Telemóveis, trotinetes e até uma pistola. Voluntários retiram lixo do fundo do mar em Cascais

Telemóveis, máquinas de café, loiça e um microondas foram apenas alguns dos objetos mais insólitos que os voluntários do Movimento Claro retiraram da Baía de Cascais nos últimos meses. Desde 2021 que a associação faz limpezas subaquáticas na região e encontra um “pouco de tudo” perdido no fundo do mar.

“Também já encontrámos carrinhos de supermercado, trotinetes e bicicletas”, conta à NiT Teresa Vale, uma das fundadoras do projeto, de 32 anos. “Houve um ano em que encontrámos uma pistola e munições. Isso foi o mais estranho de sempre”.

Os telemóveis estão entre os objetos mais frequentes e a grande maioria “não está recuperável”. Noutros casos, porém, há quem tenha sorte. O grupo já chegou a recuperar aparelhos que ainda ligavam.

“Às vezes, os pescadores já sabem que vamos fazer limpezas, então muitas vezes até já nos dizem para termos atenção a uma determinada zona porque deixaram cair alguma coisa e não conseguiram recuperar”, explica. “Por vezes, há armadilhas e até âncoras que acabamos por recuperar.”

As limpezas subaquáticas estão integradas no projeto conhecido como “Mergulha por Cascais” e tiveram início em 2021. Desde então, decorrem anualmente entre abril e o início de outubro, aos fins de semana.

“Depende um pouco de como é que estão as condições meteorológicas e do mar, mas normalmente é este o período”, explica. “Durante o inverno, não o conseguimos fazer porque nem o mar nem o tempo o permitem.”

Há sempre muitas garrafas e latas.

Por norma, cada limpeza subaquática conta com entre 20 a 26 mergulhadores certificados. Depois, há voluntários que prestam apoio com pranchas de stand-up paddle (SUP) e também em terra.

“Os voluntários nas pranchas ajudam a levar o lixo até à areia e fazem um bocadinho o perímetro de segurança para avisar os barcos de que há mergulhadores na água”, explica. “Os voluntários em terra fazem a contagem, a separação e a pesagem do lixo.”

Um dos trabalhos essenciais em terra é também perceber se não existem animais marinhos presos no lixo. Teresa explica que é habitual encontrar estrelas-do-mar e polvos, sobretudo presos em armadilhas de pesca que se perderam.

A próxima limpeza subaquática está marcada para este sábado, 26 de setembro, mas já tem as vagas esgotadas. Teresa explica que o equipamento de mergulho e as pranchas de SUP são limitados, mas quem tiver os próprios pode sempre participar.

Ainda assim, é também possível ficar na lista de espera. Isso porque pode haver alguma desistência de última hora que permita que outros interessados participem. Se tiver interesse, basta preencher um formulário online. A última limpeza do ano vai acontecer a 10 de outubro. 

No âmbito do projeto, a associação também oferece bolsas de estudo para residentes de Cascais, entre os 18 e os 30 anos. Conta com o apoio de entidades locais, como a Junta de Freguesia de Cascais e Estoril e a Câmara Municipal.

“Se forem um dos vencedores, fazem o curso de mergulho connosco. Comparticipamos 80 por cento do valor”, explica Teresa. Em troca, os alunos precisam de participar nas limpezas subaquáticas. 

Tudo começou há quase 10 anos 

A história do Movimento Claro é mais antiga do que as limpezas aquáticas. Tudo começou em março de 2018, quando três amigas — Teresa, Carolina Gonçalves e Luísa Mandacaru — se juntaram para começar a promover um estilo de vida mais consciente.

“Fizemos uma campanha para acabar com as palhinhas de plástico em Cascais”, recorda Teresa. “Baseámo-nos numa que estava a acontecer em Inglaterra e tentámos trazer esse movimento aqui. No fundo, contactávamos alguns restaurantes da zona e tentávamos persuadi-los a não usarem palhinhas de plástico.”

As três amigas davam alternativas aos estabelecimentos e até tinham parcerias com projetos sustentáveis. Mais tarde, o projeto começou a evoluir e a contar com limpezas de praia abertas ao público.

“Começámos a ganhar um pouco de atenção e a Junta de Freguesia entrou em contacto connosco nesse período e tomou conhecimento do que é que estávamos a fazer”, partilha. “Percebeu que também a podíamos ajudar não só a acabar com as palhinhas de plástico, mas a retirar os plásticos descartáveis ​​dos edifícios da autarquia.”

Três meses depois, o projeto evoluiu e foi designado como associação juvenil ambiental. Atualmente, após a mudança de Luísa para o estrangeiro, o Movimento Claro é liderado por Teresa, Carolina e Inês Pereira, entre os 28 e os 32 anos.

Ao longo do ano, há sempre atividades a decorrer, que podem variar consoante a época. As limpezas de praia, por exemplo, acontecem com maior frequência no inverno. Isto porque, durante a época alta, Teresa explica que os municípios tendem a limpar o areal com maior frequência.

“No verão, às vezes também fazemos, mas é mais a pedido porque há empresas que querem fazer como uma atividade de team building”, explica. “Nos meses mais quentes, este género de atividades fazemos mais nas ribeiras porque elas secam e temos a oportunidade de limpar com maior facilidade.”

Carregue na galeria para ver algumas fotografias das limpezas subaquáticas feitas por voluntários do Movimento Claro.