É preciso ir para lá da construção: os arquitetos não estão a projetar espaços, mas sim experiências
Quando a Biblioteca Central de Roterdão reabrir em 2030, as suas características mais marcantes ainda vão lá estar: as enormes tubagens de ventilação amarelas, as escadas rolantes cruzadas, os terraços escalonados e a inconfundível silhueta industrial. Ao lado destes, novas fachadas envidraçadas permitirão a entrada de luz natural no interior, e entradas adicionais voltarão a ligar o edifício com as ruas circundantes e a praça do mercado.
Ainda assim, a transformação mais ambiciosa deste projeto poderá ser aquela que os visitantes não se apercebem de uma forma consciente.
Por detrás da renovação da biblioteca, após o seu encerramento no ano passado, está um novo e meticuloso desenho da forma como o edifício é vivido.
Os arquitetos do atelier holandês Powerhouse Company não estão só a projetar os interiores, antes a repensar como este edifício deve funcionar como um espaço público.
O projeto reflete uma mudança mais ampla na própria arquitetura, com muitas das principais empresas do mundo a apostar cada vez mais no design de interiores, no mobiliário e na disposição como parte de uma visão criativa única.
Para Albert Richters, arquiteto e sócio da Powerhouse Company, que lidera esta renovação, juntamente com os estúdios noruegueses Atelier Oslo e Lundhagem, o desafio passa por transformar a biblioteca com 43 anos para uma nova geração, mantendo-se, contudo, fiel ao seu conceito inicial.
O projeto original do edifício, concebido pelo gabinete de arquitetura Van den Broek en Bakema, olhava para a biblioteca como algo para lá de simples repositório de livros, antes como uma praça pública vertical, explica Richters.
“Imaginaram um espaço aberto para a troca de conhecimento, onde se encontram pessoas, onde a cidade se reúne — uma espécie de praça para a cidade”.
“Este edifício é um ícone muito importante de Roterdão”, acrescenta. “Queríamos preservar esta imagem, preservar estas ideias e divulgá-las o mais possível”.
Expandir a visão
Quando a biblioteca foi inaugurada em 1983, desafiou não apenas ideias convencionais sobre o que poderia ser uma biblioteca, mas também sobre a aparência de um edifício público.
Tal como o Centro Pompidou em Paris, que fora concluído apenas alguns anos antes, a infraestrutura do edifício — normalmente escondida — foi exposta, alterando a forma como os visitantes o experienciavam.
Os seus tubos de ventilação amarelo-vivo tornaram-se parte da fachada. Já os terraços, que descem em direção à praça do mercado de Roterdão, suavizam a enorme escala do edifício, criando uma transição gradual entre a estrutura e a cidade que a rodeia.
Richters conta que a renovação teve, como um dos seus objetivos, de descobrir todas estas qualidades e adaptá-las para uma nova era.
“Tentámos mesmo trazer o design da biblioteca de volta à sua essência, modernizá-lo, e celebrar o facto de o próprio edifício, mesmo sendo antigo, ainda conter várias ideias incorporadas no seu conceito original que continuam a ser muito válidas hoje”.
Uma das principais ideias associadas à biblioteca original era a de torná-la “a sala de estar da cidade”, resume Richters.
“Normalmente, quando estamos em casa, não temos uma estante com livros no meio da sala. Temos uma estante encostada à parede. E, ao lado, podemos ter uma zona de estar ou um espaço de convívio”, explica.
Por isso, em vez de preencher com filas de estantes independentes os vastos espaços abertos, os arquitetos vão reorganizar grande parte do acervo da biblioteca em torno dos núcleos estruturais do edifício — as escadas, os elevadores e os poços de serviço que ancoram cada piso.
“A utilização destes núcleos também nos deu a oportunidade de criar muito mais abertura na biblioteca, o que, claro, é um daqueles conceitos que já existiam nos anos 80 — criar uma biblioteca onde é mesmo possível explorar”, diz.
Esta mesma ideia estende-se à forma como os visitantes se deslocam pelo edifício. Além das escadas rolantes expostas, a renovação vai introduzir uma nova extensão, com amplas escadas de madeira. que ligam os pisos superiores, acrescentando outra forma de navegar pela biblioteca.
"Tentamos mesmo garantir que não há becos sem saída na biblioteca, para que isso realmente aprimore esta ideia de exploração”.
