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E o resto é história.
É apenas pomba.
Do Incêndio e Poesia, ainda na zona dos Chiados. Que faz um filho. Falo por gosto. É que é pai. Vinho vermelho. Troco de corpo. Fogo de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entendem? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com os dois que já conhece de cor, Rui Ramos e João Miguel Tavares. Vocês sabem que nós temos um fraquinho por listas e sabemos que muitos ouvintes também têm, porque estes são sempre programas muito populares. Por isso, cá vai mais um desses, à boleia de uma pergunta do ouvinte Rui Ribeiro Pereira, que eu passo a citar: "Tem-se falado muito de inteligência artificial, mas quase sempre numa perspectiva tecnológica ou económica. Eu gostava de ouvir o tema abordado do ponto de vista histórico, e a minha pergunta é simples", diz o Rui Ribeiro Pereira. "Existe algum precedente histórico para o impacto que a inteligência artificial poderá ter na sociedade? Quando surgiram a imprensa, a máquina a vapor, a eletricidade ou a internet, as pessoas da época perceberam que estavam perante uma mudança civilizacional? E olhando para esses exemplos, a IA parece mais uma evolução importante ou uma transformação comparável às grandes revoluções tecnológicas da história?" Em ano de Mundial, acabou há pouco tempo, isto é aquilo a que eu chamo uma assistência para golo. Rui.
Vamos ver se assustamos com a baliza.
À boleia desta nova revolução, que a inteligência artificial não se cansa de prometer, fica a pergunta: não sendo a primeira vez que uma tecnologia garante que vai virar o mundo que conhecemos do avesso, será que nos podes indicar três revoluções tecnológicas que mudaram efetivamente o mundo como a IA deseja e promete vir a fazer? Eu sei que a tua tendência logo é para escolheres o fogo, a roda e a agricultura, mas para que eles não ocupem os três primeiros lugares da lista, eu se calhar limitava-nos ao início da Revolução Industrial. Parece bem, não é?
Sim, parece.
Quais foram as tuas três grandes revoluções tecnológicas dos últimos 250, 200 anos?
Vamos lá.
Eu sei que tu querias falar da roda. Ou talvez o fogo, eu não sei qual é o teu favorito. A roda, o fogo ou a agricultura?
Tenho ideia que o fogo é capaz de ser o mais diferente.
É o teu favorito?
Enfim, uma dessas.
Fica o desafio, se algum ouvinte nos enviar uma pergunta sobre o fogo. Nós nunca falámos do fogo no "O Resto é História".
É verdade.
Mas depois o Rui vai invocar que o fogo não pertence à história.
É da pré-história.
O fogo pertence à história ou não?
À pré-história.
Pertence à pré-história. E tu chegas ao fogo ou não?
Vamos ver.
Nós já chegámos à pré-história aqui neste programa, não?
Penso que não. Mas num dia destes somos capazes de trazer salto.
Também vais à pré-história.
E o resto é pré-história, não é? Isso é capaz de ser o outro programa.
Eu quero é saber. Não mudes de pergunta. Tu vais à pré-história ou não?
Vamos, também podemos ir à pré-história.
Espectacular.
Mas enfim.
Ainda podemos falar de dinossauros.
Fica com este desafio. Não, a pré-história não é com os dinossauros. Exatamente.
Big Bang? Não. Então vamos lá. Só os últimos 200 anos.
Não recuemos tanto, daqui a pouco já estamos na metafísica. Há imensas revoluções ou aquilo que se chamou revoluções tecnológicas e, portanto, para a escolha não ser totalmente inexplicável, digamos assim, ou quase de gosto pessoal, vamos definir os critérios da escolha. E vou apontar três critérios. O primeiro é que as transformações tecnológicas de que vamos falar tenham um impacto que não esteja confinado, por mais importante que sejam, a um único setor muito específico.
Certo.
Repito, por mais importantes que sejam, como por exemplo, o setor militar. Inovações militares têm uma importância muito grande, mas afetam a maneira como se faz a guerra.
Espingardas de repetição.
Póvoras, essas coisas todas. Portanto, queremos revoluções que tenham afetado a vida das pessoas no planeta, as tais revoluções planetárias, a maneira como elas se relacionam entre si, a maneira como veem o mundo. É esse tipo de revoluções que queremos. Esse é o primeiro critério. O segundo critério, queremos revoluções tecnológicas que tenham arrastado o resto da economia. O que isso quer dizer? Que tenham atraído imediatamente grandes investimentos, públicos ou privados, e suscitado grandes expectativas, um pouco como a inteligência artificial. Isto é, revoluções que tenham sido vistas logo como grandes mudanças, e não anos depois, ou décadas, ou séculos depois, alguém que venha dizer: "Isto foi uma grande mudança". Não. E terceiro lugar, um pouco relacionado com este, revoluções tecnológicas em que seja fácil Para qualquer pessoa perceber que houve um antes e um depois. E qual é a condição para isso? Às vezes nós termos dificuldade de imaginar como era a vida antes.
