João Santos Carvalho, empreiteiro da Construbarcelos e amigo do ministro da Administração Interna, Luís Neves, assumiu ter-se oferecido para guardar o atrelado apreendido pela Polícia Judiciária (PJ) sem qualquer tipo de compensação, tampouco documentos a formalizar a deslocação da galera até às instalações da empresa, em Barcelos. O empresário adiantou também ter sido o responsável pela construção da piscina que, asseverou, "é um tanque", quando o governante não estava presente, em Odemira.
"Fui eu que me ofereci. Foi em Évora, na obra que estava a fazer para a PJ. Vi o diretor financeiro um bocado preocupado e disse-lhe: 'Tenho lá um espaço grande, quase dois mil metros quadrados, posso guardar isso'", relatou, em declarações à TVI/CNN/Nascer do Sol.
O empreiteiro garantiu ainda que apenas ajudou "a PJ a resolver um problema que tinha para resolver", sem qualquer tipo de compensação.
"Ainda havia de cobrar ao Estado por os ter aí não sei quantos meses. Se calhar ainda tive prejuízo a ir buscá-los e a guardá-los [o atrelado e os bidões]", disse.
E reiterou: "Aquilo não era meu, não fiquei com eles [atrelado e bidões], só estava a guardar."
João Santos Carvalho não viu "nada de estranho" em não ter recebido documentos a formalizar a deslocação dos itens, justificando que, "se vem uma autoridade à frente, é um documento".
"Uma autoridade escusa de escrever. Basta respeitar", concretizou.
De notar que esta informação contradiz os dados inicialmente avançados pelo então diretor nacional da PJ ao Diário de Notícias, que frisou que o processo tinha sido devidamente documentado. De facto, a questão ficou por esclarecer na conferência de imprensa de quarta-feira, tendo Luís Neves remetido mais explicações para a autoridade.
Ainda assim, importa recordar que o Expresso já tinha dado conta de que os investigadores não encontraram qualquer documento, ordem ou despacho que atestasse a deslocação do atrelado de um terreno da Marinha Portuguesa, no Seixal, até ao espaço da Construbarcelos. A guia deveria de ter sido publicada numa plataforma partilhada pelo Gabinete de Recuperação de Ativos (GRA) e pelo Gabinete de Administração de Bens (GAB), que está sob a tutela do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ).
De qualquer modo, o empresário indicou que "a galera nunca andou" e apenas "foi aberta para tirar os bidões", que ficaram "bem acondicionados, selados". Segundo João Santos Carvalho, os inspetores da PJ que estiveram nas suas instalações "tiraram fotografias" de tudo.
O tanque que passou a piscina e que "é um tanque"
As obras na propriedade do ministro também foram abordadas, tendo o empreiteiro revelado que, mais uma vez, foi o próprio a oferecer-se "para fazer aquilo para o homem [Luís Neves]", que "nem queria".
"Aquilo é um tanque. Num fim de semana, o homem não estava, peguei na máquina e aterrei aquilo. Aquilo é um tanque, não é uma piscina. As pessoas não sabem o que é, tirem um curso! Achei que ficava mais engraçado e, no fundo, até fica", explanou, garantindo que "quem pagou foi sempre a doutora Ana". "O resto, acertamos no fim."
Estas declarações coincidem com as do tutelar da pasta da Administração Interna, que disse que "foi pedido para se fazer um tanque, construído acima do nível do solo", na sua propriedade em Odemira.
"Esse tanque foi efetivamente construído, mas depois acabou por se transformar numa chamada piscina média familiar, já que foi ladeada de terra. Não pedi licenciamento, pois eram intervenções de pouco impacto na estrutura existente", argumentou, durante os esclarecimentos que prestou na quarta-feira.
Sublinhe-se que a Lei Geral Tributária proíbe pagamentos em numerário de valor igual ou superior a três mil euros, mesmo se o montante for entregue de forma faseada. Luís Neves confessou ter pagado cinco mil euros em dinheiro e faseadamente a João Santos Carvalho, o que pode ser punível com uma coima de 180 a 4.500 euros.
A polémica estalou no dia 10 de julho, quando o semanário Nascer do Sol avançou que o ministro da Administração Interna contratou a Construbarcelos, responsável por obras na PJ quando era diretor nacional, para remodelar um imóvel que detém em Odemira.
Um atrelado que havia sido apreendido no âmbito da "Operação Pacoba", uma ação que permitiu desmantelar "um dos maiores laboratórios de droga da Europa" na zona Oeste, em dezembro de 2024, foi encontrado nas instalações da empresa de João Santos Carvalho, mais de um ano e meio depois.

"Ato de boa gestão", obras e património. Neves diz sentir-se "legitimado"
Após semanas de silêncio, Luís Neves esclareceu, esta quarta-feira, as polémicas que envolvem o seu nome. Numa conferência de imprensa, o atual ministro da Administração Interna explicou "ponto por ponto" os diversos temas e garantiu estar "totalmente legitimado" para continuar o seu trabalho no Governo.
Maria Gouveia com Lusa | 17:59 - 29/07/2026