No Rio de Janeiro, a prefeitura deu início às obras da Terra Prometida. Trata-se do primeiro parque temático público da cidade, custará mais de R$ 200 milhões e terá como tema central os cinco primeiros livros da Bíblia.
No anúncio oficial, com maquetes, vídeos e fotografias renderizadas, o que se projeta é uma área de 200 mil m², uma nave para 7.000 pessoas, onde poderão acontecer cultos e eventos religiosos, e uma esplanada para multidões de 70 mil.
Entre os ambientes temáticos previstos estão o Jardim do Éden, o percurso sensorial dos Dez Mandamentos e o Caminho do Mar Vermelho, que, segundo a prefeitura, "contará com experiência simbólica de andar sobre as águas". O projeto também inclui os montes das Oliveiras, Sinai e Sião, que devem servir para a oração de grupos.
O parque está sendo construído na antiga Cidade das Crianças, um equipamento cultural e de lazer localizado na zona oeste, em Santa Cruz, com ciclovia, teleférico, teatro, museu e piscinas. Em 2008, naquele lugar, havia sido inaugurado o Museu Cósmico, também conhecido como Planetário de Santa Cruz, com investimento de mais de R$ 7 milhões, levando àquela região da cidade um moderno equipamento de ensino de ciência.
Dezoito anos depois, o planetário astronômico será convertido em um domo bíblico chamado Cinema 360º Gênesis. O contraste é tão literal que espanta.
A antiga Cidade das Crianças estava abandonada havia mais de uma década e, de fato, precisava ser transformada. Que a cidade se beneficiará da reconstrução de uma área de lazer perdida não há nenhuma dúvida. Daí à opção de fazer essa revitalização convertendo um espaço de lazer infantil em um parque temático religioso há boa distância.
Esse fenômeno de construção de espaços públicos com referências cristãs, explicitamente voltados para atividades religiosas, tem se disseminado pelo país. Noutra coluna, eu mesmo já havia mencionado algumas dessas novas áreas. Em Macapá, foi construído um batistério público. Em todo o país, multiplicam-se as praças da Bíblia. Em diferentes cidades do Nordeste, a maioria delas com menos de 50 mil habitantes e sem estrutura turística, têm sido construídas estátuas gigantes de santos católicos.
No caso do Parque Terra Prometida, contudo, a Prefeitura do Rio de Janeiro deu um passo além. Aquele não é atualmente um espaço de culto. Não há qualquer devoção particular naqueles arredores para a qual o parque serviria como infraestrutura de uma demanda já existente. O poder público, nesse caso, é o único ator responsável por gerar aquele território como religioso. E é ele também o curador do parque, não apenas dedicando-o deliberadamente aos cristãos, mas também fazendo a curadoria do tipo de cristianismo privilegiado no local.
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Não é sequer preciso ser muito versado no universo religioso para notar que, a despeito da alegada destinação do parque a católicos, evangélicos e judeus, sua ênfase curatorial é aquela mesma privilegiada pelos grupos sionistas cristãos. São igrejas, sobretudo pentecostais, que afirmam sua afinidade com Israel e projetam aquilo que o historiador Michel Gherman chamou de judeu imaginário. O Parque Terra Prometida é uma espécie de Terra Santa construída na zona oeste do Rio, com financiamento público, a partir desse imaginário religioso particular.
Ora, se nem numa obra dessa magnitude espacial e financeira os limites da laicidade são respeitados, quando seriam? Por mais representativo que seja um grupo religioso, uma construção como essa não cabe ao Estado. Tampouco é sua função escolher quais símbolos, narrativas bíblicas e práticas religiosas de uma determinada tradição serão monumentalizados com dinheiro público.
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