Psicoterapia: como escolher a melhor abordagem? IA pode ajudar? Tire dúvidas

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Um homem idoso de barba branca, óculos e terno verde-escuro, sentado em uma poltrona vermelha, conversa com um robô prateado que segura uma prancheta. Acima do homem, um balão de fala com um cérebro; acima do robô, números binários. O fundo é um papel antigo com escrita cursiva e um tapete persa no chão

A psicoterapia saiu do divã de Freud para os bate-papos com inteligências artificiais, mas cuidado clínico segue sendo responsabilidade de profissionais qualificados. (Ilustração: Laura Luduvig/Veja Saúde)

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Na segunda temporada da série Sessão de Terapia, o diretor Selton Mello convidou o ator Claudio Cavalcanti para uma participação especial. Seu personagem, Otávio, é um executivo com síndrome do pânico.

Terminadas as gravações, o veterano elogiou a produção: “Sessão de Terapia não pode acabar nunca, porque basicamente é gente falando com gente — e isso será sempre fascinante”. Infelizmente, o ator morreu antes de suas cenas irem ao ar, ainda em 2013, aos 73 anos.

Treze anos depois, a série ainda não chegou ao fim — está em sua sexta temporada. Desde 2019, Mello dirige e interpreta o terapeuta Caio Barone.

Ele próprio já precisou de terapia depois de cair em depressão por causa do uso abusivo de um medicamento para controlar o apetite.

Meu terapeuta me salvou”, afirmou o ator no livro Eu Me Lembro (Jambô). “A terapia ajuda a colocar as coisas no lugar. Às vezes, a gente torna as coisas maiores do que elas são.”

Embora envolva gente falando com gente, como destacou Cavalcanti, terapia não é uma conversa informal nem um aconselhamento motivacional, como às vezes se dá a entender por aí.

Segundo a resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP), é uma prática de intervenção sustentada por um campo de conhecimentos e embasada por princípios éticos, desenvolvida em um contexto clínico adequado.

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É importante ter isso em mente diante da alta demanda atual. “A psicoterapia nunca foi tão procurada. O número de sessões aumentou mais de 200% de 2019 para 2023”, diz a psicóloga Andréa Chamon, doutora em psicologia social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), citando dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

“Atribuo isso a três fatores: uma maior conscientização sobre saúde mental, a redução do estigma da loucura e a pandemia da covid-19″, completa.

Com um mundo tão acelerado, hiperconectado e sujeito a reveses que vão de inflação a guerra, a demanda segue subindo — e a oferta de serviços também.

De acordo com o CFP, as pessoas podem (e devem) procurar a psicoterapia em pelo menos duas situações: para aprender a manejar conflitos cotidianos, como o luto ou o divórcio, ou enfrentar transtornos psíquicos, como a ansiedade e a depressão; e para promover o bem-estar mental.

Às vezes, a procura de adultos, casais ou famílias se dá por iniciativa própria. Outras, por recomendação de um profissional de saúde.

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Viver envolve passar por crises. Diante delas, temos dois caminhos a seguir: ou nos enfraquecemos ou nos fortalecemos”, afirma a psicóloga Christina Cerezetti, presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia (Abrap). “O papel do terapeuta não é tomar decisões pelo paciente. É ajudá-lo a enxergar a situação por ângulos que, sozinho, ele talvez nunca enxergaria.”

Dependendo do caso, a terapia é combinada com a prescrição de medicamentos. Em Sessão de Terapia, Otávio pede uma “solução imediata” para as crises de ansiedade. “Não posso te medicar. O que eu posso fazer é te recomendar um psiquiatra”, responde o terapeuta Théo, vivido por Zécarlos Machado.

“De fato, remédio é para quem está doente. Quem não tem diagnóstico não deve ser medicado”, diz o psiquiatra Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria da USP.

+Leia também: “É preciso reaprender a sofrer”, defende psiquiatra sobre a medicalização da vida

Medicar ou não? Qual abordagem procurar? E a inteligência artificial, pode ajudar? São muitas as questões atravessando o divã e outros settings terapêuticos.

