Babá de ultrarricos é cada vez mais exigente e lucrativo - 20/09/2026 - Economia - Folha

Ela trabalha pelo menos 12 horas por dia, sete dias por semana —mas depois folga uma semana inteira. Pode ganhar US$ 200 mil (R$ 1,03 milhão) por ano, o que, em termos de remuneração por hora, equivale ao salário de um analista de private equity.

Salários altos por longas jornadas em regime de rodízio são comuns em plataformas de petróleo, minas e navios. Isso também ocorre cada vez mais em outra área exigente: cuidar dos filhos dos super-ricos.

Há cerca de uma década, trabalhos de babá com remuneração tão alta eram raros. "Ouvíamos muito: ‘Ah, não vou pagar tudo isso’", conta Anita Rogers, fundadora da BAHS (British American Household Staffing), agência que encontra babás —além de governantas, mordomos e chefs —para famílias ricas.

"Agora é exatamente o contrário", afirma. Os clientes exigem babás que não apenas tenham estudado nas melhores instituições, mas também falem vários idiomas, possuam diplomas de universidades de elite e estejam dispostas a viajar constantemente e trabalhar jornadas muito longas. E estão dispostos a pagar por isso.

Isso provocou um boom no segmento mais sofisticado do mercado de babás, que funciona como uma espécie de indústria artesanal. Embora algumas instituições sejam tradicionais —a Norland University of Early Childhood, prestigiada escola britânica de formação, existe há mais de um século—, muitas das agências às quais os pais da alta sociedade recorrem são bem mais recentes. Rogers criou a BAHS em 2012; entre suas concorrentes estão a Adventure Nannies, fundada em 2007, e a Morgan & Mallet, de 2015. Rogers diz ter hoje 7.000 clientes.

As tarefas básicas de cuidar dos filhos dos muito ricos são as mesmas que envolvem os filhos dos apenas abastados: dar mamadeira, preparar refeições e levá-los ao parquinho. Mas o ambiente e as expectativas podem tornar o trabalho quase irreconhecível. Muitas vezes, a babá é apenas uma entre uma dúzia de funcionários, em vez de ser a única empregada. Viajar com a família também é diferente. "Eles querem babás com experiência em iates e jatos", diz Rogers. "Isso já é um requisito básico."

Nem todo mundo tem o perfil necessário para prosperar em um ambiente que pode ser "como em ‘Succession’", acrescenta. "Essa riqueza extrema pode ser demais para alguém que nunca teve contato com ela."

Folha Mercado

Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.

As exigências podem ser extremas —ou extremamente mesquinhas. Uma babá se lembra de que uma família ultrarrica para a qual trabalhou exigia que ela passasse a ferro, todos os dias, as roupas íntimas do filho. Outro empregador ficou furioso porque ela não buscou imediatamente uma escada para trocar uma lâmpada no teto da sala de brinquedos, a mais de cinco metros de altura, enquanto cuidava dos filhos pequenos da família.

A estrutura do trabalho também mudou com a ascensão das babás em esquema de rodízio. Antes da pandemia de Covid-19, os clientes mais ricos de Rogers —que podiam pagar por quantas horas de cuidados infantis quisessem— muitas vezes montavam uma combinação de profissionais, contratando uma babá de segunda a sexta-feira e outra para o fim de semana, além de uma terceira para tomar conta das crianças quando saíssem à noite.

Se os pais precisassem trabalhar até mais tarde, torciam para que a babá dos dias úteis pudesse cobrir as horas extras de última hora. Agora, duas babás, uma trabalhando e a outra de folga, podem cobrir todas as horas do dia, em todos os dias do ano —embora a um custo de centenas de milhares de dólares.

É evidente que isso é mais conveniente para quem pode pagar. Com babás diferentes durante a semana e nos fins de semana, se quisessem que uma delas os acompanhasse em uma viagem, talvez ela precisasse tomar providências para cuidar da própria família e receber por uma jornada mais longa, além, possivelmente, de uma taxa de viagem. Como alternativa, poderiam contratar outra babá para a viagem, que seus filhos não conheceriam. Com babás em rodízio permanente, há muito menos transtornos.

O sistema também pode ser vantajoso para muitas babás, afirma Rogers. Elas ganham sete dias inteiros de folga para fazer o que quiserem. Hoje, quando os clientes pedem babás para os dias úteis, ela tem menos profissionais disponíveis para indicar.

Mas o novo sistema pode ter um preço. "Antes de mergulhar de verdade no trabalho com crianças, se alguém tivesse me perguntado, durante toda a minha vida, desde os quatro anos: ‘O que você quer ser quando crescer?’, eu teria respondido que queria ser mãe em tempo integral", diz Lauren Lomascolo, que trabalha como babá para clientes ricos há uma década. Agora, ela teme jamais encontrar alguém que possa ajudá-la a dar conta das exigências de seu trabalho. "Se eu continuar nisso para sempre, não poderei ter filhos. Se eu sair, de onde virá minha renda?"

Para alguns, trabalhar como babá para os super-ricos é agradavelmente glamouroso. Vários reality shows de sucesso acompanharam famílias ricas, das Kardashians às "Real Housewives", ao redor do mundo. Em junho, o Hulu exibiu "Million Dollar Nannies", reality show ambientado em Ibiza no qual seis mulheres e dois homens buscavam empregos em casas de famílias ricas. Uma das participantes havia trabalhado como babá para Kourtney Kardashian. O programa mostrou mais acessos de raiva de adultos do que de crianças pequenas. Mas ofereceu uma variação do escapismo habitual: a fantasia não era ser um dos ricos, mas trabalhar para eles.