Gabriel Sá: Presidente do Conselho do São Paulo é indiciado por falsidade ideológica

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Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo, em entrevista coletiva, no CT da Barra Funda
Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo, em entrevista coletiva, no CT da Barra Funda Imagem: Gabriel Sá / UOL

O presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo, Olten Ayres de Abreu Júnior, foi indiciado pela Polícia Civil por falsidade ideológica. Ele é suspeito de forjar um parecer do Conselho Consultivo do clube favorável à reforma estatutária que abriria caminho para a criação de uma SAF. Em nota, o dirigente negou irregularidades (veja mais abaixo).

O relatório final do inquérito conclui que há provas contra Olten Ayres por inserir declaração falsa em documento de uma proposta de reforma estatutária do clube, em dezembro de 2025.

A investigação começou após notícia-crime enviada pelo departamento jurídico do próprio São Paulo. O presidente do clube, Harry Massis, pediu à Comissão de Ética o afastamento cautelar de Olten e a apuração do caso.

O foco está em um parecer do Conselho Consultivo usado na proposta da reforma. O documento foi apresentado como oficial, mas a polícia concluiu que o órgão nunca se reuniu para discutir o tema. Para a polícia, a simulação serviu para legitimar a eventual reforma, o que configura falsidade ideológica (artigo 299 do Código Penal).

O relatório é assinado pelo delegado Tiago Fernando Correia, da 3ª DPPC (Delegacia do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania).

Parecer sobre SAF iniciou investigação

Em 17 de dezembro de 2025, o então presidente Julio Casares propôs a reforma estatutária para facilitar a criação de uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol) no São Paulo.

No mesmo dia, Olten enviou o texto ao Conselho Consultivo. Horas depois, o documento foi assinado por José Eduardo Mesquita Pimenta, então presidente do órgão, e pelo secretário Ives Gandra da Silva Martins.

A rapidez chamou a atenção da polícia, pois ocorreu dois dias após vazarem áudios sobre um suposto esquema ilegal de camarotes no Morumbis, também investigado.

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Em 24 de abril deste ano, Pimenta e Gandra enviaram um e-mail a Olten, dizendo que o parecer não era oficial, pois nunca houve reunião para discutir a reforma.

Eles relataram que o texto foi redigido por um terceiro, identificado como "Dr. Guilherme". O UOL apurou que essa pessoa seria o advogado Guilherme Salutti, que presta serviços ao São Paulo, sem debate entre os conselheiros.

Após essa retratação, o caso foi enviado à Polícia Civil, que abriu o inquérito.

Depoimento de advogado

O UOL apurou que o depoimento de Guilherme Salutti foi relevante para a Polícia Civil. Advogado que presta serviços ao São Paulo em demandas cíveis, administrativas e relacionadas ao Estatuto do clube, ele afirmou ter sido procurado diretamente por Olten para elaborar a minuta do parecer. Segundo ele, Olten disse que Pimenta e Gandra já haviam discutido o tema e queriam apenas a redação técnica.

A versão diverge do relato dos conselheiros. Salutti disse que Olten definiu as diretrizes, acompanhou a elaboração e aprovou o texto.

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A troca de mensagens de WhatsApp entre os envolvidos foi apagada devido à função de mensagens temporárias habilitada no aparelho do presidente do Conselho.

A tramitação durou pouco mais de duas horas: o texto chegou a Pimenta às 14h31, foi assinado em 20 minutos e retornou assinado por Ives Gandra às 16h52.

Pimenta declarou que não conhecia o texto, nunca o discutiu com Olten e que a tramitação foi "de afogadilho", sem reunião do órgão.

Pimenta renunciou

Em meio ao avanço da investigação, Pimenta renunciou ao cargo de presidente do Conselho Consultivo. O sucessor, José Carlos Ferreira Alves, disse à polícia que não participou de reuniões em dezembro de 2025 e que os encontros daquele ano foram informais. Ives Gandra também renunciou ao cargo de consultor do órgão.

Pimenta reforçou que ele e Ives receberam a minuta pronta apenas para assinar, sem debate prévio. Aos olhos da investigação, eles seriam vítimas na história.

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A tese da Polícia Civil é que o próprio parecer era ideologicamente falso desde a origem, porque foi apresentado como se fosse um parecer oficial do Conselho Consultivo, quando, segundo o que ela apurou, o Consultivo jamais se reuniu para deliberar sobre o assunto.

No interrogatório policial, Olten negou irregularidades. Ele alegou que o Conselho Consultivo não precisava se reunir e que o parecer era apenas opinativo.

A polícia, porém, vê outra contradição: o ofício de Olten submetia o tema ao colegiado e citava que a proposta fora apresentada "ontem" (16 de dezembro de 2025), mas o documento de Casares é do dia 17.

Defesa

Em nota enviada à reportagem, Olten Ayres de Abreu Júnior afirmou que recebeu "com tranquilidade" a informação sobre o indiciamento e que aguarda acesso integral ao relatório da Polícia Civil para que sua defesa possa analisar os fundamentos da investigação.

O presidente do Conselho ressaltou que o indiciamento representa apenas a conclusão da fase policial e não significa o oferecimento de denúncia pelo Ministério Público nem eventual condenação judicial. Na nota, Olten nega ter praticado falsidade ideológica ou obtido qualquer benefício pessoal ou político relacionado ao documento investigado.

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Ele também afirma que colaborou com as autoridades durante toda a investigação e que sua defesa adotará as medidas cabíveis após ter acesso integral aos autos, mantendo confiança no esclarecimento dos fatos nas instâncias competentes.

Próximos passos

O caso vai ao MPSP (Ministério Público de São Paulo), que pode denunciar Olten, pedir novas diligências ou arquivar o inquérito. O crime de falsidade ideológica em documento particular prevê pena de um a três anos de prisão e multa.

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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