Rangel sobre conflitos: "Não chegámos seguramente a um ponto sem retorno"

Contactado por telefone pela agência Lusa desde Lisboa, Paulo Rangel indicou a partir do Cairo, onde se reuniu com o secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Fahmy, e com o homólogo egípcio, Badr Abdelatty, concordar com a frase proferida hoje pelo primeiro-ministro português, Luís Montenegro, que afirmou que o conflito no Médio Oriente está a "penalizar muito" Portugal e a Europa, considerando que está a ser seguido "um caminho, do ponto de vista económico e social, estúpido".

"Não comento frases do primeiro-ministro, mas é evidente que não há nenhuma guerra que não tenha um quadro que não é racional. É evidente que quando existe uma agressão tem de haver uma defesa, na maioria dos casos, pelo menos uma legítima defesa", afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros português.

"Estou totalmente de acordo com a ideia de que não é o caminho racional para resolver os conflitos, porque só traz sofrimento e declínio económico a toda a gente. Por isso, julgo que é uma frase que se explica a si própria, nem precisa de comentários", acrescentou.

Questionado sobre se vê alguma luz ao fundo do túnel que possa deixar antever o fim dos atuais conflitos, Paulo Rangel lembrou existirem guerras de natureza muito diferente, em que "umas têm uma solução plausível e outras exigiriam, uma grande mudança, uma grande operação de sensibilização, de pedagogia".

"Uma coisa é resolver conflitos, outra é promover o cessar-fogo. É possível ter um 'desescalar', para usar uma expressão que está agora em voga, sem que isso signifique que se tenha uma solução do conflito imediata. E para aqueles que representam problemas estruturais maiores, a primeira solução é cessar as hostilidades", acrescentou.

Instado pela Lusa sobre se os atuais conflitos se podem tornar um poço sem fundo, gerando uma crise económica, social e humanitária ainda maiores, Paulo Rangel afirmou acreditar que ainda não se está numa conjuntura dessas.

"Haver impactos negativos resultantes de conflitos armados e com diferentes graus é inevitável. Outra coisa é haver um efeito pelo próprio escalar dos efeitos. Julgo que nós não estamos ainda numa conjuntura dessas e acho que não é expectável" que se venha a estar, respondeu.

"Isso não significa que não haja efeitos severos, que já estamos a sentir, nomeadamente no caso da energia, dos preços do petróleo e do gás, nos problemas de segurança alimentar, por causa de [o estreito de] Ormuz estar bloqueado e não haver escoamento de cereais. O mesmo com a crise no Mar Negro, da Ucrânia, também isso não ajuda a essa exportação. Pode haver esse tipo de questões", acrescentou.

No entanto, o chefe da diplomacia portuguesa, para já, não crê que seja um impacto que tenha escalado, admitindo, contudo, que reveste características "severas".

"Mas não penso que tenhamos ainda, ou que seja adivinhável, um escalar que levasse a uma crise de outro tipo. Isso não creio", concluiu, frisando que não se chegou seguramente "a um ponto sem retorno".

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