Certo.
Isto é, de repente o mundo mudou tanto que é difícil imaginar como era antes dessa mudança.
Como hoje em dia acontece com os meus filhos, como é que era antes de existir um telemóvel?
Exatamente. Portanto, quanto mais eu tiver de descrever como as coisas eram antes, maiores eram essas revoluções tecnológicas. Isto é, quando tens de explicar que para confirmares um facto qualquer tinhas de ir à estante, tirar um livro, ver se estava lá no livro.
Os argumentos dos filmes, que hoje em dia metade deles já não funcionavam, porque na altura existiria telemóveis, portanto as pessoas iam saber onde é que estavam.
Onde é que estavam, exato, aqueles argumentos em que era necessário comunicar e andava-se à procura de cabine telefónica, etc. Enfim, essas coisas todas. Para não falar dos outros filmes em que era o mensageiro a cavalo que levava a mensagem.
Exato.
De acordo com estes três critérios, vamos tentar fazer aqui uma pequena lista das três maiores revoluções tecnológicas desde o princípio do século XIX, desde 1800. Um aviso antes de eu começar a fazer a lista: sou historiador, não sou engenheiro, portanto vou falar das consequências sociais. Sim, mas já não me parece que seja uma área.
Já não te vais dedicar à engenharia.
Sim, é provável que me dedique ainda a algumas coisas a que não me dediquei até agora, mas a engenharia não seja uma delas. Por mais respeito que tenha pela profissão e pela atividade. Vou falar sobretudo das consequências sociais, não vou explicar os mecanismos e os processos técnicos. Não vou ultrapassar os limites da minha incompetência.
E o resto é ciência.
Exatamente. Aquela que eu diria que é a primeira grande, nos últimos 250 anos, revolução tecnológica acontece entre a década de 1820 e os meados do século XIX e é uma revolução dupla, é uma revolução que combina uma enorme mudança nos transportes e nas comunicações. A revolução nos transportes deriva do uso da máquina a vapor para fazer mover o que vão ser os comboios sobre carris de ferro, a partir de 1825 em Inglaterra, aí que é a primeira linha de caminho de ferro. É uma mudança gigantesca. Já falámos aqui a propósito dos transportes e das comunicações em Portugal, o uso da máquina a vapor na indústria já tinha sido uma grande mudança desde o fim do século XVIII. Agora, com o caminho de ferro, pela primeira vez a humanidade não vai depender das suas pernas ou das pernas dos animais, ou das correntes dos rios, ou das correntes do ar para vencer distâncias. Já falámos aqui dessa diferença que fez, mas vou repeti-la. A linha férrea entre Lisboa e o Porto, que foi iniciada em 1853, vai chegar ao Porto, à cidade, em 1877, depois da construção da Ponte Dona Maria Pia. E esta linha férrea, a Linha do Norte, vai encurtar o tempo de viagem por terra entre Lisboa e o Porto de oito dias para oito horas, no século XIX.
Pois, não está mal.
E claro, não é só uma questão de tempo, o tempo impressiona-nos muito, mas é uma questão também de segurança, de regularidade. É verdade que os serviços de diligências com mudas de animais nas estradas macadamizadas já tinham assegurado alguma regularidade e já eram, de certa maneira, seguras, mas a comodidade agora é muito maior. O que quer dizer com isto? Quer dizer que as viagens se tornaram mais normais, fazer uma viagem sem pensar em que se ia correr enormes perigos.
Ou uma tempestade ou pelo mar.
Por exemplo, a viagem por mar, que era mais rápida do que a viagem por terra entre Lisboa e o Porto, era arriscada, porque havia incertezas sobre o estado do mar, as tempestades na costa, havia naufrágios no século XIX, havia um certo risco. A maior parte das vezes corria bem, algumas vezes não corria bem. Com o caminho de ferro, é verdade que também havia desastres de caminho de ferro. O Camilo Castelo Branco esteve no meio de um desses desastres. Mas há muito mais gente que, apesar de tudo, vê o caminho de ferro como mais seguro, como mais regular do que propriamente as antigas diligências ou os antigos barcos à vela na costa. Não é só o tempo da viagem diminuiu. Não, é que de repente muito mais gente também começou a fazer essas viagens e essas viagens tornaram-se muito mais importantes em termos dos transportes, em termos de deslocação da população, de repente tudo mudou.
Sendo que o vapor dos comboios depois também se estendeu ao vapor dos barcos.
