É das passagens mais intrigantes dos Evangelhos: “Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira-mar.” Olhando para os episódios anteriores, percebemos que não foi fazer praia. Jesus acaba de ter uma discussão familiar. À sua mãe e aos seus irmãos, que o vieram procurar — talvez por acharem que estava louco, talvez por pensarem que já tinha ido longe demais, quase de certeza para o repreender —, afirma que a sua verdadeira família é quem faz a vontade do Pai. Jesus coloca a fidelidade à vontade de Deus acima das tradicionais lealdades dos vínculos familiares. Num mundo extremamente desigual, onde a teologia vigente justificava essa desigualdade, Jesus surpreende ao mostrar que Deus é o Pai não de um grupo exclusivo, mas de todos os povos, de tal modo que todos se podem tornar parte da família de Deus. Na extraordinária expressão bíblica: quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. Esta ideia mudaria, para sempre, a história da Humanidade. Mas este texto não é sobre isso.
Jesus necessita de uma transição, e o verão é, desde sempre, um tempo de transumância. Não só porque marca a procura de novos lugares — em português, aliás, casa de férias é sinónimo de casa de verão —, mas porque é o regresso a um tempo de confronto. Durante o resto do ano, podemos disfarçar a existência com as nossas compulsões e eficiências laborais, podemos fugir de quem vive connosco, podemos colar a atenção à utilidade. Mas, se a “beira-mar” pode ser lida como todos os lugares fora de um cerco, o que procuramos neste tempo?
A vida e os dias, tal como uma frase, têm uma ordem, uma sequência. Mas, no verão, as palavras não se seguem umas às outras. As palavras e a vida são simultâneas. Como numa tela de Pollock, quando não conseguimos perceber que traço surgiu primeiro. Por isso, procuramos a “beira-mar”: para encontrar um presente que caiba todo no presente. É verdade: por um lado, há a multiplicidade dos seres, distribuídos individualmente pelo tempo; por outro, há o tempo no qual, e com o qual, as coisas têm o seu tempo. No verão, procuramos esse tempo sem extensões nem divisões. E, nessa medida, tentamos reduzir, evitar ou eliminar a dispersão.
Por esta via, podemos repensar quem é Deus e de que maneira existe, ou pode existir. Ora, na feliz analogia de John Caputo: se fôssemos criaturas aquáticas, Deus seria a água, não o maior peixe do mar. Nós, pelo contrário, marcados por leituras absolutistas de Deus e por interpretações perfeccionistas da transcendência, esquecemo-nos de que Deus, pelo menos para Jesus, pelo menos para os cristãos, é anterior à relação sujeito-objeto, Alguém que antecede a “descrição” das coisas, da mesma maneira que a floresta está para lá da enumeração de todos os seus componentes. No verão, procuramos essa desproporção. Deus, Aquele no qual o próprio tempo acontece permanentemente, como um hoje, é essa fratura, esse “nada” (Mestre Eckhart) tantas vezes difícil, como a sementeira; imensamente pequeno e transgressivo, como o grão de mostarda; possivelmente contraditório, como o trigo e o joio ou um tesouro escondido. E, curiosamente, é sobre estas quatro coisas que Jesus fala logo a seguir àquela fuga.
Um Deus para o verão não é um Deus maior. Afinal de contas, as perguntas mais decisivas avizinham-se de nós quando não nos defendemos delas. Um Deus para o verão não é uma quantidade, mas uma forma total de presença.