A Powerhouse Company também contribuiu para o design de elementos como bancos e outros móveis integrados. Para a cidade de Roterdão, a decisão de combinar o trabalho de arquitetura e design de interiores numa única equipa não foi simplesmente uma questão de preferência criativa — foi uma decisão prática: separar as duas disciplinas poderia atrasar um projeto público já complexo e dificultar a criação de um resultado coerente, argumenta Richters.
Dos objetos aos ambientes
Hoje, os grandes gabinetes de arquitetura, como o Office of Metropolitan (OMA), o Snøhetta ou o Herzog & de Meuron, trabalham de forma interdisciplinar para moldar não só os edifícios, mas também os seus interiores, os seus objetos e as experiências que os definem.
Apesar de o design integrado existir há décadas, ganhou uma nova relevância à medida que os edifícios se foram tornando mais multifuncionais. Espera-se que as bibliotecas públicas façam mais do que pura e simplesmente fornecer acesso a livros. Os escritórios funcionam como espaços para eventos e áreas de convívio. Já os hotéis transformam-se, com frequência, em restaurantes, clubes privados e destinos culturais.
Sandra Denicke-Polcher, reitora interina da School of Architecture do Royal College of Art, em Londres, explica que a tendência se tem vindo a desenvolver nos últimos 20 a 30 anos, tendo-se, contudo, tornado "cada vez mais visível" à medida que os arquitetos contratam especialistas de diferentes áreas para trabalhar nos seus projetos.
“A complexidade da arquitetura é muitas vezes mal compreendida”, diz. “O importante é que não se criem compartimentos disciplinares, porque é preciso que alguém junte tudo isto, e tem de ser algo que funcione”.
“Não se trata de o arquiteto entregar o edifício e a estrutura, vindo depois outra pessoa trazer o mobiliário — que pode não servir. Há um conceito geral de como nos movemos e habitamos o espaço. E acho que é aí que o arquiteto trabalha um pouco como criador”, acrescenta.
A própria abordagem remete para o conceito de Gesamtkunstwerk — uma “obra de arte total”, em que cada elemento, desde a estrutura do edifício ao seu mobiliário, contribui para uma visão arquitetónica única.
No início deste ano, o Salone del Mobile — a maior feira de mobiliário do mundo, realizada durante a Semana do Design de Milão — lançou o Salone Contract, uma nova plataforma que reúne fabricantes, arquitetos, designers e fornecedores, para que trabalharem em conjunto em projetos de grande escala e na criação de ambientes completos.
A iniciativa está a ser desenvolvida com o atelier OMA. O sócio-gerente, o arquiteto David Gianotten, acredita que o foco do diálogo foi para lá dos próprios objetos.
"Não é de objetos que estamos a falar, mas sim de uma solução completa do ambiente interior", afirmou na Semana do Design de Milão. "O que vemos na arquitetura moderna é o seguinte: reunimos as pessoas certas para executar este ecossistema”.
Esta abordagem depende da colaboração ao longo de todo o ciclo de vida de um projeto — desde a conceção e construção até à operação, notou.
“É uma colaboração entre o cliente, o projetista, o fabricante, o empreiteiro… todas estas partes são relevantes, mas também o utilizador final e as pessoas que gerem o edifício, que fazem a sua manutenção, e até mesmo quem for renovar o projeto no futuro, disse Gianotten.
Para Richters, a arquitetura e o design de interiores nunca foram disciplinas totalmente separadas. "Acho que os arquitetos, de uma forma ou de outra, pensam sempre no interior", diz. "Mesmo que não sejamos necessariamente designers de interiores, ainda assim pensamos nas qualidades de um espaço interior”.
No entanto, para edifícios públicos como a Biblioteca Central de Roterdão, a relação entre a arquitetura e o design de interiores deve apoiar-se na finalidade do edifício, possibilitando diversas formas de as pessoas se reunirem, aprenderem, trabalharem e interagirem.
Em última análise, o sucesso de um projeto será medido não pela quantidade de detalhes arquitetónicos de que os visitantes se lembram, mas antes pela naturalidade com que o edifício se integra no seu quotidiano, nota Richters.
"A arquitetura não deve atrapalhar o que se quer alcançar ou o que se quer fazer quando se está no edifício", afirma. Por isso, "espero que a maior parte da biblioteca seja invisível".