Sim, o vapor aplicado à navegação quase na mesma época do vapor aplicado aos comboios, na década de 20, e faz também uma diferença gigante. Aqui vou dar como referência a navegação entre Londres e Nova Iorque, através do Atlântico. A navegação à vela, no princípio do século XIX, levava entre 40 a 50 dias. Mais de um mês, às vezes quase mês e meio, pelo menos, para chegar de Londres ou de outro porto britânico a Nova Iorque. E dependendo muito, não era um tempo certo, porque dependia dos ventos, das correntes marítimas, de acidentes e por aí fora. E a navegação a vapor, que começou em termos desta viagem entre Londres e Nova Iorque em 1838, que é a primeira viagem, vai reduzir esse tempo de 40 a 50 dias para 15 dias.
Pois. Parece imenso, mas é muito menos.
É muito menos. E em 1900, a navegação a vapor, agora com barcos com hélices maiores, motores mais potentes, etc, entre Londres e Nova Iorque leva cinco a oito dias. Isto em vez dos mês e meio, dois meses, de repente, em vez de 50, cinco dias. A diferença é enorme. E agora este gênero de tecnologia, estes novos meios de transporte causam um entusiasmo gigantesco, de tal maneira que se fala na altura mesmo da mania dos caminhos de ferro. É uma mania nos anos de 1830, 1840, 1850, 1860, 1870, isto é, em meados do século XIX, em todo o mundo, há uma mania dos caminhos de ferro. Parece a solução óbvia para o transporte de pessoas, para o transporte de mercadorias entre regiões afastadas. No caso das Américas, torna-se o meio de levar gente para o interior e depois trazer os produtos do interior para as costas, onde os barcos a vapor estão à espera para levá-los depois para os mercados do outro lado do Atlântico. E o que isso faz? Isso faz com que toda a gente que tivesse dinheiro, que tivesse capitais, os investisse em empresas de caminho de ferro.
Como hoje em dia a malta investe na Tesla.
Ou na inteligência artificial. De repente, os grandes mercados capitais, sobretudo na Europa, as praças de Frankfurt, Paris, Londres, é investir em empresas de caminhos de ferro em todo o mundo. Empresas de caminhos de ferro na América do Norte, na América do Sul, depois em África, já no fim do século XIX. Isto é, os aforradores europeus, as pessoas que poupam dinheiro na Europa têm o seu dinheiro investido ou em títulos de dívida pública, ou então em títulos de companhias de caminhos de ferro. A poupança na Europa é canalizada para estas empresas ou mesmo nos Estados Unidos. Os caminhos de ferro vão mobilizar capitais como nunca antes e também mobilizaram os Estados. Os Estados, por quê? Porque na maior parte dos Estados, em meados do século XIX, ter caminhos de ferro era a diferença para eles entre ser civilizado ou não ser civilizado. Portanto, toda a gente vai investir em linhas férreas, na expansão das linhas férreas, na construção de um sistema ferroviário que ponha todas as regiões em contacto e os Estados vão fazer, ou às vezes construir diretamente, ou vão fazer, sobretudo, concessões a privados para construir. E vão ser as grandes obras públicas até então, são estas construções de caminhos de ferro, que em determinadas regiões, como por exemplo, no caso de Portugal, envolve construir pontes, construir grandes obras de engenharia para ter as linhas férreas. Ao contrário, por exemplo, do norte da Europa, em que aquela coisa é mais ou menos plana, aqui com o terreno acidentado português ou noutras regiões, é necessário fazer muitas obras de nivelamentos.
O que desenvolve também muito a engenharia.
A engenharia portuguesa, por exemplo, historicamente desenvolvida também por uma das razões.
A geografia ajuda.
Portanto, no caso português, os caminhos de ferro justificam o grande endividamento externo do país na segunda metade do século XIX. Por quê? Porque há muitos capitais nas praças financeiras inglesas, francesas e alemãs disponíveis para investir em construções de caminhos de ferro e vão para Portugal, isto é, investem em Portugal, nos caminhos de ferro portugueses. O Estado garante esses empréstimos e quando às vezes as companhias vão à falência, as dívidas ficam no Estado.
Eu já ouvi essa história. Já vem desde o século XIX.
Já vem desde o século. Não se inventou nada desde o século XIX, eu diria. Mas enfim, se ainda se inventar algumas coisas, não teríamos este programa.
Sim, muito bem. Bom, então estamos no caminho de ferro e do barco a vapor, mas vêm aí mais invenções, só que a seguir a este pequeno intervalo. Até lá. Olá, seja bem-vindo de volta a este "E o Resto é História". Nós estamos a falar das três revoluções tecnológicas mais marcantes que mudaram o mundo nos últimos 200 anos. O Rui já falou dos caminhos de ferro e do barco a vapor. Na verdade, esta só conta como uma, não é?
