"Senti-me um violino": a história da portuguesa de 22 anos que foi vocalista dos Sigur Rós por duas noites (e soube disso quatro horas antes)

Banda islandesa esgotou dois concertos em Portugal com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa

Margarida Vieira, jovem soprano do Coro Ricercare, de Lisboa, foi vocalista dos Sigur Rós nos concertos do Coliseu do Porto e do Campo Pequeno. Quando chegou a vez de 'Varðeldur', a fechar a primeira parte do espetáculo, subiu ao palco, cumprimentou o vocalista Jónsi Birgisson e tomou o lugar dele na boca de cena, sozinha à frente dos outros músicos da banda e da orquestra.

Até ao ensaio geral do primeiro concerto, no Coliseu do Porto, Margarida julgava que ia cantar um solo, bem protegida, no meio do coro de vozes femininas requisitado pelos islandeses. A confusão só se desfez quatro horas antes de a sala abrir portas ao público. O coro só participaria nas duas últimas canções, na segunda parte; ela fecharia a solo o primeiro ato. "Obviamente, fiquei nervosa, porque nunca tinha assumido essa responsabilidade perante tanta gente," recorda a soprano, na margem do Tejo, em Alcochete, a vila que a viu crescer. Estuda música desde os seis anos.

'Varðeldur' é uma das peças mais agudas do repertório da banda. Margarida sentiu a exigência "de atacar aquelas notas logo e ainda por cima aguentá-las durante quatro tempos". Requer voz, respiração e suporte físico, "muito apoio pélvico". As luzes impediram-na de ver o público. Deixou para trás o medo e focou-se em cantar, a arte que domina. "Senti que o palco era meu," confessa.

Silêncio e nove páginas de instruções

A presente digressão dos Sigur Rós é sinfónica: em cada país, a banda contrata uma orquestra local. A colaboração para o Porto e para Lisboa começou com uma chamada. Ismael Mendes, da promotora Everything is New, desafiou o maestro titular da Sinfonietta de Lisboa para um a três concertos com os islandeses. Vasco Pearce de Azevedo até já tinha um disco deles em casa. A ideia seduzia-o. "É uma música muito plana, muito branca e introspetiva, provavelmente influenciada pelas paisagens da Islândia, que eu também gostaria de conhecer," descreve o maestro. 

Faltava saber as partituras, os instrumentos e o número de executantes, inclusivamente do coro, para dar início aos ensaios. O que se seguiu arrasa qualquer ideia feita sobre bandas de rock. Da Islândia chegaram nove páginas com "todas as explicações necessárias e até outras de que não precisava". Os Sigur Rós são hiperorganizados e rigorosos em aspetos que outros desleixam por completo. As instruções proibiam o uso de telemóveis no palco, mesmo nos ensaios, as fotografias e as conversas para além do estritamente necessário à articulação musical. Havia ainda um pedido invulgar: um coro feminino e um único cantor em falsete, num total de 16 vozes. 

Quando o maestro quis saber da pronúncia exata das letras, ouviu como resposta que "isso nunca foi um problema" para os islandeses. A maioria das canções dos Sigur Rós não tem letra. Jónsi inventou o vonlenska, ou hopelandic, uma língua de sílabas sem significado, escolhidas pelo som. Na definição do próprio, a voz humana funciona como mais um instrumento. "Estamos só a ouvir o nosso próprio chinfrim", respondeu o multi-instrumentista Kjartan Sveinsson quando uma jornalista americana quis saber que estranha língua era aquela. A ausência de letra não é problema para cantores líricos. "Estou habituada a fazer isso, vocalizos, sílaba neutra," explica Margarida Vieira. Considerando o desafio daquelas notas tão agudas, até "agradeceu" não haver texto. 

Como é que uma banda que canta numa língua que não existe enche o Coliseu do Porto e o Campo Pequeno? "É admirável. A música deles é tudo menos fácil de ouvir. Talvez por ser tão especial atrai uma tribo de fãs entusiasmados, que esgotaram as salas a grande velocidade," comenta Pearce de Azevedo. Só não houve terceiro concerto em Portugal por falta de data. 

Margarida Vieira tem outra explicação. Quando se ouviu no meio daquela música toda, sentiu-se... "um violino".