Primeira medalha paralímpica Brasil: o legado de 48 anos

A primeira medalha paralímpica do Brasil, conquistada em 1976 por Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos da Costa em Toronto (Canadá), marcou o início da vitoriosa trajetória do país no esporte adaptado. Há 48 anos, a dupla garantiu a prata no lawn bowls, modalidade extinta e semelhante à bocha, estabelecendo um legado que culmina com o Brasil entre as cinco potências na Paralimpíada de Paris 2024. O país já alcançou o pódio 462 vezes no maior evento paradesportivo do planeta.

A primeira medalha paralímpica do Brasil foi conquistada em 1976 por Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos da Costa no lawn bowls.

  • Robson, fundador do Clube do Otimismo, e Luiz Carlos eram pioneiros na luta por reconhecimento e recursos para o paradesporto nacional.
  • O esporte paralímpico brasileiro evoluiu de iniciativa individual para política pública, com criação do CPB e a Lei Agnelo Piva.

As medalhas históricas estiveram expostas no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, em uma homenagem simbólica realizada na quinta-feira, 6. Foi justamente em 6 de agosto de 1976, em Toronto, que Robson e Luiz Carlos abriram a contagem de pódios do Brasil em Paralimpíadas.

“É o resgate de uma história que não era contada. Se hoje temos tudo isso [no esporte paralímpico], com televisão, entrevistas, esse momento de comemoração, é porque alguém lá no passado lutou para que isso acontecesse”, destacou Noêmia Almeida, sobrinha de Robson, à reportagem da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Criada como filha pelo medalhista paralímpico, Noêmia acompanhou de perto a trajetória do tio/pai. Ele foi fundador do Clube do Otimismo, no Rio de Janeiro, em 1958. Falecido em 1987, Robson criou a instituição, que abrigava pessoas com deficiência sem recursos para reabilitação, com a indenização do acidente que sofreu três anos antes e o deixou paraplégico. Ele trabalhava em uma fábrica de papéis nos Estados Unidos e teve a coluna comprimida por um rolo.

Um legado de luta e pioneirismo

“Naquela ocasião, não tinha recursos como hoje. O paradesporto não era uma política pública, então, tinha que sair batendo de porta em porta. Ele [Robson] batia na porta de deputados, de quem estava no poder, para ajudar a comprar uniforme, passagens, para representar o Brasil lá fora”, afirmou Noêmia. Essa persistência foi fundamental para as bases do que viria a ser o esporte paralímpico no país.

Noêmia Almeida (sobrinha de Robson Sampaio de Almeida), Yohansson Nascimento (vice-presidente do CPB) e Paulo Robson de Almeida (sobrinho de Robson Sampaio de Almeida) foram fotografados em homenagem no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo. (Foto: Marcello Zambrana/CPB)

Luiz Carlos foi um dos atendidos pelo Clube do Otimismo, onde estabeleceu uma grande amizade com Robson. “Curtinho”, como é conhecido, tem 79 anos e está em tratamento de Alzheimer. A dupla de pioneiros compartilhava não apenas o esporte, mas uma visão de inclusão e superação.

“Eles sempre formaram essa dupla dinâmica no esporte. Quando se formaram os primeiros times de basquete [em cadeira de rodas], meu tio foi o primeiro cestinha brasileiro, e o Luiz Carlos acompanhou. Foi um grande escudeiro do Clube do Otimismo. Ele [Luiz Carlos] também trabalhava com técnicas para recuperação das rodas das cadeiras. Nas disputas internacionais, dava sempre o apoio técnico para conserto”, recordou Paulo Robson de Almeida, sobrinho de Robson, em entrevista à EBC.

Como o paradesporto brasileiro se profissionalizou?

Robson e Luiz Carlos foram aos Jogos de Toronto para competir no basquete em cadeira de rodas e acabaram convidados para o lawn bowls. Na época, era possível participar de mais de uma modalidade. A dupla brasileira fez bonito no Etobicoke Lawn Bowling Club e assegurou o segundo lugar, atrás dos australianos Eric Magennis e Bruce Thwaite. Os britânicos David Avis e Michael McCreadie completaram o pódio.

“O Robson jogava o boliche tradicional, com a pista de madeira. E fazia vários strikes [quando todos os pinos são derrubados em uma única jogada]. Então, ele já tinha certa prática para segurar a bola. Mas o Luiz Carlos foi de primeira”, contou Paulo Robson. Essa versatilidade e adaptação demonstraram o talento e a capacidade dos atletas.

A história brasileira no movimento paralímpico mudou significativamente desde a medalha histórica de 1976. O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) foi criado em 1995. Três anos depois, a entidade foi incluída no Sistema Nacional do Desporto por meio da Lei 9.615, conhecida como Lei Pelé. Esta lei foi um marco para a institucionalização do esporte no país.

A medida possibilitou a entrada do CPB na Lei 10.264, chamada Lei Agnelo Piva, de 2001, que passou a distribuir 2% (atualmente 2,7%) dos recursos de loterias federais para financiamento do esporte. Desse percentual, 15% são direcionados ao paradesporto. Os demais 85% vão para o Comitê Olímpico do Brasil (COB).

Em 2016, surgiu o CT Paralímpico, uma das principais estruturas esportivas do país, considerado um legado dos Jogos do Rio de Janeiro. Além do impacto direto na evolução dos resultados do Brasil em Paralimpíadas, o centro de treinamento se tornou um polo de formação de atletas por meio da iniciação em modalidades adaptadas, de forma gratuita, a jovens de 7 a 17 anos com deficiências física, visual e intelectual.

“Ele [Robson] lutava para as empresas admitirem [pessoas com deficiência], que tivessem uma política de acreditar que aquela pessoa era capaz de trabalhar. A gente teve nele o exemplo desse espírito, e o esporte foi a consequência. O que estamos comemorando é a realização de um sonho. A luta dele é a de todos nós”, concluiu Noêmia.