Por isso, nesta reportagem, você lê sobre:

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  • Como escolher uma abordagem da psicoterapia?
  • A revolução das terapias online
  • A importância do suporte individual e coletivo
  • O advento das IAs
  • Características das principais abordagens
  • Manual do usuário

Confira:

No século 19, bastou o pai, um rico comerciante de Viena, cair doente para a filha, Anna O., pseudônimo de Bertha Pappenheim, apresentar uma tosse nervosa, sem motivo aparente.

Logo, outros sintomas, tão estranhos quanto inexplicáveis, começaram a surgir: estrabismo, paralisia, alucinação… Até o suicídio a jovem de 21 anos tentou. Foi durante uma sessão de hipnose que o médico austríaco Josef Breuer começou a desvendar o mistério de Anna O.

Hipnotizada, ela relatou que os primeiros acessos de tosse surgiram quando ela ouviu os primeiros acordes de música na casa ao lado.

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Em transe, entregou: gostaria de estar lá, naquela festa, cantando e dançando, e não ali, dentro de casa, tomando conta do pai doente.

“Seu tratamento entra para a história por ter sido a primeira aplicação do método de terapia pela fala”, explica o jornalista Alexandre Carvalho no livro Freud sem Traumas (LeYa).

O caso foi descrito por Breuer a Sigmund Freud. Juntos, os dois publicaram Estudos sobre a Histeria em 1895. Logo, Freud, que completaria 170 anos em 2026, substituiria a hipnose pelo divã, criaria uma teoria sobre o inconsciente e fundaria uma nova escola, a psicanálise.

“Ela é, antes de tudo, um método de investigação clínica”, define a psicóloga Gleda Brandão Araújo, presidente da Federação Brasileira de Psicanálise.

“Em um mundo que busca respostas rápidas e soluções imediatas, a psicanálise nos lembra da importância do tempo e da escuta.”

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Como um investigador, o terapeuta está sempre à procura de pistas. Algumas delas estão escondidas na fala do paciente. Outras, nos sonhos que ele tem, nos desenhos que faz…

“Cada abordagem psicológica nasce de uma teoria sobre como funcionamos, adoecemos e nos transformamos”, explica a psicóloga Gabriela Vidal, diretora da Federação Brasileira de Psicodrama. “São diferentes caminhos para chegar ao mesmo objetivo: o bem-estar da pessoa.”

No fundo, todas as correntes que surgiram e avançaram no século 20 se balizam por esse propósito. Nas sessões, a despeito da linha adotada, dois fatores costumam ser imperativos: a empatia com o terapeuta e a participação ativa do paciente.

“A melhora não depende apenas do terapeuta. É o paciente que precisa chegar à conclusão de que precisa mudar. Na verdade, o terapeuta ajuda o paciente a se tornar terapeuta de si mesmo”, afirma a psicóloga Ângela Donato Oliva, presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (saiba mais sobre os tipos de terapia nos quadros da reportagem abaixo).

Mas como saber qual abordagem escolher e, principalmente, se ela está funcionando?

A psicóloga Maria Alice Brito, presidente da Associação Brasileira de Gestalt-terapia, responde: se o paciente sai da sessão pior do que entrou, e se ele arranja desculpas para faltar ao encontro, é sinal de que, sim, a terapia está “colocando o dedo na ferida”.

Do contrário, é melhor ir atrás de outro profissional. A grande questão é que, com a oferta abundante de serviços, sobretudo online, o paciente pode ficar perdido nesse momento.

“Mas tem muita gente por aí que faz um workshop de uma semana e já acha que é terapeuta”, critica Brito.

Por essas e outras, independentemente da corrente em si, é importante se certificar das credenciais do psicoterapeuta — como um número de registro de psicólogo no CRP ou de médico psiquiatra no CRM.

