Li com curiosidade a entrevista com o filósofo David Benatar e sua proposta de que as pessoas não tenham mais filhos. Eu, que tenho quatro filhos, não consegui, contudo, aceitar o argumento. É um problema crônico de argumentos filosóficos sobre ética: eles são incapazes de convencer quem já não concorde com sua conclusão. Benatar considera a vida um palco de sofrimentos: dor, injustiça, morte. Melhor seria não ter jamais existido.
Simplesmente não consigo ver a existência assim. A vida pode ser palco de descobertas, tentativas meritórias, triunfos, alegrias; e isso justifica os males. Reconheço que há um certo otimismo na decisão de ter filhos. Vislumbro o futuro como uma aventura em que eu espero que eles possam contribuir e, quem sabe, prosperar.
O resto da humanidade, contudo, parece se adequar melhor ao antinatalismo de Benatar: a redução no número de filhos é um fenômeno global, inclusive no Brasil. Nossa taxa de fertilidade, 1,55 segundo o censo de 2022, está bem abaixo da taxa que manteria a população constante. Isso traz uma série de desafios, entre os quais o custo de se manter muito mais aposentados do que trabalhadores no futuro. Ao mesmo tempo, será mais fácil melhorar a qualidade da educação básica e deve incentivar a automação da mão de obra.
Seja qual for o saldo econômico, é no mínimo intrigante que nossas sociedades não tenham mais a disposição de se perpetuar. O que está acontecendo?
Pode ser o custo econômico. Nunca foi tão caro criar um filho e prepará-lo para a economia moderna. E, no entanto, as tentativas de governos darem dinheiro para casais com filhos têm tido efeitos marginais. Então não deve ser só isso.
Uma reportagem do Financial Times publicada em maio indica um outro possível culpado: os smartphones em nossos bolsos. A adoção em massa de smartphones coincide com uma queda acentuada da natalidade em diversos países.
As novas tecnologias criam dificuldades de socialização e formação de casais. Sem casais fixos, caem também as condições para se ter filhos.
E essa conectividade também traz consigo novos valores. Por milênios, o custo de trabalho doméstico necessário para produzir novos seres humanos caía quase inteiramente sobre as mulheres, que não tinham escolha: delas era esperado o sacrifício.
Essa mentalidade não acabou, mas é hoje muito mais fraca. O mundo profissional e o prestígio público se abriram às mulheres. Já a outra parte da equação —a divisão do trabalho de criar os filhos pequenos— vem tendo avanços mais lentos. A equação talvez não faça sentido para muitas.
Convencer alguém a ter filhos é difícil. Há uma inegável queda no conforto e no descanso nos primeiros anos de vida da criança. Mas o bebê é apenas uma fase —muito curta— do que ter um filho significará para você. E o lado bom dessa fase —o amor e a alegria de ver um ser humaninho sorrir e engatinhar— é incomunicável. Conforme eles crescem, a felicidade que se tem ao interagir com a pessoa que você viu crescer é também difícil de colocar em palavras.
Sigo, assim como Benatar, incapaz de convencer quem não pensa como eu. Mas podemos seguir interrogando: o que está acontecendo com nossas sociedades para que seus membros rejeitem aquilo que seria um dos imperativos da espécie?
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