Sim, e vou ainda falar de outra que também só conta como uma.
Ok, vão todas juntas.
Porque estão muito articuladas entre si. É muito difícil isolá-las uma da outra.
Não estou a ver. Se tiver o barco a vapor, o que está mais ligado?
E o telégrafo elétrico.
O que o telégrafo tem a ver com o comboio, Rui?
Tem imenso.
É sim? Então conta-nos lá.
O telégrafo elétrico, estamos a falar da transmissão de sinais elétricos através de fios ou de cabos, ligando estações de telegrafia. É um sistema desenvolvido a partir da década de 1830, vem substituir o telégrafo visual, que é aquele que ainda usa sinais, aqui através de sinais elétricos, e depois na década de 1860, vai estar baseado no uso do código inventado pelo Samuel Morse para transmitir mensagens. E o telégrafo elétrico está intimamente ligado com os sistemas ferroviários, porque é um elemento importante na coordenação do sistema ferroviário. Sem o telégrafo elétrico, a expansão dos caminhos de ferro não podia ter acontecido como aconteceu. Uma coisa está associada, intimamente associada à outra e portanto, aquelas imagens do oeste americano em que se lança o caminho de ferro e os postes de telégrafo.
Que é onde os malzões sobem para cortar as linhas.
As linhas, exatamente. O telégrafo elétrico não vai só ligar a comunicação de localidades dentro de uma mesma região, mas vai ligar os continentes através do lançamento de cabos submarinos entre a Europa e a América, a partir de 1866. 1866 é o primeiro cabo submarino. Isto quer dizer o quê? Isto quer dizer que em 1776, quando os Estados Unidos se tornaram independentes, no século XVIII, uma comunicação de ida e volta, isto é, eu enviar uma carta, por exemplo, de Nova Iorque para Londres e receber a resposta do meu destinatário, do meu correspondente, isso poderia demorar de três a quatro meses.
Pois. E mesmo que fosses rei, não é? Mesmo que fosse uma comunicação entre reis, aquilo não ia mais depressa.
Estou a dizer isto e estou a admitir até já que isto é de alguém que investe na rapidez. Em 1856, em meados do século XIX, as coisas já tinham melhorado bastante, precisamente com a navegação, etc, mas muito provavelmente uma comunicação de ida e volta ainda podia demorar para aí uns dois meses. Isto é, eu enviar uma carta e receber a resposta a essa carta. Podia chegar a demorar isso. Ora, em 1876, 10 anos depois de lançado o cabo submarino, essa resposta podia demorar uns minutos com o telégrafo. Isto é, se nós usássemos telegramas, se usássemos cartas, ainda demorava algum tempo. Mas para quem usasse o telégrafo, era minutos. Isto é, eu podia enviar um telegrama urgente a dizer: "Compro ou não compro este prédio que está aqui à venda e do outro lado, o meu outro sócio na empresa em Londres, enviar-me a dizer: 'Compra imediatamente ou não compres'". Eu já estou a dar a ideia do que é que isto permitia em termos de desenvolvimento de atividades económicas. De repente, temos gente a tomar decisões em tempo rápido de um lado e do outro do Atlântico, a comprar, a investir em trigo, compra essa quantidade de trigo, não compres. Repara, antigamente eu estou nos Estados Unidos, posso comprar ou não comprar uma grande quantidade de trigo, mas não sei se essa quantidade de trigo que eu quero exportar para Inglaterra faz sentido em Inglaterra, porque, por exemplo, em Inglaterra o preço está muito baixo, porque eles receberam muito trigo da Rússia e não há vantagem disso. E escrevo para lá a dizer: "Compro ou não compro?" E quatro meses depois a resposta a dizer: "Compra, tarde demais". Agora não, agora pergunto e ele diz-me: "Sim, compra porque os preços estão ótimos aqui, compra imediatamente". O telégrafo vai revolucionar não só o sistema de notícias, isto é, de repente não precisamos de dois meses para saber se o presidente americano é o Lincoln ou quem é que é.
Ou se o vão tiro.