“E, uma vez na sessão, o melhor termômetro é observar se você se sente seguro naquele espaço e se percebe uma melhora na sua forma de lidar com a vida”, orienta Cerezetti.

Outra dúvida recorrente é: quanto dura uma sessão? E o tratamento, vai se estender por semanas, meses, anos? O tempo, explica o psicólogo Gustavo Pessoa, diretor da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, sempre varia. Às vezes, uma sessão pode durar 30 minutos. Outras, uma hora e meia. O mesmo vale para o tratamento.

Pode ser algo específico, como um trauma pontual, que leva semanas ou meses. Ou algo abrangente, como uma compulsão ou depressão recorrente, o que vai exigir anos de acompanhamento.

Autora do livro recém-lançado Enquanto a Terapia Não Vem (Fontanar), a psicoterapeuta americana Liz Kelly pondera que alguns desafios podem ser enfrentados por conta própria. Exemplos? Praticar exercício, evitar o álcool e dormir melhor.

Outros, porém, carecem de ajuda especializada. “Se você tiver pensamentos suicidas ou quiser machucar os outros, procure um serviço de saúde mental”, ilustra. Aí que está: sobretudo diante de um diagnóstico, a terapia tende a ser incontornável.

Um robô prateado, sentado em uma poltrona vermelha, segura um tablet enquanto um homem idoso de óculos e barba branca deita em um divã de couro marrom, com as mãos cruzadas sobre o abdômen. O cenário tem um tapete persa vermelho e detalhes de papel rasgado no fundo, sugerindo uma sessão de terapia com inteligência artificial
– (Ilustração: Laura Luduvig/Veja Saúde)

A revolução das terapias online

Em 1890, Freud ganhou um presente inusitado de uma paciente: uma espécie de sofá sem braços e sem encosto. Ao comprá-lo, madame Benvenisti confessou que pensava mais nela do que no médico.

Queria estar confortável durante as sessões. Freud, ao que parece, aprovou o mimo. Tanto que decidiu cobri-lo com tapetes persas e almofadas de veludo para deixá-lo ainda mais aconchegante. Hoje, a peça está exposta em um museu de Londres.

Mais de um século depois, muitos discípulos de Freud resolveram trocar o divã pela tela. A terapia online ganhou tração durante a pandemia, quando terapeutas e pacientes não podiam sair de casa por causa do confinamento da covid-19.

Segundo Lucas Arthur, cofundador e COO da Telavita, a procura por terapia online continua crescendo no Brasil. Mas, passado o pior, esse movimento não pode mais ser explicado apenas como reflexo da crise sanitária.

“A pandemia acelerou a redução do estigma do atendimento remoto. Mas o crescimento atual está ligado à sobrecarga emocional da população, ao aumento da ansiedade no trabalho e à necessidade de acesso mais rápido”, analisa Arthur.

“O meio digital deixou de ser uma solução emergencial e passou a funcionar como infraestrutura permanente. O paciente vai buscá-lo pela velocidade e pela continuidade do cuidado”, diz.

De fato, a terapia virtual tem diversas vantagens. “Ela melhora a adesão porque reduz barreiras”, resume Arthur.

O sujeito não precisa pegar ônibus, enfrentar trânsito e perder tempo, entre outros imprevistos, para chegar à consulta. Basta ligar o computador, o tablet ou o celular. Outro diferencial: ela amplia a possibilidade de encontrar profissionais que se encaixam melhor no perfil do paciente.

“Uma pessoa que vive em uma cidade pequena, por exemplo, pode ter dificuldade de encontrar um psicólogo com experiência em luto, trauma ou carreira. No ambiente online, ela amplia seu raio de busca”, expõe Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude.

“Isso é importante em um país onde nove em cada dez municípios têm menos de um psicólogo ou psicanalista por mil habitantes”, completa.

A quebra de barreiras geográficas ocorre até quando um brasileiro precisa de terapia no exterior. Mas as sessões online também comportam limitações e desvantagens.

