Senado americano adia a proibição de drinks canábicos

Duas latas de Artet, uma de camomila e limão, outra de toranja e alecrim, com caixas correspondentes. Metades de toranja e laranja decoradas com pequenas margaridas estão à direita, sobre um fundo azul-petróleo
NOVA ONDA Bebida botânica com extrato de cannabis (THC): criado para preparar coquetéis sofisticados (ARTET/Divulgação)

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Parecia que os fabricantes de bebidas canábicas estavam prestes a perder a batalha para a poderosa indústria do álcool, apesar de terem conquistado o mainstream. Cervejas, refrigerantes e drinques com THC (substância psicoativa da maconha) já são vendidos em grandes redes varejistas, bares e festivais de música, muitas vezes como alternativa às bebidas alcoólicas. Mas Washington mudou o rumo da disputa. Os produtos derivados do cânhamo caminhavam para a proibição federal a partir de novembro, até que líderes do Senado americano incluíram, em uma proposta de financiamento do governo, um dispositivo que adia a medida.

O movimento dos senadores é interpretado pelo mercado como um sinal de que o governo pretende elaborar um marco regulatório nacional para o setor. Em vez de retirar as bebidas das prateleiras, a discussão passa a ser como estabelecer regras para sua comercialização. A proposta em discussão prevê um modelo semelhante ao adotado para as bebidas alcoólicas, com idade mínima para compra, testes laboratoriais obrigatórios, padrões de rotulagem, limites de concentração de THC e regras nacionais para fabricação e distribuição. A ideia vem ganhando apoio de parlamentares republicanos e democratas, que defendem substituir o atual cenário de insegurança jurídica por uma legislação específica para os produtos derivados do cânhamo.

A mudança foi comemorada pela Coalizão dos Comerciantes de Bebidas Alcoólicas (Beverage Alcohol Merchants Coalition – BAMCO), entidade que representa varejistas do setor. Em nota, o porta-voz Jonathan Grella afirmou que a decisão cria “uma oportunidade importante para alcançar uma regulamentação significativa do cânhamo” e disse que a coalizão pretende trabalhar com parlamentares para estabelecer normas que garantam segurança aos consumidores e previsibilidade ao mercado.

Curiosamente, parte da própria indústria de bebidas alcoólicas, que antes defendia restrições mais duras, passou a apoiar uma regulamentação federal. O setor reclamava não apenas da concorrência crescente nas prateleiras, mas também da diferença de tributação entre bebidas alcoólicas e produtos derivados do cânhamo. Nos estados onde as bebidas com THC derivado do cânhamo são permitidas, muitas vezes elas pagam apenas o imposto sobre vendas (sales tax), enquanto cervejas e destilados estão sujeitos a impostos específicos sobre álcool. 

As bebidas com THC se transformaram em um dos segmentos mais promissores da indústria do cânhamo nos Estados Unidos. No ano passado, o mercado faturou 1 bilhão de dólares. A previsão é de um crescimento de quatro vezes até 2028.  Impulsionadas pela brecha criada pela Farm Bill de 2018, que legalizou o cultivo da planta, os drinks canábicos conquistaram consumidores mais jovens, especialmente da geração Z. Os fabricantes apresentam o produto como uma alternativa ao álcool, destacando efeitos previsíveis, dosagem padronizada e um consumo social semelhante ao de cervejas e coquetéis.

A questão já não é mais se as bebidas com THC poderão existir, mas sob quais regras serão vendidas. Se essa sinalização se confirmar, os Estados Unidos poderão inaugurar uma nova fase para o mercado de cannabis de baixo teor de THC: menos marcada pela proibição e mais voltada à regulamentação. O modelo se aproxima do adotado no Canadá, onde bebidas com THC são permitidas desde 2019, mas submetidas a regras rígidas de fabricação, rotulagem, dosagem e venda.

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