Ou se o vão tiro. Sabemos imediatamente. De repente, temos um mundo onde as notícias correm instantaneamente, mas também temos esta integração dos mercados e das bolsas. Isto é, de repente a bolsa de Nova Iorque passa a ser uma bolsa em que Londres está a par dos movimentos dessa bolsa. A mudança é tudo. Nós pensamos em termos da diplomacia. Antigamente, quando havia dois, três meses para mandar uma carta e receber a resposta, o embaixador era um embaixador plenipotenciário. Quando enviava um embaixador para um outro país para tratar de um assunto, dá-lhe plenos poderes praticamente para ele tomar decisões, porque ele às vezes não podia estar à espera de contactos. Agora, não. Agora com o telégrafo e com os telegramas, pode-se ir dando instruções ao embaixador à medida que a negociação está a ser desenvolvida. Isto é também uma revolução da diplomacia, é uma revolução também militar. Isto tem um impacto na vida das pessoas e no funcionamento de imensas instituições. O que isso quer dizer? Quer dizer que em meados do século XIX, com os caminhos de ferro, com o barco a vapor e com o telégrafo, surge pela primeira vez este mundo interligado dos dias de hoje. Isto é, um planeta muito mais pequeno, com contactos muito mais fáceis. E depois, claro, tudo aquilo que vem a acontecer no século XX e que não quer diminuir, isto é, desde o automóvel, as autoestradas, o avião, as telecomunicações, a começar depois pela telegrafia sem fios, inventada por Marconi em 1894, e depois os telefones, a rádio, a televisão, satélite, internet, tudo isso. Mas tudo isso vai intensificar este mundo de comunicação e transportes cujas bases já tinham sido construídas no século XIX. Há um livro sobre a expansão do telégrafo no século XIX, que se chama precisamente "A internet do século XIX". Aquilo é quase como a internet e é visto como tal. É uma imensa conquista do tempo, do espaço, podermos comunicar, podermos comerciar a grandes distâncias. Não quer dizer que não o fizéssemos já antes, mas em condições completamente diferentes. Eu diria que isto é uma grande revolução, que é vista como uma grande revolução nos contemporâneos. Eles próprios veem isto como uma grande revolução, como uma grande mudança e são capazes de perceber exatamente quando é que o mundo mudou com o telégrafo, com o barco a vapor, com o comboio.
Portanto, esta é a primeira.
Esta é a primeira. Então vamos à segunda.
Juntaste grande batutice. Foram três em uma, mas está bem.
Não, mas como te disse, elas estão intimamente associadas, não só pelo tipo de tecnologia, no caso do barco e do comboio, mas pela maneira como a expansão do telégrafo está associada a essas duas inovações.
Sim, eu percebo. Não precisas de justificar, Rui. Eu acho que os nossos ouvintes ficaram muito contentes. Têm a vida enganada.
Às vezes as mesmas companhias faziam as duas coisas, punham os carris e iam montando os telégrafos.
Aposto que não vamos receber cartas de reclamação.
A dizer: "Ah".
"Ah, batotei".
Batotei. Não.
Então e a segunda?
A segunda revolução tecnológica, que eu acho que mudou quase tanto as nossas vidas como esta, é a eletrificação, a eletricidade, o desenvolvimento de geradores de eletricidade, que acontece entre os anos 1830 E 1860 e depois, a partir do fim do século XIX, a expansão de redes distribuidoras de energia elétrica e o seu uso para a iluminação pública e privada e para fazer funcionar imensos aparelhos, desde aparelhos industriais até aparelhos domésticos. A eletricidade já era conhecida e usada desde o princípio do século XIX, por exemplo, o caso do telégrafo elétrico, a transmissão de sinais elétricos à distância. Há muitas inovações, mas a aplicação daquilo parece um pouco limitada. Em 1879, o Thomas Edison, nos Estados Unidos, inventa a lâmpada incandescente e viabiliza a iluminação de cidades, de casas, através da energia elétrica. A partir daí, de repente, a eletricidade torna-se o futuro. Em 1882, nos Estados Unidos, temos as primeiras centrais geradoras de eletricidade a carvão e hídricas, e depois a expansão das redes de distribuição de energia elétrica. Primeiro começa a substituir na iluminação pública o gás, que era usado até então. Mas, por exemplo, em 1890, nos Estados Unidos, já há 1000 centrais elétricas, mas curiosamente, como eram usadas sobretudo pra iluminação, não funcionavam durante o dia, portanto, durante o dia paravam. Não valia a pena.
Muito engraçado.
Não havia procura, portanto, estavam paradas durante o dia, só voltavam a funcionar à noite.
Portanto, ainda não tinham inventado as máquinas elétricas propriamente ditas.
A indústria ainda não recorria. Não apenas à eletricidade, mas a centrais que fizessem uma distribuição geral. Ainda há muitas centrais, até particulares. Isto é, particulares no sentido de que uma grande indústria podia ter uma pequena central elétrica para se abastecer. No princípio do século XX, a eletricidade é usada para a iluminação pública em vez do gás, e este é o começo da alteração para fazer mover os transportes urbanos, através dos chamados elétricos, que chegam a Lisboa em 1901. Repare, é rápido.