“Nem todos os pacientes conseguem criar conexão no ambiente digital, principalmente em casos mais complexos ou quando não há privacidade em casa”, diz o médico Rui Brandão, fundador e CEO do Zenklub. “Além disso, a tecnologia ainda depende de acesso a internet de qualidade e de um mínimo de familiaridade digital.”

Por tudo isso, a terapia online é contraindicada em casos mais graves, como surtos psicóticos e ideações suicidas. Em situações que envolvem, entre outros riscos para o paciente, crise aguda, necessidade de contenção e avaliação psiquiátrica, o digital não substitui o presencial.

Sigmund Freud, com barba branca e terno escuro, gesticula enquanto um robô prateado, sentado em uma poltrona vermelha, segura um tablet. Um balão de fala com um cérebro desenhado paira sobre o robô, sugerindo uma sessão de terapia ou análise de dados. O fundo bege tem recortes de papel e folhas verdes, criando uma atmosfera de colagem
– (Ilustração: Laura Luduvig/Veja Saúde)

Suporte individual e coletivo

Muito além de prestar atendimento remoto a adultos, casais e famílias, entre outros grupos, plataformas de terapia online, como Telavita, Vittude e Zenklub, já estendem seus serviços a empresas.

O assunto tornou-se ainda mais quente com a chegada da NR-1, a atualização da norma regulamentadora que obriga as companhias a gerenciarem os riscos psicossociais no emprego. É nesse contexto que a psicoterapia corporativa pede larga passagem.

Mas será que esse tipo de serviço realmente surte efeito entre os funcionários ou é um mero paliativo diante de metas abusivas, episódios de assédio moral e rotinas com alto risco de burnout?

“Uma empresa com jornadas excessivas e lideranças despreparadas não resolve seu problema oferecendo terapia. Isso pode ajudar, mas não corrige um ambiente adoecedor”, alerta Pimenta.

“A saúde mental corporativa vai muito além da terapia. Só produz resultado quando deixa de ser um benefício isolado e passa a ser tratada como infraestrutura de cuidado e gestão de risco”, concorda e complementa Arthur.

É por isso que hoje consultorias e serviços de gestão psicológica, como os já citados, deixaram de ser um luxo. Só que, se a companhia não mudar, as pessoas continuarão doentes. E, com a nova NR-1, isso poderá pesar no bolso da firma.

O que aconteceria se Freud entrasse numa máquina do tempo, igual àquela da trilogia De Volta para o Futuro, de Robert Zemeckis, e saísse de lá em pleno século 21?

O que o pai da psicanálise pensaria do fato de que tantas pessoas estão fazendo terapia na frente de uma tela e agora recorrendo até à inteligência artificial (IA) com essa finalidade?

Para a psicanalista Deborah Klajnman, autora de Todo Mundo É Louco? (7 Letras), o médico sentiria curiosidade.

Já o neurocientista sul-africano Mark Solms, que acaba de lançar Freud e o Cérebro (Amarilys), acredita que ele ficaria… horrorizado!

“Talvez Freud reconhecesse a utilidade do Chat- GPT como uma porta de entrada ou uma ferramenta de apoio no cuidado com a saúde mental”, vislumbra Klajnman.

Solms mantém os dois pés atrás: “Fazer terapia com IA pode ser perigoso: afinal, o computador diz apenas o que queremos ouvir, e não as verdades incômodas que devem ser encaradas se realmente queremos mudar de vida”.

Especulações à parte, o fato é que, por um lado, usuários estão usando robôs para fazer desabafos, pedir conselhos e organizar pensamentos.

Por outro, terapeutas estão recorrendo à IA para transcrever sessões, monitorar indicadores e emitir prontuários.

O psiquiatra Diogo Lara, doutor em ciências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), não acredita que, no futuro, as máquinas substituirão os profissionais da área.

“Assim como o livro digital não tornou o livro físico obsoleto e a TV não decretou o fim do cinema, os robôs não devem ocupar o lugar dos terapeutas”, projeta. “As duas inteligências, a humana e a artificial, vão coexistir.”

