Quanto subiria o nível do mar se todos os glaciares derretessem? Cientistas fizeram as contas

Das grandes massas degelo do Alasca aos glaciares escondidos entre as montanhas dos Himalaias, existe uma quantidade gigantesca de água congelada espalhada pelo planeta. Mas determinar exatamente quanto gelo existe — e quanto poderia acrescentar ao nível dos oceanos — é muito mais difícil do que parece.

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Uma nova investigação tentou responder à pergunta à escala global e chegou a um número impressionante: os glaciares do planeta, excluindo as enormes camadas de gelo da Gronelândia e da Antártida, armazenam aproximadamente 150 mil quilómetros cúbicos de gelo.

Se todos derretessem, essa água seria suficiente para elevar o nível médio global do mar em 32,3 centímetros.

Não se trata de uma previsão de que isso venha a acontecer de uma só vez ou até determinada data. O valor representa o potencial total de subida do nível do mar contido atualmente nestes glaciares.

O novo cálculo resulta de um modelo baseado em inteligência artificial desenvolvido por investigadores que reuniram mais de sete milhões de medições da espessura do gelo em diferentes regiões do planeta.

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O estudo foi publicado na revista científica ‘Scientific Data’ e divulgado pelo ‘Daily Mail’.

Sete milhões de medições para descobrir quanto gelo existe

O modelo chama-se IceBoost v2.0 e foi desenvolvido para resolver um dos problemas fundamentais no estudo dos glaciares: aquilo que vemos à superfície não revela necessariamente a quantidade de gelo que existe por baixo.

Para o treinar, os cientistas recorreram a mais de sete milhões de medições de espessura realizadas em glaciares de todo o mundo.

A inteligência artificial cruzou esses dados com 26 características físicas e geográficas, entre elas a inclinação e curvatura do terreno, a velocidade a que o gelo se desloca e a temperatura.

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Depois, o sistema estimou a espessura e o volume de todos os glaciares incluídos no Randolph Glacier Inventory, um dos principais inventários globais destas massas de gelo.

Segundo os investigadores, as estimativas aproximaram-se das observações realizadas no terreno com uma precisão até 40% superior à de métodos anteriores.

E surgiram algumas surpresas.

Há glaciares com dois quilómetros de espessura

Uma delas apareceu no planalto de Geikie, no leste da Gronelândia.

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Os cálculos indicam que os glaciares desta região armazenam quase o dobro do gelo anteriormente estimado. Em determinados pontos, a espessura poderá chegar aos dois quilómetros.

No arquipélago de Nova Zembla, no Ártico russo, o modelo identificou também zonas onde o gelo atinge aproximadamente 610 metros de espessura.

Diferenças desta dimensão são importantes porque saber quanto gelo existe hoje é o ponto de partida para calcular quanto poderá desaparecer à medida que as temperaturas aumentam.

Os novos dados serão agora utilizados em modelos destinados a simular a evolução dos glaciares até 2100 e a estimar a respetiva contribuição para a subida do nível do mar.

O equivalente a 32,3 centímetros de oceano

Somados, os glaciares analisados guardam gelo suficiente para provocar uma subida média global do nível do mar de 32,3 centímetros caso derretessem completamente.

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E esta conta nem sequer inclui as grandes camadas de gelo que cobrem a Gronelândia e a Antártida.

Os glaciares de montanha são particularmente vulneráveis ao aumento das temperaturas. Nos Alpes, Andes e Himalaias, por exemplo, têm sido registadas perdas acentuadas nas últimas décadas, à medida que o gelo derrete mais rapidamente do que a neve consegue substituí-lo.

“Temos de agir rapidamente”, afirma Niccolò Maffezzoli, investigador da Universidade Ca’ Foscari de Veneza e um dos autores do trabalho.

Segundo o cientista, muitos glaciares situados nas latitudes médias, incluindo nos Alpes, poderão desaparecer nas próximas décadas.

Não é apenas o nível do mar

Há ainda outra razão para perceber quanto gelo resta.

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Os glaciares funcionam como enormes reservas naturais de água doce. A neve acumula-se durante longos períodos, transforma-se em gelo e vai sendo libertada gradualmente através do degelo.

Essa água alimenta rios, agricultura e comunidades inteiras.

Cerca de 1,9 mil milhões de pessoas dependem, em algum grau, de água proveniente de glaciares, segundo os dados citados no estudo.

O desaparecimento do gelo pode criar uma situação aparentemente contraditória. Numa primeira fase, o aumento do degelo pode significar mais água a correr para os rios. Mas, à medida que o glaciar encolhe e a reserva acumulada desaparece, esse fluxo acaba por diminuir.

Um mapa para perceber o que pode acontecer até 2100

O IceBoost v2.0 não foi criado para determinar uma data em que os glaciares desaparecerão. O objetivo é estabelecer uma imagem mais precisa da quantidade de gelo que existe atualmente e de onde está armazenada.

Essa informação poderá depois alimentar modelos climáticos e permitir estimativas mais rigorosas sobre a evolução dos glaciares ao longo das próximas décadas.

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É particularmente relevante porque medições diretas da espessura do gelo são difíceis de realizar e estão distribuídas de forma muito desigual pelo planeta. Alguns glaciares foram estudados extensivamente; outros têm poucos dados disponíveis.

Com os mais de sete milhões de registos existentes e as características do terreno, o novo modelo permite preencher parte dessas lacunas.

E revelou que, em alguns lugares, havia bastante mais gelo debaixo dos nossos olhos do que os cálculos anteriores indicavam.