Aos 44 anos, Xabi Alonso atravessa um momento pouco comum em sua trajetória no futebol. Acostumado a acumular títulos como jogador e a receber elogios pelo trabalho que desenvolveu no Bayer Leverkusen, o espanhol chega ao Chelsea carregando uma experiência recente que foge ao roteiro de sucesso e que marcou sua carreira: a passagem curta e frustrante pelo Real Madrid.
Durante entrevista concedida a um pequeno grupo de jornalistas ingleses no início da turnê dos Blues pela Austrália, Alonso mostrou um tom de autocrítica ao analisar os 233 dias em que comandou o clube merengue. Longe de tratar a demissão como uma injustiça, o treinador preferiu destacar os aprendizados que tirou do período no Santiago Bernabéu — especialmente aqueles ligados à convivência diária com um elenco repleto de estrelas e diferentes perfis de personalidade.
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— Felizmente, não tenho muitas cicatrizes na minha carreira. Então, tudo bem, tenho uma cicatriz, mas isso sara. Agora está cicatrizada, e estou muito motivado e determinado a aproveitar esta próxima etapa como aproveitei quando comecei em Madri — afirmou.
A fala chama atenção porque, embora Alonso tenha mantido números expressivos no Real — mais de 70% de aproveitamento e apenas seis derrotas —, sua passagem foi marcada por um ambiente de pressão constante e pela dificuldade de encontrar estabilidade em um plantel acostumado a empilhar troféus.
Xabi Alonso: autocrítica sobre o Real Madrid e a gestão do vestiário
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Ao refletir sobre o período no Bernabéu, Xabi Alonso reconheceu que os problemas não se limitaram ao campo. Ele mencionou explicitamente questões relacionadas à chamada “gestão de pessoas”, um aspecto que costuma ganhar peso enorme em clubes com tantas lideranças consolidadas.
— Olhando para trás, destaco os pontos positivos e as coisas que não funcionaram. Tenho sido muito crítico comigo mesmo, pensando no que poderia ter feito melhor, porque as coisas não saíram como o esperado.
— Em termos de pontos positivos, houve muitas experiências, a adaptação que tive que fazer, algumas coisas que funcionaram e outras que não, tanto em termos de jogo quanto de gestão de pessoas. É uma mistura de tudo.
A referência ajuda a contextualizar as dificuldades enfrentadas por Alonso em Madri. Ao longo de sua passagem, a imprensa espanhola relatou tensões pontuais relacionadas à administração de minutos, funções táticas e hierarquia dentro do elenco, especialmente em um grupo que reunia jogadores de diferentes gerações e status no clube.
A própria admissão do treinador indica que ele considera a condução do ambiente interno um dos pontos em que poderia ter evoluído. E o espanhol foi além ao afirmar que a decepção o tornou um técnico melhor.
— Claro (se considera um treinador melhor). Porque você aprende com a decepção de coisas que não estavam destinadas a acontecer e tenta acreditar que as coisas vão melhorar.
Alonso parece tratar o episódio no gigante merengue como uma etapa de amadurecimento profissional, algo relevante para quem agora assume um Chelsea que também vive um processo de reconstrução institucional e esportiva.
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O projeto Chelsea e o alinhamento nas negociações
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O segundo ponto importante da entrevista foi a maneira como Alonso descreveu as conversas que o levaram a Stamford Bridge. Segundo ele, o fator decisivo não foi somente a oportunidade de comandar um gigante da Premier League, mas a percepção de que havia sintonia entre sua visão de futebol e o diagnóstico feito pela diretoria do clube.
— Tratava-se do projeto porque eu tinha uma visão do Chelsea de fora. Conseguia ver os pontos positivos e tinha as minhas preocupações. Então, abordei-as. O clube, os diretores desportivos… tem sido um processo para eles, com algumas coisas boas e outras que querem corrigir.
A declaração é relevante porque reconhece explicitamente que o Chelsea ainda busca corrigir problemas acumulados nas últimas temporadas, marcadas por trocas frequentes de treinadores, contratações em grande volume e dificuldades para consolidar uma identidade competitiva. Alonso destacou que o ponto central das negociações foi justamente o alinhamento de ideias com os dirigentes.
— O ponto mais importante é que fizemos a mesma análise. Se tivéssemos pontos de vista diferentes, provavelmente não teríamos começado da maneira correta. Até agora, estamos seguindo os caminhos certos.
O ex-Real Madrid também aproveitou a entrevista para falar sobre aquilo que considera essencial na construção de um time vencedor. Para ele, a qualidade tática só produz resultados consistentes quando existe um ambiente saudável e conexões fortes dentro do elenco.
— É preciso o equilíbrio certo de personalidades, de estágios de maturidade, jogadores no início dos 20, no início dos 30 anos e em fases intermediárias, jogadores em diferentes estágios de suas carreiras. Não existe uma fórmula para isso, mas existe uma intuição.
A ideia ganha peso especial no contexto atual do Chelsea, que possui um dos elencos mais jovens da Premier League e tenta encontrar equilíbrio entre promessas, jogadores em afirmação e atletas mais experientes.
Guilherme CalvanoRedator
Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.