 e 2030 e um ciclo de vida não inferior a trinta anos.
[2] Ministério da Defesa Nacional, “Defesa assina acordo com a Itália.” O valor de 5,8 mil milhões de euros indicado no comunicado corresponde ao investimento SAFE global, do qual o programa naval constitui uma parcela significativa; não deve ser reproduzido como preço contratual das três fragatas sem documentação adicional.
[3] FREMM EVO (Fregata Europea Multi-Missione – Evoluzione) designa a mais recente evolução das fragatas multimissão da família FREMM, desenvolvida para a Marinha italiana pela Orizzonte Sistemi Navali, consórcio constituído pela Fincantieri e pela Leonardo. Esta versão incorpora um sistema de gestão de combate SADOC 4 ciber-resiliente, radar AESA de dupla banda DBR-X-C com antenas fixas, sistemas aperfeiçoados de guerra eletrónica, comunicações, ligações de dados e deteção submarina, bem como capacidades de defesa contra drones e de integração de sistemas não tripulados aéreos, de superfície e submarinos. A configuração definitiva dos três navios destinados à Marinha Portuguesa poderá, contudo, diferir da versão italiana de referência.
[4] Classe de fragatas multimissão da Armada Espanhola.
[5] FDI – Frégate de Défense et d’Intervention da Marinha Francesa
[6] Anti-submarine Warfare Frigate da Marinha Neerlandesa
[7] Máquina de Combate, “La Armada de Portugal explica la selección de las fragatas Fremm EVO”, 18 agosto 2026. A fonte refere F111/F110, FDI e ASWF como soluções avaliadas; não se trata de uma lista oficial portuguesa publicada.
[8] Espaço modular e multifunções integrado no navio, destinado ao embarque e emprego flexível de equipamentos, veículos, contentores de missão, embarcações, sistemas não tripulados ou outros meios especializados, permitindo adaptar rapidamente a plataforma a diferentes tipos de missão sem alterar a configuração estrutural principal do navio.
[9] A F125, também conhecida como Classe Baden-Württemberg, é uma série de quatro fragatas multimissão de grande porte da Marinha Alemã. Construídas pelo consórcio ARGE F125 (liderado pela ThyssenKrupp Marine Systems e Lürssen), elas substituíram as antigas fragatas da Classe Bremen (F122). Embora classificadas como fragatas, o seu deslocamento ultrapassa 7.200 toneladas e o comprimento chega a 149,5 metros, o que as posiciona em dimensões próximas às de um contratorpedeiro (destroyer).
[10] Anti-submarine Warfare
[11] Bundeswehr, “Baden-Württemberg-Klasse F125: Fregatten,” https://www.bundeswehr.de/de/ausruestung-technik-bundeswehr/seesysteme-bundeswehr/baden-wuerttemberg-klasse-f125-fregatten (consultado em 9 de setembro de 2026).
[12] North Atlantic Treaty Organization, “NATO 2022 Strategic Concept,” 29 de junho de 2022, https://www.nato.int/strategic-concept/ (consultado em 06 de setembro de 2026).
[13]FDI – Frégate de Défense et d’Intervention: classe de fragatas multimissão desenvolvida pela Naval Group para a Marinha francesa. Com cerca de 4500 toneladas de deslocamento, 122 metros de comprimento, velocidade máxima de 27 nós e autonomia até 5000 milhas náuticas ou 45 dias, foi concebida para guerra anti-aérea, anti-submarina e anti- superfície, projeção de forças especiais e resposta a ameaças assimétricas e cibernéticas. A FDI caracteriza-se pela arquitetura digital distribuída, radar multifunções Sea Fire, mísseis anti-aéreos Aster 15/30, mísseis anti-navio Exocet MM40 Block 3C, torpedos MU90 e capacidade para operar simultaneamente um helicóptero e um veículo aéreo não tripulado. Naval Group, “Defence and Intervention Frigate (FDI),” consultado em 10 de setembro de 2026, https://www.naval-group.com/en/products/defence-and-intervention-frigate-fdi
[14] Naval Group, “Naval Group Launches the Construction of the First Digital Frigate for the French Navy,” comunicado de imprensa, 24 de outubro de 2019, https://www.naval-group.com/sites/default/files/2020-10/cp-fdi-en.pdf (consultado em 9 de setembro de 2026).
[15] Navantia, cronologia oficial do programa F110; lançamento da F111 Bonifaz em setembro de 2025 e produção subsequente.
[16] Navantia, “F-110 — Fragatas”: descrição oficial de missão, digital twin, espaço multimissão, propulsão híbrida e arquitetura digital.