A exemplo do que acontece hoje com a terapia online, o uso da IA para fins terapêuticos parece irrevogável: as pessoas podem ouvir conselhos a qualquer hora e em qualquer lugar.

“Elas estão em busca de escuta em sistemas que nunca dormem, respondem às dúvidas instantaneamente e oferecem sensação contínua de disponibilidade. A preocupação começa quando a interação passa a ser confundida com vínculo”, adverte a psicóloga Ana Carolina Peuker, pós-doutora pela UFRGS.

“Os modelos atuais reconhecem padrões de linguagem e geram respostas plausíveis, mas não têm consciência clínica, responsabilidade ética ou compreensão subjetiva.”

Para a pesquisadora, mais importante do que responder à pergunta se, no futuro, robôs substituirão os terapeutas ou debater se máquinas são capazes de “tratar” humanos é refletir como preservar relações em uma sociedade cada vez mais mediada por algoritmos.

“Criar um aplicativo com respostas rápidas e palavras acolhedoras é fácil. Difícil é avaliar nuances, interpretar riscos e construir estratégias capazes de salvar vidas”, arremata.

A advogada Vanessa Bortolini, autora de Inteligência Artificial na Medicina (Foco), endossa: o desafio atual não é aceitar ou rejeitar a IA. É definir quais aspectos podem ser tecnologicamente assistidos sem comprometer aquilo que é essencialmente humano.

“Não podemos ignorar os riscos da IA. Chatbots já são acusados de reforçar sofrimento psíquico, criar dependência emocional e estimular comportamentos autodestrutivos”, aponta.

De volta à Europa do século passado, Freud morreu em 1939. Bem, “morreu” é modo de dizer.

“Foi morto e enterrado tantas vezes que começo a suspeitar que há nele algo que resiste a cada tentativa de sepultamento”, ironiza o psicanalista Gilson Iannini, autor de Freud no Século XXI (Autêntica).  “Sempre surge alguém dizendo que a psicanálise não funciona ou está ultrapassada. No entanto, nossos consultórios nunca estiveram tão cheios.

No divã ou na tela, demanda por terapia não vai faltar.

Dois robôs humanoides prateados sentados em poltronas vermelhas, um de frente para o outro, segurando tablets. Uma bolha de fala sobre o robô da esquerda mostra o rosto de Sigmund Freud e uma mão apontando para cima, sugerindo uma sessão de terapia ou debate sobre inteligência artificial e psicanálise
– (Ilustração: Laura Luduvig/Veja Saúde)

Por dentro das abordagens

Psicanálise

Freud comparava a mente a um iceberg. A parte visível, dizia, era o consciente e a invisível, o inconsciente. Muitos distúrbios nascem de traumas que são trancados a sete chaves no inconsciente. Através da cura pela fala, eles vêm à tona e os sintomas desaparecem.

Com o tempo, Freud criou outros conceitos, como ato falho, quando o paciente pensa uma coisa e diz outra, e associação livre, quando ele diz a primeira coisa que vem à cabeça.

Também dividiu a mente em id, ego e superego. Enquanto o superego quer que façamos a coisa certa, o id busca satisfação imediata. Cabe ao ego negociar com o superego e com o id. Algo que se trabalha nas sessões.

Psicologia analítica

Todo mestre tem um pupilo, e o de Freud chamava-se Carl Jung. Ao conceito de inconsciente individual, o psicanalista suíço acrescentou mais um: o coletivo. Dos arquétipos existentes, citava dois: persona e sombra — como o “médico e o monstro” do livro.

Jung também identificou dois tipos de personalidade: os introvertidos e os extrovertidos. Se os primeiros são mais reflexivos e gostam do silêncio, os segundos são mais sociáveis e gostam de fazer amigos.

Sua teoria avançou para a compreensão de mitos e estruturas que regem famílias e comunidades. Freud e Jung se conheceram em 1907, brigaram em 1913 e não se falaram mais.

