Retalho automóvel tem de se adaptar ao avanço dos carros elétricos

O retalho automóvel também vai ter de se adaptar à popularização dos carros elétricos, que vem colocar diferentes desafios e requerimentos a toda a indústria. Isto porque são viaturas com menor necessidade de intervenções mecânicas.

Num painel sobre o retalho automóvel durante o Fórum ACAP Auto'26, que decorre hoje em Lisboa e organizado pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP), o presidente executivo da Santogal, Eduardo Lupi, caracterizou o pós-venda como "mais enigmático que o que parece".

"É uma coisa muito mais estável do que as vendas e a evolução é muito mais gradual e as coisas vão evoluindo", disse, registando que, há uns anos, "toda a gente vaticinava que ia desaparecer a chapa e a pintura porque as companhias de seguros tinham as oficinas próprias" e porque os automóveis não iam bater devido a sistemas de controlo de travagem.

"Íamos perder as reparações grandes que fazíamos na chapa e pintura e a chapa e pintura ia desaparecer, e não foi nada disso que se passou, o que é, de facto, estranho e surpreendente", acrescentou.

"Corte monumental" no pós-venda

Eduardo Lupi anteviu que a perspetiva quanto às reparações automóveis também é agora desanimadora.

"Muito do dinheiro que ganhamos é a fazer revisões nos carros, não vamos ter revisões para fazer e, portanto, o nosso pós-venda vai levar um corte monumental", afirmou, acrescentando que os elétricos não têm óleo ou filtros associados.

No mesmo sentido, o presidente executivo da Caetano Retail para Portugal e Espanha, Paulo Araújo, apontou que a componente de chapa e pintura não está ameaçada, estando antes a mecânica mais implicada.

"O negócio da mecânica vai mudar radicalmente, a introdução dos eletrificados está a aumentar muito significativamente a complexidade desse negócio", referiu, o responsável da Caetano Retail.

Paulo Araújo acrescentou que a eletrificação vai levar "a uma redução das necessidades de assistência nos concessionários", onde o nível de fidelidade dos clientes ao longo do tempo de vida do automóvel tende a não ser muito elevado.

"Somos muito bons a reter os carros durante os primeiros quatro, cinco anos de existência e depois tendemos a ter alguma redução da assistência desses carros nas nossas concessões", disse.

Nesse sentido, sublinhou a importância de aumentar a fidelização dos carros acima desta idade, algo que só pode ser conseguido alterando o modelo de negócio.

"Nós podemos ter novas linhas de negócio, linhas que deixamos, se calhar, ao cuidado dos outros, mas não há nenhuma razão para não serem os concessionários a desenvolver", como pneus ou substituição de para-brisas.

Paulo Araújo registou ainda que, apesar de o valor por reparação nos elétricos ser mais baixo que nos carros a combustão, estes tendem a apresentar uma maior fidelidade junto dos concessionários.

Eduardo Lupi identificou ainda problemas recentes de veículos que chegaram dos importadores "cheios de campanhas, cheios de problemas" e que tiveram de ser colocados nas oficinas das concessionárias.

"O importador, hoje em dia, em algumas marcas ocupa 40 por cento da capacidade oficial dos concessionários (…) e quanto tempo é que isto vai durar? Vão continuar a produzir carros sem qualidade, que quando chegam ou ao fim de dois meses têm logo de ter três ou quatro intervenções?", perguntou, apontando para a elasticidade decorrente dessas flutuações.

"O pós-venda é efetivamente um setor que se tem que olhar com cuidado e temos que fazer pressão, sobretudo sobre os importadores, para nos pagarem um preço por hora razoável, porque a nós não nos faz sentido nenhum que o importador nos dê os problemas mais complicados para nós resolvermos", insistiu.

Portugal arrisca importar "o lixo da Europa"?

Também no painel, o administrador da Rodda (antiga Automóveis do Mondego) André Figueiredo abordou a importação de automóveis, que se não for tratada, vai levar a que Portugal importe "o lixo da Europa".

"Todos os clientes particulares privados vão à procura de oportunidades nos carros que não podem comprar como novos", disse, apontando que Portugal conseguir "paralisar as importações", poderá chegar aos níveis de Espanha no consumo de carros novos.

Na abertura do evento, o presidente da ACAP, Sérgio Ribeiro, disse ser importante olhar para a crescente entrada de usados importados "e para a diferença de tratamento fiscal existente" entre este automóveis e os novos comercializados em Portugal.

"O atual enquadramento permite reduções significativas de ISV nos usados provenientes de outros Estados-membros, criando condições de concorrência que nem sempre asseguram neutralidade entre as diferentes formas de acesso ao mercado", apontou.

Portugal entre os que mais vendem carros elétricos

Na sua intervenção, Sérgio Ribeiro também fez um balanço positivo da eletrificação, registando que, sem contar com a fatia das 'rent-a-car', Portugal "está no top cinco da Europa em termos de vendas de viaturas 100 por cento elétricas".

Ainda assim, alertou para a crescente idade do parque automóvel, que deve ser renovado para efeitos ambientais e para a segurança rodoviária, e sugeriu uma revisão da fiscalidade sobre o setor.

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Notícias ao Minuto | 20:01 - 30/09/2026