— O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos. São 10 anos no voleibol feminino. Não comecei ontem. Isso não afeta somente a mim. Afeta meu clube, a torcida, patrocinadores, as pessoas que se inspiram em mim, o direito de todas as pessoas trans — declarou a atleta, que atualmente está com 41 anos e disputa esta que provavelmente é a sua última temporada antes da aposentadoria.
— É um enorme retrocesso na luta pelo reconhecimento e inclusão de todas as pessoas no esporte. Voltamos para uma forma vexatória, como se testavam as atletas nos anos 60 e 70. Estamos em 2026. Não podemos ter esse retrocesso jamais.
— Não vou me calar. E vou tomar todas as medidas possíveis para que minha luta pelo direito, visibilidade, inclusão e prática do esporte não tenham sido em vão. Meus 10 anos não foram em vão e vou lutar por eles e por todos vocês. Obrigado e nos vemos novamente no próximo jogo — prometeu Tiffany.
Durante a partida, Tiffany recebeu bastante apoio da torcida do Osasco e de suas companheiras. A oposta teve seu nome gritado em vários momentos e recebeu incentivo através de cartazes e leques coloridos na arquibancada.

Osasco 2 x 3 Pinheiros | Melhores momentos | 1ª rodada | Paulista Feminino de Vôlei 2026
Acompanhe o caso
Na tarde de sexta-feira (14), A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) anunciou que adotaria, em suas competições nacionais de quadra e praia, a política do Comitê Olímpico Internacional (COI) para a elegibilidade de atletas na categoria feminina. Pela nova regra, as jogadoras deverão apresentar teste genético com resultado negativo para o gene SRY, associado ao desenvolvimento masculino.
Segundo a CBV, os novos critérios passam a valer para todas as atletas a partir da Superliga A e B da temporada 2026/27, além da Supercopa 2026, da Copa Brasil 2027, do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia 2027 (adulto) e do CBVP Challenger 2027. A recusa em realizar a triagem não será considerada uma infração disciplinar, mas a atleta que não comprovar a elegibilidade ficará impedida de disputar as competições.
Tiffany é atleta de vôlei do Osasco — Foto: Divulgação/@tifannyabreu10
O anúncio colocou em dúvida se a oposta Tiffany, do Osasco, mulher trans, teria sua participação no Campeonato Paulista afetada. No entanto, um dia depois, a Federação Paulista de Voleibol (FPV) se manifestou e afirmou que a competição, iniciada na sexta-feira, segue as regras que estavam vigentes antes da nova determinação da CBV.
A FPV informou que a nova política foi publicada com o Estadual já em andamento e, por isso, não estava em vigor no início do torneio. Dessa forma, a entidade manteve a competição dentro das normas anteriores. Assim, Tifanny estaria liberada para disputar esta edição do Paulista pelo Osasco.
Trajetória de Tiffany
Tifanny Abreu construiu uma trajetória pioneira no vôlei brasileiro. Depois de atuar por clubes no Brasil e no exterior, a jogadora concluiu sua transição de gênero e, em 2017, recebeu autorização da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) para disputar competições femininas. Naquele ano, passou pelo Golem Palmi, da Itália, e pelo Vôlei Bauru, tornando-se a primeira mulher trans a disputar uma partida da Superliga Feminina.
Tiffany quando defendia o Bauru — Foto: Divulgação/ Vôlei Bauru
Tifanny permaneceu no Bauru até 2021, quando se transferiu para o Osasco. Pelo clube paulista, consolidou-se como um dos principais nomes de sua posição e, na temporada 2024/25, conquistou a Superliga, a Copa Brasil e o Campeonato Paulista. Com o título nacional, tornou-se a primeira atleta trans a ser campeã da Superliga Feminina.