E aí nós não os podemos ouvir.
Isto é uma coisa curiosa. Eu disse que as centrais elétricas, as primeiras, durante o dia não tinham nada para fazer. E a eletrificação dos transportes urbanos é o resultado da necessidade de arranjar procura para essas centrais elétricas. Ao contrário, as empresas produtoras de eletricidade dizem: "Para rentabilizar isso, não podemos estar aqui parados à espera que as pessoas cheguem a casa, fique escuro e acendam a lâmpada. Não, temos que fazer mais coisa". A eletrificação, arranjar gerador, fazer mover elétricos.
E eu ia dizer que nós temos dificuldade em ouvir os seus testemunhos, mas se os cavalos falassem, é possível que esta tenha sido uma das suas invenções favoritas.
Não sei, porque de repente passou a haver muito menos cavalos. Isto é verdade, deixaram de ser tão muitos.
Menos cavalos, mas os que existem com maior qualidade de vida.
Os que existem com maior qualidade de vida, é verdade. Sem ser aqueles chicoteados. Em Lisboa, imagina aqueles coitados, cavalos, mulas, a subir aquelas encostas. Não devia ser nada bonito ver aqueles animais a serem chicoteados ou atormentados para fazerem força. No Norte também eram muito usadas juntas de bois, até mesmo para transporte. Esses animais, muito provavelmente, deixaram de ser em tão grande número, mas provavelmente não se importavam.
Estão a sofrer com a inversão da pirâmide demográfica, mas ainda assim com melhor qualidade de vida. É como nós, humanos.
Eu disse aqui que o transporte eletrificado tinha chegado a Lisboa em 1901, mas a iluminação elétrica já tinha chegado antes. A primeira experiência é em 1878, na Cidadela de Cascais, para o aniversário do príncipe real Dom Carlos. Eles fazem ali uma experiência e iluminam. Depois iluminam também o Chiado, em Lisboa. A partir daí, as experiências a serem feitas na cidade. Entre 1908 e 1914 é inaugurada a Central Tejo, em Lisboa, que ainda hoje está o edifício ali, porque até aí havia várias centrais na própria cidade, sobretudo centrais térmicas, e depois começa a expansão. No caso das habitações particulares, a eletricidade é mais a eletricidade do que propriamente o gás, que finalmente acaba com as velas e com os candeeiros. E claro, também permitiu depois a expansão dos eletrodomésticos, a começar pela refrigeração. Uma alteração brutal na forma como nós guardamos e consumimos os alimentos. Os primeiros frigoríficos começam nos Estados Unidos a partir de 1918, mas divulgam, sobretudo, a partir dos anos 1930 e na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial, e é um outro mundo. A maneira como adquirimos, guardamos e consumimos comida torna-se completamente diferente.
A gastronomia evolui tanto.
Sim, e deixamos de estar dependentes do produto fresco, que podia ser comprado naquele dia e consumido naquele dia, porque não se podia guardar para o dia seguinte.
As árvores também agradecem, como os cavalos.
E as árvores também agradecem. Por quê? Porque a eletricidade também faz uma alteração muito grande na maneira como nos aquecemos, que é uma coisa importante. Dispensamos a madeira, o consumo de carvão e por aí fora. E tudo isso se tornou muito mais barato. Esta energia é uma energia muito mais barata do que outras fontes de energia anteriores. É muito mais barata, chega a muito mais gente, serve a muito mais gente. Basicamente, sem a eletricidade, o mundo tal como o conhecemos hoje não seria possível. Acho que é uma coisa muito elementar e que toda gente percebe.
Aliás, percebemos que cada vez que há apagões, torna-se muito vida.
Enfim, cada vez que há, não. Houve uma vez, mas vamos pensar que não há mais.
Isso é na tua casa, eu já tenho na minha.
Mas isso é por outras razões.
Tenho uns apagões muito particulares.
Pois, exato. Tal como os caminhos de ferro e os telégrafos, a eletrificação e a eletricidade também levam a enormes investimentos de empresas particulares e dos Estados no princípio do século XX, porque a progressão é enorme. Por exemplo, em 1925, nos Estados Unidos, metade da energia consumida já é fornecida por centrais elétricas. Na década de 30, 70% dos lares nos Estados Unidos têm acesso à eletricidade. A eletrificação nos Estados Unidos foi uma expansão muito grande, sobretudo na década de 30 e na década de 40. E a eletricidade, nesse momento, torna-se o símbolo do novo mundo, da modernidade. De tal maneira que Lenin, o líder da Revolução Soviética, em 1920, alguém lhe pergunta o que é o comunismo E ele diz que o comunismo é os sovietes mais a eletricidade. Os sovietes são os conselhos de soldados e operários.