Terapia Cognitivo-Compartamental

Se, na tragédia Macbeth, de Shakespeare, Lady Macbeth lavava compulsivamente as mãos, consumida pela culpa de ter matado o rei, é porque a terapia cognitivo-comportamental (TCC) ainda não tinha sido inventada.

A TCC nasceu da combinação da teoria comportamental de Joseph Wolpe e da terapia cognitiva de Aaron Beck.

Por um lado, a combinação ajuda a reduzir a angústia. Por outro, através de técnicas como a exposição gradual a uma suposta ameaça, controla a compulsão.

Bastante estudada, é indicada no tratamento de fobias, da síndrome do pânico e do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Psicodrama

Um nome pouco conhecido na psicologia é o de Jacob Levy Moreno. Um dos pioneiros no estudo da terapia em grupo, ele nasceu na Romênia e, em 1921, criou o psicodrama.

“A ideia central é poderosa em sua simplicidade: em vez de apenas falar sobre o que sentimos, vivenciamos”, explica Gabriela Vidal.

“Usamos o corpo, o movimento, a expressão e o encontro com outras pessoas para acessar emoções e situações que as palavras, sozinhas, muitas vezes, não alcançariam.”

Na prática, isso significa representar uma cena difícil da própria história. Na lápide de Moreno está escrito: “Aqui jaz aquele que abriu as portas da psiquiatria à alegria”.

Gestalt-terapia

De origem alemã, Gestalt quer dizer “forma” ou “essência”. Segundo os adeptos da Gestalt-terapia, os elementos individuais de um objeto pouco ou nada significam até serem compreendidos como partes de um todo.

Os fundadores da Gestalt-terapia são o psiquiatra alemão Fritz Perls e sua mulher, a psicóloga Laura.

O casal acreditava que, aconteça o que acontecer, somos responsáveis pela forma como agimos e reagimos. Se reagimos mal a uma notícia ruim ou a toleramos, isso só depende de nós.

Os Perls chamavam a habilidade de manter o ambiente interno em constante equilíbrio, independentemente das mudanças no ambiente externo, de homeostase. É ela que terapeuta e paciente buscam.

+Leia também: TCC, TAC e mais: conheça 5 abordagens mais comuns da psicologia

Manual do usuário

O que levar em conta ao procurar uma terapia hoje

Por onde começar
Antes de agendar uma consulta presencial ou online, verifique a habilitação profissional de seu terapeuta. Se ele for psicólogo, deve ter registro no CRP. Se for psiquiatra, no CRM.

Além do registro
Psicanalistas não têm conselho regional ou federal. Ainda assim, vale pesquisar a instituição onde ele se formou e verificar se faz parte de uma sociedade reconhecida.

Qualificações
Apure a abordagem clínica do terapeuta, assista a vídeos de apresentação e leia o depoimento de outros pacientes. Por que não pedir indicação a quem já passou pela sessão?

Profissional ideal
Nem todo terapeuta atende a todos os tipos de público. Há profissionais mais voltados a crianças e adolescentes. Outros, a casais e famílias. Certifique-se disso.

Privacidade
A despeito de a sessão ser virtual ou presencial, exija sigilo e privacidade. Escolha um ambiente reservado, com boa conexão à internet. Nada de locais públicos ou ruidosos.

Tira-dúvidas
Sem confiança não há terapia. Converse sobre o número de sessões, tempo de consulta, formas de pagamento e acesso, se for virtual, antes de contratar o serviço.

Não basta a fama
Há gente por aí que parece terapeuta, mas não é. É coach, é mentor, é tudo, menos psicólogo. Pior: fazem promessas nas redes sociais que não conseguirão cumprir.

A cada um o seu
Psicólogos e psicanalistas, é bom lembrar, não prescrevem remédios — só psiquiatras o fazem. A indicação depende do diagnóstico e do perfil do paciente.

Dever de casa
Muitas vezes, a terapia não acaba quando a sessão termina. Além das reflexões para o cotidiano, alguns terapeutas prescrevem exercícios para realizar na rotina.

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