[17] SCOMBA: Sistema de COMbate de los Buques de la Armada, sistema de combate naval desenvolvido pela Navantia para a Armada Espanhola. Integra sensores, armas, comunicações e sistemas de comando e controlo numa arquitetura comum, permitindo a gestão da situação tática e o emprego coordenado dos diferentes sistemas de bordo.
[18] SPY-7: Radar multifunções de matriz faseada (phased-array) desenvolvido pela Lockheed Martin, EUA, destinado à vigilância aérea e de superfície, deteção e seguimento de ameaças e apoio à defesa antiaérea e antimíssil. Utiliza tecnologia de radar de estado sólido baseada em nitreto de gálio (GaN) e integra-se com sistemas modernos de combate naval.
[19] Os silos Mk 41 são as células verticais do sistema Mk 41 Vertical Launching System (VLS), instalado no interior do navio.
[20] Navantia, “Integrated Mast and Sensors — F110 Programme”; documentação pública relativa ao SPY-7/SCOMBA e integração de sensores.
[21] Damen Naval / Ministério da Defesa dos Países Baixos, contrato e especificações públicas das Anti-Submarine Warfare Frigates, 29 junho 2023.
[22] Mer et Marine, maio 2026, sobre atrasos e pressão de calendário no programa ASWF; usar como informação especializada, não como fonte oficial portuguesa.
[23] FDI — Frégate de Défense et d’Intervention: fragata de primeira linha desenvolvida pela Naval Group para a Marine nationale, com cerca de 4.500 t de deslocamento, 122 m de comprimento e velocidade máxima de 27 nós. Integra radar Sea Fire, mísseis ASTER, Exocet MM40 B3C, torpedos MU90, canhão de 76 mm e capacidade simultânea para helicóptero e UAV. A primeira unidade, Amiral Ronarc’h, foi entregue à Marinha francesa em 17 de outubro de 2025.
[24] Fincantieri, “Fincantieri: al via i lavori della prima unità ‘FREMM EVO’ della Marina Militare,” 3 de abril de 2025, https://www.fincantieri.com/it/newsroom/news-e-comunicati-stampa/2025/fincantieri-al-via-i-lavori-della-prima-unita-fremm-evo-della-marina-militare (consultado em 9 de setembro de 2026).
[25] Fincantieri, “FREMM EVO,” 3 de abril de 2025. A fonte identifica expressamente o Ship Management System ciber-resiliente, modernizações da distribuição elétrica e climatização e medidas destinadas a reduzir a pegada ambiental.
[26] Fincantieri, “FREMM EVO,” 3 de abril de 2025. O anúncio italiano refere SADOC 4, radar dual-band DBR-X-C de faces fixas, guerra eletrónica, artilharia e mísseis, sistema sonar, comunicações e data links táticos.
[27] O radar KRONOS DBR (Dual Band Radar) X/C de faces fixas, desenvolvido pela Leonardo, é o principal sensor de busca, seguimento e guiamento de mísseis das unidades navais da Marinha Italiana. Integra antenas ativas de varredura eletrónica (AESA) em duas bandas de frequência, distribuídas por painéis planos e estáticos no mastro do navio.
[28] CIWS é o acrónimo inglês para Close-In Weapon System (Sistema de Armamento de Defesa Próxima). Trata-se de um sistema de armas autónomo de reação rápida, composto geralmente por uma metralhadora rotativa multimira de cadência elevada controlada por radar (entre 3000 a 11000 tiros por minuto). Funciona como a última linha de defesa de um navio de guerra contra ameaças aéreas a curta distância, tais como mísseis anti-navio e drones invasores, que tenham conseguido ultrapassar as camadas de defesa primários.
[29] Leonardo, “Orizzonte Sistemi Navali Signs €1.5 Billion Contract for Two FREMM EVO Frigates for the Italian Navy,” 31 de julho de 2024, https://www.leonardo.com/documents/15646808/28989375/Cs%2BFremm%2BEVO_ENG_31072024.pdf (consultado em 9 de setembro de 2026). O valor respeita às duas unidades italianas e não constitui estimativa do contrato português.
[30] A vetoração direta de impulso permite alterar rapidamente a trajetória do míssil mediante propulsores laterais, proporcionando maior agilidade e precisão durante os segundos finais da interceção.
[31] MBDA, “ASTER: Anti-Air Missiles,” ficha técnica, 2019, https://www.mbda-systems.com/sites/mbda/files/2024-06/2018%20ASTER%20datasheet.pdf (consultado em 9 de setembro de 2026). A ficha indica alcance superior a 30 km para o Aster 15 e superior a 120 km para o Aster 30; o desempenho real depende da versão, do perfil de ameaça e da cadeia de sensores.