Isso não está em Marx. Não está em Karl Marx.
E a eletricidade. Por quê? Porque pra Lenine, a eletrificação da União Soviética, em 1920, é vista como a base da modernização do país. É a eletrificação. O primeiro plano soviético é de criar precisamente esta enorme rede elétrica baseada em centrais hídricas e de carvão. Deve-se dizer que o sucesso não foi extremamente grande. Só na década de 1970 é que a eletricidade chegou a toda a gente na União Soviética, ao contrário dos Estados Unidos, em que isso se consegue na década de 1930, quase 40 anos antes. Em Portugal, o arranque da industrialização nas décadas de 1940 e de 1950 assenta precisamente na construção das grandes centrais hidroelétricas, com as barragens, também na construção de grandes centrais térmicas, tudo enquadrado na chamada Lei de Eletrificação de 1944. A eletricidade está, em meados do século XX, nos anos 30, 40 e 50, como a base do mundo moderno. Não há modernidade sem uma rede elétrica. É uma grande revolução, faz uma grande diferença a todos os níveis de vida e é o resultado também de um grande investimento dos Estados e de empresas particulares que investem muito nesta frente da modernidade.
Portanto, a eletricidade é a segunda. Qual é a terceira?
A terceira revolução tecnológica. Eu aqui vou admitir que se podia ter escolhido outras diferentes daquela que eu acabei por escolher. Há a nova comunicação social da rádio e da televisão em meados do século XX, é muito importante. Se quiséssemos sair do lado propriamente técnico de engenharia, pensar que na frente da medicina, as campanhas de vacinação ou os antibióticos, desde a descoberta da penicilina em 1928, por Alexander Fleming, até depois à sua divulgação, ao seu uso a partir da década de 1940, são diferenças gigantescas. Muita gente está viva graças aos antibióticos. Gente que morria de tuberculose, tifo e de outras doenças que de repente deixaram de ser doenças fatais como tinham sido até meados do século XX.
Sabes, também já vi defender, por exemplo, fertilizantes, que foi algo absolutamente extraordinário.
Também, os fertilizantes pra agricultura é uma diferença gigantesca.
Sim, que é quando permite a alimentação, a explosão da população.
Nós temos que pensar que no fim do século XVIII, ainda havia gente a pensar que o destino da humanidade era a fome, porque fazia cálculos e dizia: "Bem, a agricultura nunca conseguirá alimentar tanta gente". E como é que foi possível a agricultura não só alimentar muito mais gente, mas com muito menos gente a trabalhar na agricultura. E isso, claro, há uma revolução tecnológica na agricultura que é fundamental também pro mundo de hoje. Há muita coisa por onde escolher.
Então diz só qual é a terceira.
A terceira, eu vou dizer que aquela que eu escolhi é uma revolução tecnológica que permite depois as mudanças do mundo atual, que é a revolução dos microprocessadores ou até podemos dizer, a miniaturização dos computadores. Parece-me que isso é algo que permite chegarmos àquilo que nós chamamos a revolução digital e revolução da inteligência artificial.
Muito bem, então explicam lá isso, Rui. Não é só tua armada em tecnológico, não é?
Não, esta revolução dos microprocessadores basicamente permitiu que os computadores que antes ocupavam um salão ou uma casa, pudessem passar a andar nos bolsos de toda a gente. E é isso que vai permitir a revolução digital dos dias de hoje. Eu aqui escolhi uma revolução, que é a dos microprocessadores, que acontece na década de 1970 e que vai permitir depois a revolução digital que se desenvolve a partir da década de 1990. A data aqui escolhida e citada geralmente é 1971, quando a empresa americana Intel conseguiu colocar uma unidade de processamento de um computador num chip minúsculo de silicone. É óbvio que esta inovação, esta revolução, tem outras invenções prévias importantes, como a dos transistores em 1948 ou os circuitos integrados na década de 1950. Enfim, não vou entrar nesses pormenores todos. Mas a revolução dos microprocessadores permitiu que o computador deixasse de precisar de aumentar de tamanho pra aumentar o seu poder de processamento. Isso só pra vos dar uma ideia, nos primeiros computadores, em 1945, um dos primeiros computadores importantes pesava 30 toneladas, ocupava um salão inteiro e consumia a energia de um comboio.
Certo.
E em 1956, finalmente eles chegaram a um computador pequenino, era o mais pequenino que eles tinham, um minicomputador. E esse minicomputador pesava 360 quilos, era do tamanho de uma secretária, mas era só do tamanho de uma secretária.
Estava ótimo já.
