"Um verdadeiro transmontano nunca desiste, estamos cá para a luta", afirmou Hélder Martins, viticultor da aldeia de Sonim que perdeu cerca de 90% da vinha e seis hectares de olival para o incêndio que, entre 28 de julho e 02 de agosto, começou em Valpaços, distrito de Vila Real, e se estendeu a Mirandela, Vinhais e Macedo de Cavaleiros, distrito de Bragança, num total de 20 freguesias.
Nas aldeias afetadas, as uvas ficam nas videiras atingidas pelo fogo e cortam-se nas vinhas que sobreviveram.
Hélder Martins tem 20 hectares de vinha, cerca de 17 foram atingidos, pelo que perdeu a maior parte da produção deste ano, mas também videiras centenárias que descreveu como "esculturas vivas ao ar livre" e que não será possível recuperar.
Desde que foi criada há 20 anos, a estratégia adotada pela sua empresa, a Encostas de Sonim, passa por lançar no mercado os vinhos após um estágio de pelo menos três anos, pelo que disse que tem 'stock' na adega para assegurar as gamas mais altas.
À Lusa explicou que vai comprar cerca de 30 mil quilos de uvas a agricultores da aldeia que produzem "também com muita qualidade" para as gamas mais baixas e cumprir compromissos com os seus clientes.
Fernando Faria optou por não vinificar este ano e faz a vindima para vender as uvas. "É um ano para esquecer. Os fogos foram um prejuízo tremendo, foi uma coisa que ninguém pensava", referiu o agricultor também de Sonim.
Perdeu cerca de seis hectares de vinha e dois de olival centenário. Referiu que ainda tem 'stock' na adega da sua empresa familiar, a Quinta do Gago, e, por isso, decidiu não fazer vinho. Os sentimentos misturam-se, e ao desânimo junta-se a vontade de continuar a lutar por um modo de vida que foi sempre o seu.
"Temos que pensar friamente e ver o que vamos fazer", apontou, referindo que o ano agrícola foi bom e nem foi preciso fazer tratamentos na vinha.
Sem seguro, estes viticultores estudam a possibilidade de recorrer aos apoios anunciados pelo Governo que declarou este incêndio como uma "catástrofe natural".
Hélder Martins, que é também presidente da Junta de Sonim e Barreiros, disse que o fogo "foi impiedoso" com a freguesia que viu ser atingida 90% da sua área agrícola. É um território de minifúndio pelo que, explicou, "mil metros quadrados significam muito" para um agricultor. "E temos imensos que ficaram sem nada", afirmou.
Em Valpaços, contabilizam-se 304 hectares de vinha atingidos, mas os prejuízos estendem-se a outras culturas importantes neste concelho que vive essencialmente da agricultura, como o olival e o amendoal.
Em Trás-os-Montes a vindima também se iniciou mais cedo este ano. Entre Montalegre e o planalto mirandês, a região vitivinícola tem 11.010 hectares de vinha e as previsões de colheita reveladas pelo Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) apontavam, no início de agosto, para um aumento na ordem dos 15% em 2026.
Em 2025, a produção de vinho nesta região foi de 84 mil hectolitros e o IVV antecipava um aumento para os cerca de 94 mil hectolitros este ano.
A Casa José Pedro faz a sua quinta vindima, que começou cerca de 20 dias mais cedo do que no ano passado. Na vinha em Rio Torto, também no concelho de Valpaços, já corta as uvas tintas e, na brancas, verificou um aumento de cerca de 15 a 20% na colheita.
"Prevê-se um ano de uma excelente qualidade e também quantitativamente satisfatório", afirmou António Fernandes, responsável da parte agrícola desta empresa.
Explicou que este foi um bom ano agrícola, com chuva, reservas hídricas, e meteorologia que favoreceu a floração e o vingamento da planta nos vários estados fenológicos, permitindo chegar à vindima com a uva num "estado sanitário excelente".
Porque também aqui se sentem dificuldades de mão-de-obra, a empresa apostou na mecanização.
"Nós temos dois tipos de vindima, fazemos a vindima manual nos nossos segmentos mais premium, para conseguirmos ter um controlo muito mais efetivo na qualidade, e depois temos a vindima mecanizada. Já preparámos toda a nossa estrutura desde a vinha até à adega para fazermos a colheita mecanizada para os nossos segmentos de mais de entrada e só assim conseguimos ser competitivos", referiu.
O grande objetivo é, realçou, ter a melhor relação qualidade-preço nos vinhos e estimular o conhecimento da região.
A Casa José Pedro deu os primeiros passos em 2022 em Rio Torto, já possui vinhas em Vassal e é, neste momento, um dos maiores produtores da região de Trás-os-Montes com 75 hectares de área.
"Somos novos, mas viemos para ficar e queremos levar esta região onde ela merece estar, que é nos grandes palcos do mundo dos vinhos, porque tem uma qualidade excecional", afirmou António Fernandes, que destacou as características do terroir, do clima, dos solos graníticos, das amplitudes térmicas.
Esta é também, frisou, uma região com "uma história de vinhos muito antiga".
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