[32] MBDA, “MBDA Successfully Completes the First Launch of the New Teseo MK2/E Anti-Ship System for the Italian Navy,” 4 de novembro de 2024, https://newsroom.mbda-systems.com/mbda-successfully-completes-the-first-launch-of-the-new-teseo-mk2e-anti-ship-system-for-the-italian-navy/?lang=en (consultado em 7 de setembro de 2026).
[33] EuroTorp, “MU90/IMPACT,” ficha de produto, https://www.eurotorp.com/the-mu90-lightweight-torpedo/ (consultado em 9 de setembro de 2026).
[34] Designação corrente de um veículo não tripulado, capaz de operar por controlo remoto, de forma semiautónoma ou autónoma. No domínio naval, estes sistemas podem ser aéreos UAV/UAS (Unmanned Aerial Vehicle/System), de superfície USV (Unmanned Surface Vehicle) ou sub’superfície UUV (Unmanned Underwater Vehicle). São utilizados em missões de vigilância, reconhecimento, aquisição e designação de alvos, luta anti-submarina, guerra de minas, retransmissão de comunicações e avaliação de danos, aumentando o alcance dos sensores e armas do navio sem expor diretamente a respetiva plaraforma e guarnição. Em terminologia portuguesa, podem também ser utilizadas as expressões «veículo não tripulado» ou «sistema não tripulado», conforme a plataforma considerada.
[35] NATO, “NATO’s Digital Ocean,” 17 de outubro de 2023, https://www.nato.int/cps/en/natohq/news_219328.htm (consultado em 9 de setembro de 2026). A iniciativa ilustra a passagem de plataformas isoladas para redes de sensores, dados e sistemas autónomos interoperáveis.
[36] Electronic Support Measures (Sitemas/Medidas de Apoio Eletrónicas)
[37] Anti-Surface Warfare (Guerra Anti-superfície)
[38] Leonardo Helicopters, “NH90,” https://helicopters.leonardo.com/en/products/nh90 (consultado em 6 de setembro de 2026). A variante NFH é apresentada para ASW, ASuW, vigilância, SAR e operações especiais; pode integrar sonar e lançador de sonoboias e dispõe de sistemas de dobragem e fixação ao convés.
[39] Marinha Portuguesa, “Helicópteros,” atualizado em 30 de novembro de 2022, https://www.marinha.pt/pt/os_meios/helicopteros (consultado em 6 de setembro de 2026). A página refere cinco Lynx Mk95 e as missões ASW, ASuW, interdição, reconhecimento, transporte e busca e salvamento.
[40] BAE Systems, “Global Combat Ship.” A lotação de referência anunciada é de 157 elementos de núcleo, com alojamento e serviços para 208; a fonte italiana indica capacidade até cerca de 200 pessoas na FREMM, sem equivaler necessariamente à guarnição portuguesa efetiva.
[41] Ministério da Defesa Nacional, “Defesa assina acordo com a Itália.” O comunicado liga expressamente o programa à incorporação de empresas nacionais, transferência de tecnologia, revitalização do Arsenal do Alfeite e retorno para a economia portuguesa.
[42] Ministério da Defesa Nacional, “Defesa assina acordo com a Itália.” O horizonte de sustentação não inferior a trinta anos torna formação, dados técnicos, sobressalentes, software e autoridade de engenharia tão relevantes como a plataforma entregue.
[43] Transportes Aéreos Portugueses, S.A., 2024 Management Report and Consolidated Accounts, 2025, p. 102.
Manuel Amaral Mota – Capitão de mar-e-guerra da Marinha Portuguesa, na situação de reserva fora da efetividade do serviço e que, desde 2023, exerce funções como especialista civil internacional no Multidimensional Warfare Training Center (MDiWTC) das Forças Armadas do Catar. O seu trabalho incide sobre operações marítimas, modelação e simulação, planeamento e condução de exercícios, experimentação e jogos de guerra, com especial enfoque no desenvolvimento das capacidades necessárias para que as unidades navais do Catar possam integrar forças multinacionais ou participar em exercícios da NATO, designadamente no âmbito do NATO Operational Capabilities Concept Evaluation and Feedback Programme (OCC E&F). Neste contexto específico, mobiliza no presente artigo a experiência adquirida a bordo das corvetas da classe Al Zubarah, construídas pela Fincantieri e que, pelas suas características, podem ser consideradas versões compactas ou “mini-FREMM”. As opiniões por si expressas neste artigo são estritamente pessoais e não representam as posições oficiais da Marinha Portuguesa.