Rolex prepara identidade digital para os seus relógios. Será uma arma contra os roubos?

Os relógios Rolex são cada vez mais um alvo apetecível para grupos especializados em roubos de artigos de luxo. Em Portugal, só nas últimas semanas foram conhecidos vários assaltos violentos envolvendo relógios da marca. Agora, uma patente da Rolex revela uma tecnologia que poderá tornar muito mais difícil vender um relógio roubado.


A ROLEX SA patenteou um sistema que cria uma verdadeira identidade digital para cada relógio, associando o seu identificador único a uma infraestrutura protegida e acessível através da Internet.

A solução utiliza NFC, criptografia e bases de dados, podendo funcionar sem aplicação dedicada.

Cada Rolex com uma identidade digital

A patente norte-americana US20260236551, publicada a 13 de agosto de 2026, descreve um “Method for Managing Data Associated with a Timepiece”.

O sistema parte de um identificador único do relógio, como o número de série, que poderá estar presente em diferentes componentes. Este identificador é associado a uma base de dados contendo informações específicas daquele relógio.

A Rolex separa ainda os dados do relógio dos dados pessoais do proprietário. É uma distinção importante, sobretudo quando um relógio pode mudar várias vezes de mãos ao longo de décadas.

Curiosamente, apesar de a patente mencionar várias vezes blockchain, a solução da Rolex não assenta diretamente nesta tecnologia.

A fabricante refere sistemas já utilizados por outras empresas, como Arianee e WISeKey, mas aponta como inconveniente da blockchain a natureza praticamente imutável do histórico armazenado, especialmente problemática quando estão envolvidos dados pessoais de sucessivos proprietários.

Um cartão NFC poderá ser a chave

Um dos componentes centrais do sistema é um cartão físico associado ao relógio e equipado com um chip NFC passivo, ou seja, sem necessidade de bateria.

Ao aproximar o cartão de um smartphone, o NFC é alimentado por indução e poderá abrir uma página Web correspondente ao relógio.

Mais interessante ainda, o chip poderá possuir um número único, funções criptográficas e uma chave de encriptação. A patente prevê inclusivamente a geração de um novo endereço Web a cada utilização, permitindo ao servidor verificar se aquele cartão NFC é autêntico.

Tudo poderá funcionar através do navegador do smartphone, tablet ou computador, sem instalar uma aplicação Rolex e, em determinadas situações, sem sequer utilizar permanentemente uma conta de utilizador.

E se o Rolex for roubado?

É aqui que a tecnologia ganha particular interesse perante os recentes acontecimentos em Portugal.

No início de agosto, um automobilista parado num semáforo junto às Amoreiras, em Lisboa, foi ameaçado com uma arma por dois homens numa mota e obrigado a entregar um Rolex avaliado em cerca de 30 mil euros.

Já esta semana, outro caso em Lisboa terminou com a morte de um dos alegados assaltantes. Quatro homens terão roubado dois relógios de luxo e um fio, avaliados conjuntamente em cerca de 100 mil euros, fugindo depois em duas motas. A vítima perseguiu os suspeitos e uma das motas acabou por ser atingida. A Polícia Judiciária está a investigar o caso.

Na Quinta do Lago foi igualmente registado, esta semana, o roubo de um relógio de luxo a um turista ameaçado com uma arma de fogo.

O ladrão pode levar o relógio, mas não a sua identidade

A patente não prevê GPS, localização em tempo real ou qualquer mecanismo que permita bloquear fisicamente um Rolex. Portanto, esta tecnologia não protege diretamente uma pessoa durante um assalto.

Mas poderá ajudar a resolver outra parte importante do problema: vender o relógio roubado.

Uma possível evolução desta infraestrutura seria permitir que um relógio declarado roubado ficasse identificado como tal na base de dados da Rolex. Quando aparecesse posteriormente numa relojoaria, centro de assistência ou numa operação de compra e venda, o seu identificador poderia denunciar imediatamente a situação.

Importa sublinhar que a patente não estabelece atualmente uma função específica de “marcar como roubado”. Trata-se de uma possibilidade que uma infraestrutura deste género tecnicamente poderá permitir no futuro.

E há ainda uma consequência interessante. Um Rolex roubado em Lisboa poderia aparecer meses depois em Madrid, Paris, Londres ou Dubai e voltar a entrar na rede oficial da fabricante.

Se a identidade digital se tornar importante para autenticar, reparar ou revender relógios Rolex, o criminoso continuará a conseguir roubar o objeto físico, mas terá muito mais dificuldade em apagar a sua história.

Para uma marca cujos relógios podem valer dezenas ou mesmo centenas de milhares de euros, tornar um Rolex roubado difícil de vender poderá ser quase tão importante como impedir que seja roubado.