E depois tinha também este pequeno pormenor que limitaria muito a sua divulgação. É que em 1956 custava 47 mil dólares. E quando nós vamos desinflacionar este valor, chegamos a 579 mil dólares ao preço de hoje, meio milhão de euros. Vocês queriam comprar um computador pessoal e custava meio milhão de euros, custava o preço de uma casa.
Certo.
E vamos imaginar a revolução digital de hoje em dia, isto é, internet, estas coisas, nestas condições, com computadores a custar meio milhão de euros e a pesar 360 quilos.
Certo.
Com os microprocessadores, os computadores não só diminuíram de tamanho Também de preço, também do custo para operar, isto é, a energia que precisam para operar. Portanto, tornou possível o acesso de consumidores individuais aos computadores. Foram os microprocessadores que tornaram possíveis os computadores pessoais, iniciados em 1975 e depois divulgados a partir dos anos 80, os telemóveis inteligentes, os smartphones, a partir dos anos 2000 ou mais exatamente 2007, quando se tornaram computadores de bolso, verdadeiramente. E depois o modo como usamos a internet a partir da década de 1990 para fazer tudo. Telefonar, comunicar, fotografar, filmar, fazer compras, fazer operações bancárias, ler jornais, ver vídeos, jogar jogos.
Arranjar namorado.
Arranjar namorados e namoradas e agora usar a inteligência artificial. Quando nós pensamos que hoje a internet é usada por 5 bilhões de pessoas no mundo, num mundo com 8 bilhões, o que quer dizer que provavelmente quase todos os adultos do mundo usam a internet a partir de dispositivos móveis, de telemóveis. Nunca a humanidade esteve tão interligada e fez parte do mesmo mundo. E acho que é um pouco o tema destas revoluções tecnológicas de que estamos a falar, esta globalização. Isto é uma enorme transformação e começa precisamente a possibilidade é os microprocessadores, que ainda fizeram outra coisa, que tornaram-se tão minúsculos e tão baratos que agora estão incorporados em quase todos os produtos que nós usamos hoje. Basicamente, quase todos os produtos que usam eletricidade têm microprocessadores. Desde os automóveis até às coisas mais banais têm pequenos microprocessadores. E também reparamos que as empresas que vão explorar este mundo que se tornou possível a partir da revolução dos microprocessadores, este mundo digital, essas empresas a partir dos anos 2000 tornaram-se as maiores empresas do planeta, isto é, começaram a concentrar os investimentos, a atenção, as expectativas. Não vou dizer os nomes dessas empresas, porque elas não têm a amabilidade de contribuir para o "Resto é História".
Ainda.
Não vamos dizer os nomes delas.
Mas digamos se elas alguém pode adivinhar.
Não vamos dizer os nomes delas, mas é notório que nós estamos perante um momento em que abriu-se uma frente, em que há uma atenção desmedida, que por vezes é criada também com objetivos de atrair investimento, isto é, faz-se uma ênfase muito grande da transformação precisamente para os investidores serem atraídos a colocar os seus capitais nestas empresas com resultados, no caso da inteligência artificial, isso está-se a notar. O começo disso tudo é 1971, com os microprocessadores. E penso que é o começo de uma revolução que ainda estamos a viver hoje, mas creio que daqui a 100 anos poderão ter acontecido outras coisas, tão ou mais importantes, mas continuará a admitir-se que houve este momento, que é um momento de grande mudança do que é a humanidade. Eu acho espantoso 5 bilhões de pessoas, todas provavelmente nos seus telemóveis a comunicar umas com as outras e a fazer imensa coisa com os telemóveis. Isso é um outro mundo, completamente diferente, mesmo em relação ao mundo que existia há 30 anos. Não é o mundo de há 100 anos, é o mundo há 30 anos. É um mudança enorme.
Certíssimo. Isso será comprovado, certamente, no episódio 53427 do "Resto é História".
Já com os nossos sucessores ou com os sucessores dos nossos sucessores.
Com os nossos netos.
Esperemos que ainda sejam humanos e não-
Robôs?
Robôs.
Achas? Ok, é verdade.
Esperemos que seja muito melhor do que faziam aquelas figuras de carne e osso e extraordinariamente complexas e cheias de traumatismos de infância, que antigamente faziam este programa.
Com as nossas convicções despóticas, eu acho que é isso, que sejam os nossos netos.
E não os descendentes dos nossos telemóveis.
Exatamente.
Muito bem.
Muito bem, e ficamos aqui, mas voltamos para a semana, ainda em carne e osso, estaremos nós.
Não automatizados. Ainda vamos ver.
Nós se calhar estamos a fazer promessas, não sabemos se podemos cumprir.
Se calhar não. Mas temos intenções de cumprir.
Temos mesmo intenções de cumprir. Até lá.
E o resto é história. É apenas fumaça! Do incêncio de Pedrogão Grande ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.