Numa análise avançada pela casa de investimento CaixaBI, são elencados vários argumentos a favor de o Estado entrar na REN exatamente como acabou por o fazer: através da “porta” aberta pela Pontegadea. A aquisição da fatia de 13,7% que era detida pelo acionista espanhol é retratada como favorável do ponto de vista da governança e até do prémio a pagar pela transação. Em oposição, a compra de ações em mercado numa dimensão destas é tida como “pouco exequível”. Os analistas calculam que uma operação deste tipo pudesse demorar dois anos a estar concluída.
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EscolherNum estudo que data de 31 de julho de 2026, que o ECO/Capital Verde consultou no âmbito do processo de fiscalização prévia do Tribunal de Contas, o CaixaBI confirma que a compra da participação da Pontegadea na REN faz sentido à luz de vários pressupostos. A casa de investimento foi chamada a analisar a compra de uma participação minoritária no capital da REN e a avaliar a “magnitude” adequada para o prémio a pagar pela fatia detida por este acionista espanhol.
No âmbito desta análise, o CaixaBI assinala que a reduzida liquidez do título “dificulta a aquisição de uma participação relevante em mercado”. Avançar com “compras sucessivas” em mercado ao longo de um horizonte temporal “razoável”, e sem surtir um “impacto significativo” na cotação, é tido como “pouco exequível”. Isto porque, num título pouco líquido e com pouca dispersão de ações no mercado, uma pressão compradora súbita desta magnitude tenderia a fazer subir acentuadamente o preço. Seriam necessários cerca de 570 a 730 dias de negociação para adquirir, em mercado, uma participação equivalente a 13,7%, uma vez que a compra teria de ser feita pouco a pouco para não inflacionar o valor, estimam os analistas. O CaixaBI assinala também a “disponibilidade limitada de blocos acionistas relevantes”. Esta constatação acaba por implicar um “valor adicional” atribuído aos mesmos.
A favor da compra da parcela da Pontegadea são realçados os “direitos de governance” que esta carrega: embora uma participação de 13,7% não permita ao Estado ter controlo sobre a empresa, confere a “capacidade de influência direta na empresa” e “maior visibilidade sobre a evolução do negócio”, através de um acompanhamento mais próximo do plano de investimentos e desenvolvimento da rede. Isto, tendo em conta que a participação é o suficiente para assegurar um lugar no Conselho de Administração da REN.
Prémio compara bem com operações semelhantes
O CaixaBI aponta como adequado para a compra da Pontegadea um prémio entre 13,9% e 16,3% sobre o preço médio ponderado pelo volume dos últimos 6 meses (VWAP 6M), fixando em 15,1% o valor central. O mínimo deste intervalo corresponde a 4,19 euros por ação, o valor central a 4,24 euros por ação e o máximo a 4,28 euros por ação. Neste sentido, de acordo com um estudo prévio desenvolvido pela Parpública e que ‘bebe’ da análise do CaixaBI, o custo estimado da transação pode atingir os 388 milhões de euros. Num despacho conjunto assinado pelos ministros das Finanças e da Energia, fica assente que a compra não pode, “em qualquer caso”, exceder os 4,28 euros por ação, o correspondente a 392,6 milhões de euros.
Já olhando a outras transações que o CaixaBI vê como “comparáveis” – isto é, outras compras de participações qualificadas minoritárias que permitem influência estratégica na visada, mas sem garantir controlo –, verificaram-se prémios entre 13% e 33% face ao preço médio ponderado pelo volume dos últimos 6 meses (VWAP 6M).
Quando, em 2012, a Parpública enveredou pelo caminho inverso, e vendeu uma participação de 25% da REN à State Grid, o prémio comparável (sobre o VWAP 6M) foi de 50%. Contudo, a empresa chinesa teve um benefício adicional: assegurou três assentos no conselho de administração. No mesmo ano, a venda de uma fatia de 15% do capital da REN à Oman Oil Company, agora OQ, foi feita a um prémio de 33%, tendo assegurado um lugar na administração à empresa compradora.
Por fim, a casa de investimento evidencia que a REN negoceia com um desconto face à amostra de empresas congéneres europeias. Estas apresentam múltiplos de mercado entre 5,1% e 28,1% acima dos da REN. “O consenso dos analistas sugere uma valorização da ação da REN face aos níveis atuais, com um prémio implícito médio de 3,1% em relação ao VWAP 6M [preço médio ponderado pelo volume dos últimos 6 meses]”, lê-se no estudo.
E para além dos 13%?
Num Estudo demonstrativo do Interesse e da Viabilidade da Operação, avançado pela Parpública e que também consta dos registos disponíveis no Tribunal de Contas, lê-se que o Governo deu uma orientação, através de despacho, para a aquisição de uma posição qualificada da REN, “correspondente a um máximo de 20% das ações representativas do seu capital social”. A transação, numa primeira fase, correspondente a aproximadamente 13,7% do capital social da REN, equivale à posição acionista da Pontegadea Inversiones.
Os documentos disponíveis no Tribunal de Contas não dão pistas sobre em que condições ou horizonte temporal o Estado equaciona estender a sua participação na REN até ao limiar de 20%. De acordo com os cálculos do ECO/Capital Verde, se a holding do Estado avançasse já para a aquisição de mais 6,3% na gestora de redes elétricas na Bolsa de Lisboa, teria de pagar 147,8 milhões de euros, segundo cálculos do ECO com base na cotação da última sexta-feira, de 3,5050 euros por ação.
Cada negócio tem as suas próprias características e agentes, mas se o Estado for confrontado com as mesmas condicionantes e tiver de pagar um prémio ao mesmo nível do que foi acordado na compra da primeira fatia de 13,7%, terá de desembolsar mais 179,2 milhões de euros para adquirir 6,3% adicionais.
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