Secas extremas podem pressionar abastecimento de SP e RJ, diz estudo | G1

A projeção é de um estudo de pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).

A pesquisa analisou a Bacia do Rio Paraíba do Sul, área formada pelo rio Paraíba do Sul e seus afluentes e que se estende por partes de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

📌 ENTENDA: A água armazenada e transportada por esse sistema atende cidades da própria bacia e também chega às regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio por meio de transferências para outros sistemas.

O principal resultado é uma mudança no perfil das estiagens ao longo deste século: elas tendem a ocorrer em intervalos maiores, mas, quando acontecerem, podem durar mais tempo e ser mais severas.

Esse padrão aparece em grande parte das áreas e dos cenários avaliados pelos pesquisadores, principalmente nas projeções para o fim do século.

Um dos pontos que mais chama atenção é Paraibuna, na parte alta do sistema:

  • ali, a duração média das secas foi de cerca de oito meses no período histórico analisado;
  • entre 2061 e 2100, porém, pode chegar a 1,82 ano, ou quase 22 meses, em um dos cenários considerados pelo estudo.
“Na prática, essa mudança sugere que o sistema hídrico pode enfrentar períodos críticos mais difíceis de administrar”, explica ao g1 Lucas Pereira de Almeida, pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e um dos autores do estudo.

"Mesmo que as secas ocorram com menor frequência, quando acontecem tendem a durar mais tempo e a reduzir de forma mais persistente os níveis dos reservatórios".

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Paraibuna tem peso importante porque fica na parte alta da bacia, onde estão reservatórios usados para armazenar água e regular o fluxo que segue para outras áreas.

⚠️ Uma seca prolongada nessa região pode fazer com que esses reservatórios levem mais tempo para se recuperar, reduzindo a margem disponível para enfrentar um novo período de pouca chuva.

Os autores ressaltam, porém, que os números são projeções climáticas, e não uma previsão de que uma seca de determinada duração ocorrerá em um ano específico.

“Antes de mais nada, é importante destacar que os resultados do estudo indicam uma tendência, não uma previsão determinística, ou seja, são um indicativo do que pode ocorrer, sujeito às incertezas inerentes aos modelos climáticos”, afirma Almeida.

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Estação de tratamento de água do Guandu, que abastece grande parte do Rio de Janeiro — Foto: Reprodução/ TV Globo

É ali que parte da água do Paraíba do Sul é desviada para a Bacia do Guandu, sistema essencial para o abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

  • No cenário de maiores emissões analisado pelos pesquisadores, o indicador usado para medir a severidade das secas passa de 7,92 no período histórico para 58,46 no fim do século.

📝 ENTENDA: esse índice não indica quantos litros de água deixarão de chegar aos reservatórios ou às cidades. Ele serve para medir a gravidade de uma seca, combinando dois fatores: por quanto tempo ela dura e quanto a chuva fica abaixo do esperado ao longo desse período. Quanto maior o índice, mais prolongado e intenso é o episódio.

Quando a severidade das secas aumenta nessa região, como projetado pelo estudo, o volume total de água perdido durante um evento crítico tende a crescer, o que pode reduzir a vazão disponível para a transposição, exigir operações mais restritivas dos reservatórios, aumentar a pressão sobre o baixo Paraíba do Sul e, em casos mais extremos, ameaçar a segurança hídrica de milhões de pessoas.

— Lucas Pereira de Almeida, engenheiro civil, mestre em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos pela UERJ e pesquisador na área de modelagem hidrológica e climática.

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E como se preparar para secas mais longas?

Para reduzir parte da incerteza das projeções, a equipe comparou diferentes modelos climáticos com o comportamento das secas registrado no passado e deu mais peso aos que melhor conseguiram reproduzir esse histórico.

Com essa seleção, a diferença entre as projeções caiu, em média, 61% para a duração das secas, 70% para a severidade e 59% para o intervalo entre os eventos.

Mesmo assim, continuam existindo incertezas sobre a evolução das emissões de gases de efeito estufa e sobre a capacidade dos modelos de reproduzir mudanças locais nas chuvas.

O próprio estudo mostra que a resposta não é igual em toda a bacia: em algumas áreas, por exemplo, o cenário intermediário apresentou secas mais longas do que o cenário de emissões mais altas.

Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de preparar o sistema antes de uma situação crítica.

"A principal mensagem é que o problema não é apenas a mudança climática", detalha Rosa Formiga, professora do Departamento de Engenharia Sanitária e do Meio Ambiente (DESMA) da UERJ e também autora do estudo.

"Nossa vulnerabilidade resulta da combinação do estressor climático com pressões que já existem sobre os recursos hídricos, como demanda de água, poluição, uso desordenado da terra, degradação dos mananciais, entre outras".

Entre as medidas discutidas, por exemplo, estão:

  • rever regras de operação dos reservatórios para períodos de estiagem mais prolongados,
  • ampliar o monitoramento,
  • reduzir perdas de água,
  • diversificar fontes
  • e definir planos de contingência.

“Para nós, essa é a provocação mais importante que buscamos trazer com a publicação. Com base nos resultados do estudo e na literatura de gestão de secas, entendemos que existem três frentes prioritárias para ampliar a adaptabilidade dos sistemas e a segurança hídrica, sempre no sentido de subsidiar a discussão pública, e não de prescrever soluções fechadas”, acrescentou Almeida.

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