Alexandra Leitão, que foi secretária de Estado da Educação, diz que os exames nacionais é a situação “mais grave” que o País vive na Educação “nos últimos 30 anos”. Em entrevista ao programa Vichyssoise, da Rádio Observador, a ex-ministra da Modernização Administrativa diz ter “muitas dúvidas” que Fernando Alexandre “tenha condições para continuar” como ministro quando o processo terminar.
A também vereadora do PS na câmara de Lisboa e ex-líder parlamentar do PS elogia o rumo que José Luís Carneiro ter dado ao partido e diz que é “normal” que Pedro Nuno Santos tenha retomado o mandato. Alexandra Leitão diz ainda que as intervenções do novo porta-voz do PSD foram desastrosas e atira: “Não precisamos [no PS] de um Sebastião Bugalho”.
Alexandra Leitão diz que “salvo alguma circunstância extraordinária”, cumprirá o mandato até ao fim. Diz não estar preocupada com Duarte Cordeiro lhe pode ficar com o lugar de candidata autárquica a Lisboa e diz que é “prematuro” dizer se é a candidata em 2029.
“É a situação mais grave vivida em educação nos últimos 30 anos”
Foi secretária de Estado da Educação, compreende o ministro ou alinha com a direcção do PS na ideia de que ele já se devia ter demitido tendo em conta toda esta confusão?
A situação que se vive na correção dos exames nacionais é de uma gravidade enorme. Acho que é a situação mais grave vivida na educação, seguramente, pelo menos nos últimos 30 anos – e é porque eu não tenho memória muito para trás, e porque não havia exames até certa altura. Primeiro, é um momento muito importante e crucial para a vida de muitos jovens, no caso serão cerca de 160 mil, quer para a conclusão do ensino secundário, quer para o acesso à universidade, com tudo o que isso apresenta para a sua vida futura. É um momento de grande ansiedade e o facto de neste momento sabermos que há exames, que houve orientações para entregar classificações de exames mesmo que eles não estivessem concluídos, sabermos que estavam itens de correção a serem distribuídos ainda ontem ou anteontem, este caos — porque a palavra aqui é mesmo caos, nunca foi tão bem utilizada – parece-me que é de facto de uma gravidade enorme.
A solução é a demissão do ministro?
Há problemas que surgem e que os governos têm que resolver, e que podem resolver mal, ou resolver bem, ou resolver médio, só que este não é um problema que tenha surgido e que o Governo não tenha sabido resolver, é um problema que o Governo criou. E isto é importante que se diga, não é uma situação em que há uma pandemia ou um pico inflacionista. Isto foi uma coisa que o Governo criou, o ministro da Educação criou, por decisão política que foi a de avançar com esta forma de semi-digitalização e de o fazer depois de, há um ano, o piloto que foi feito com os exames de filosofia ter corrido mal. Portanto, sabemos hoje que os erros que agora estão a acontecer, e que são sistémicos, entre mais de 300 mil exames, 160 mil alunos, já ocorreram num piloto, o ano passado, com menos exames, só com Filosofia, e não se aprendeu nada com isso. Pelo contrário, mandou-se avançar. Este é um problema que o Governo criou com decisões políticas erradas, e que, de certa forma, afeta até todo o Governo, porque nós vimos o primeiro-ministro dizer que a culpa era da resistência dos professores, o que é de uma injustiça atroz tendo em conta os esforços que têm sido pedidos aos professore. E ouvimos o próprio ministro da Reforma do Estado dizer que estas coisas, para se avançar, têm que ser feitas por tentativa e erro, o que é uma falta de empatia total com a vida de 200 mil jovens. O ministro da Educação tem primeiro de resolver este problema, e depois tem de olhar para si, e o Governo tem que olhar para tudo, e perceber se ele tem condições políticas para continuar. Tenho dúvidas de que ele tenha condições para continuar, mas primeiro vamos resolver este problema, ou vai ele, vai o Governo ter que resolver este problema.
Sobre outro caso a envolver um ministro, compreende a proteção ou uma certa desresponsabilização do PS relativamente ao caso do ministro Luís Neves?
Não o acompanho nessa análise sobre a posição do PS, mas os factos têm de ser todos apurados, e até estarem todos apurados, acho que nos devemos focar – e estou a falar por mim, não estou a falar pelo PS – naquilo que diz respeito à vida das pessoas e tem de ser resolvido. O que, neste momento, está a perturbar a vida da sociedade portuguesa são os exames nacionais, que chegam a toda a gente, chegam aos jovens, chegam às famílias, chegam aos professores e portanto, isso é que deve ser o nosso foco. Quanto ao ministro da Administração Interna, os factos têm de ser apurados.
Mas não existe aqui uma certa falta de escrutínio do PS que, em circunstâncias similares com outros ministros, tem tido uma postura mais escrutinadora do que com esta situação do MAI?
O PS tem sempre dito, quando são matérias deste tipo, que tem primeiro de se apurar os factos, e naturalmente que depois de apurados, ou quando houver dados mais concretos,poderá haver outra reação. Mas neste momento acho que é apurar os factos.
Ainda sobre os exames, compreende o argumento utilizado pelo primeiro-ministro em defesa do Governo de que pelo menos há paz social na Educação neste momento, lembrar que fez a recuperação do tempo dos lados dos professores e que acabou com aquela guerra que existiu durante toda a governação socialista?
Houve um erro do Governo que foi, quando ocorreu a recuperação do tempo de serviço dos professores, achar que a partir de aí não precisavam de fazer mais nada na Educação. E que, aliás, até podiam desmantelar o Ministério da Educação, coisa que fizeram, porque a outra decisão política que este Governo e este ministro tomou foi cortar cerca de 50% nos trabalhadores, nos dirigentes e nos próprios serviços do Ministério da Educação. Ora, não se corta 50% numa máquina e depois isso não tem consequências. A decisão política de externalizar serviços a empresas, que hoje algumas já sabemos quais são, outras continuamos sem saber quais são, é uma opção política da qual eu discordo, mas que é legítima. O que não é legítimo é aproveitar a boleia da externalização para provocar opacidade ou menor transparência. E o Ministério da Educação menosprezou os professores achando que lhes dava o tempo de serviço e podia fazer toda a sorte de erros, incorreções, sem ter mais problemas. Os professores têm interesse, naturalmente, pelas suas carreiras, mas também pelo bem comum e pelos seus alunos. Dar indicação a um professor classificador de que corrijam os exames mesmo sem terem o exame todo até ao fim e depois o aluno que peça a reapreciação… e eu não estou a inventar, como sabem, hoje há provas de que esta orientação foi dada, está na capa de um jornal e em vários artigos do jornal há provas de que foi dada. Isto é ignóbil. E eu estou a medir a palavra que estou a dizer. Isto é uma indignidade. Dizer que um jovem que respondeu a uma pergunta em duas folhas, sabem que falta uma das folhas e ainda assim corrijam como está, isto é ignóbil. E os professores não pactuam com isto.