O chefe da diplomacia da Gronelândia avisou esta quarta-feira que acabaram os tempos em que era possível “tomar um país” e assegurou que prossegue o diálogo com os Estados Unidos, que têm pretensões sobre o território autónomo dinamarquês.
“Em 2026 alguém acredita que pode simplesmente conquistar um país? Esses tempos acabaram e devemos responder que esses tempos acabaram”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Comércio e Recursos Minerais da Gronelândia, Mute Bourup Egede, durante um debate conjunto das comissões de Negócios Estrangeiros (AFET) e Desenvolvimento (DEVE) do Parlamento Europeu, esta quarta-feira em Bruxelas.
No seu discurso aos eurodeputados, o ministro explicou que a Gronelândia e a Dinamarca criaram um grupo de altos responsáveis com os Estados Unidos (EUA) que está a trabalhar para resolver a situação, após o Presidente norte-americano, Donald Trump, ter manifestado repetidamente a intenção de controlar, inclusive pela força, aquele território, rico em recursos minerais.
Embora o ministro gronelandês tenha evitado dar detalhes sobre as conversações, confirmou que “o diálogo continua”.
Egede agradeceu também o apoio recebido dos Estados-membros da União Europeia (UE), da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu perante a pressão dos EUA, assegurando que isso fez uma “verdadeira” diferença para a ilha do Ártico e enviou “uma mensagem forte” a Washington de que “interferir com a Gronelândia também significa interferir com toda a União Europeia”.
Egede apelou para que a Gronelândia e parceiros europeus “se mantenham juntos” numa altura em que os “autocratas” estão a aumentar o seu poder e os valores democráticos estão a ser desafiados.
“Temos de estar juntos para proteger os nossos valores”, disse, alertando que, se os países que partilham estes princípios não permanecerem unidos, não estará apenas em causa o futuro da Gronelândia, mas também a ordem internacional baseada em regras e o “futuro comum”.
Questionado pelos eurodeputados sobre uma possível reentrada da Gronelândia na União Europeia, quatro décadas após a sua saída, o ministro evitou fazer uma declaração categórica e salientou que “não é apropriado” estabelecer uma posição definitiva neste momento.
No entanto, admitiu que o “grande encargo administrativo” exigido pela adesão plena seria muito difícil de assumir para a pequena administração de um território de apenas 56.000 habitantes.
Por esta razão, Egede optou por não reabrir esse debate por agora e por dar prioridade ao fortalecimento e à expansão da atual “parceria estratégica” que a Gronelândia tem com o bloco da UE em áreas como matérias-primas, educação e alterações climáticas.
Especificamente, apontou o desenvolvimento da cooperação atual com a UE, que começou com um foco nas pescas e foi posteriormente alargada a outras áreas como educação, matérias-primas, ambiente e alterações climáticas.
Quanto à NATO, considerou que o papel da Aliança Atlântica no Ártico “se tornará mais forte” no atual cenário geopolítico e defendeu a necessidade de os aliados demonstrarem que permanecem unidos contra outras potências internacionais.
Egede apontou as matérias-primas críticas como uma das principais áreas em que a Gronelândia pretende fortalecer a sua relação com a UE e apelou a investimentos europeus para avançar no mapeamento do subsolo do território, do qual cerca de 60% ainda é desconhecido.
Apelou também às empresas europeias para se comprometerem a adquirir matérias-primas extraídas na Gronelândia, o que permitiria ao território desenvolver o setor e, ao mesmo tempo, contribuir para garantir o fornecimento de minerais críticos à UE.
“Se não houver empresas europeias, há outras partes interessadas”, alertou.
O ministro explicou que a Gronelândia procura diversificar uma economia em que 97% das exportações dependem atualmente do peixe, com a intenção de adicionar matérias-primas e turismo como dois novos grandes motores económicos.
Apelou também ao investimento europeu em conectividade, telecomunicações e outras infraestruturas críticas, recordando que os habitantes da ilha estão distribuídos em cidades sem ligações terrestres entre si e dependem principalmente do transporte marítimo e aéreo.