Política
Documento é assinado por ex-gestores de São Paulo e afirma que governo priorizou alinhamento ideológico em vez da defesa da economia paulista
O candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) recebeu na sexta-feira (28) o apoio de ex-secretários e políticos de uma ala do PSDB ligada ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). A reunião foi antecipada em primeira mão pela Jovem Pan e contou a presença de nomes como Aloysio Nunes, ex-senador, interlocutores das gestões tucanas no estado.
O grupo divulgou um manifesto em apoio à candidatura de Haddad e fez críticas à gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), principalmente pela privatização da Sabesp e pela atuação do governo paulista diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Os tucanos afirmam que a venda da Sabesp, “nas condições em que foi feita”, representa um erro. Segundo o manifesto, uma decisão desse tamanho exigia mais debate, transparência e uma visão estratégica sobre o papel do saneamento no desenvolvimento do estado.
Outro ponto de crítica é a reação do governo Tarcísio às medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos. Os ex-gestores afirmam que esperavam uma defesa dos interesses de São Paulo e do Brasil diante do impacto das tarifas sobre setores da economia paulista.
Na avaliação apresentada no manifesto, porém, teria prevalecido um alinhamento político do governador, colocando “afinidades ideológicas acima da proteção da economia, dos empregos e da capacidade de investimento do Estado”.
O documento é assinado por ex-secretários de Estado, ex-secretários adjuntos e ex-dirigentes de autarquias, fundações e empresas públicas que estiveram presentes nas gestões de Mário Covas, Alckmin e José Serra. Eles dizem que decidiram se manifestar por entender que há risco de continuidade de um projeto que, na avaliação do grupo, reduziu a capacidade do estado de liderar e formular políticas de longo prazo.
O manifesto também critica o que chama de perda de protagonismo de São Paulo e afirma que o planejamento estratégico foi substituído pela administração do curto prazo. Entre as propostas defendidas pelo grupo estão o fortalecimento das instituições, o diálogo com prefeitos, universidades e setor produtivo e a retomada de políticas públicas de longo prazo.
Ao final, os ex-gestores entregam o documento a Haddad, ao candidato a vice Márcio França (PSB) e às candidatas ao Senado Marina Silva e Simone Tebet. Os outros três nomes da chapa também estiveram presentes.
Leia o manifesto completo
“MANIFESTO DOS EX-GESTORES PÚBLICOS
Pela retomada da liderança de São Paulo
São Paulo tornou-se a locomotiva do Brasil porque nunca se contentou em administrar o presente. Liderou porque planejou o futuro. // Foi capaz de construir políticas públicas inovadoras, fortalecer instituições e colocar o interesse público acima das disputas ideológicas.Essa tradição fez nascer programas e instituições que transformaram a vida de milhões de paulistas: o Poupatempo, a Rede Lucy Montoro, os Ambulatórios Médicos de Especialidades — AMEs, o ICESP, a Rede Hebe Camargo de combate ao câncer, a expansão do Centro Paula Souza, com ETECs e FATECs, a criação da Univesp, hospitais regionais, os restaurantes Bom Prato, o programa de moradia popular Casa Paulista, o Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar, a modernização das forças de segurança, a expressiva redução dos indicadores criminais e a expansão do Metrô, com linhas estruturantes como a 4-Amarela e a 5-Lilás.
São Paulo também foi pioneiro na agenda ambiental e climática, conciliando proteção da biodiversidade, preservação de nascentes e florestas e estímulo aos combustíveis limpos com o desenvolvimento do agronegócio. Em parceria com o setor produtivo, tornou-se referência nacional e internacional em políticas ambientais e no enfrentamento das mudanças climáticas.
Nada disso nasceu do acaso. Foram políticas construídas com planejamento, capacidade técnica, diálogo e visão de longo prazo.
É porque participamos dessa trajetória que decidimos tornar pública esta manifestação.
Nós, ex-secretários de Estado, ex-secretários adjuntos, ex-dirigentes de autarquias, fundações, empresas públicas e demais ex-gestores que tivemos a honra de servir São Paulo, entendemos ser nosso dever alertar a sociedade para o risco da continuidade de um projeto que vem reduzindo a capacidade do Estado de liderar, inovar e construir soluções permanentes.
São Paulo perdeu protagonismo nacional. Enfraqueceu sua capacidade de diálogo com prefeitos, universidades, setor produtivo, entidades representativas e organizações da sociedade civil. O planejamento estratégico foi substituído pela administração do curto prazo. As grandes políticas públicas deram lugar à gestão de ativos.
Não somos contrários às privatizações por princípio. São Paulo foi pioneiro nesse processo desde os anos 1990, utilizando privatizações,concessões e parcerias como instrumentos para ampliar eficiência, atrair investimentos e melhorar serviços públicos.O que rejeitamos é transformar a privatização em um fim em si mesmo, como se fosse solução para qualquer problema. Privatização não substitui planejamento, capacidade de governo ou inovação.
A venda da Sabesp, nas condições em que foi feita, representa, em nossa avaliação, esse equívoco. Uma decisão dessa dimensão exigia mais debate, mais transparência e uma visão estratégica compatível com a importância do saneamento para o desenvolvimento do Estado.
Outro episódio revelou de forma ainda mais clara essa inversão de prioridades. Diante das medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos, que afetaram setores relevantes da economia paulista, esperava-se do governador a defesa incondicional dos interesses de São Paulo e do Brasil. Em vez disso, vimos prevalecer um alinhamento político que, em nossa avaliação, colocou afinidades ideológicas acima da proteção da economia, dos empregos e da capacidade de investimento do Estado.
São Paulo sempre foi maior do que governos. Sempre liderou porque soube construir consensos, respeitar instituições e formular soluções para o Brasil. Essa é a tradição que precisa ser recuperada.
Inspirados pela trajetória pública e pelo compromisso democrático de Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo por 14 anos e atual vice-presidente da República, tornamos pública esta manifestação não para celebrar o passado, mas para afirmar valores indispensáveis ao futuro.
Por essa razão, entregamos este Manifesto aos candidatos Fernando Haddad, ao Governo do Estado, Márcio França, à Vice-Governadoria, e às candidatas ao Senado Marina Silva e Simone Tebet, manifestando nossa confiança de que poderão liderar um novo ciclo de desenvolvimento, diálogo, responsabilidade pública e fortalecimento das instituições democráticas.
Convidamos os brasileiros de São Paulo a se unirem a esta iniciativa e a contribuir para colocar São Paulo novamente na liderança do desenvolvimento do Brasil.
O que nos une não é a filiação partidária nem a nostalgia. É a convicção de que a experiência acumulada na administração pública pertence à sociedade paulista e deve continuar a serviço de São Paulo.
São Paulo merece voltar a liderar pelo exemplo, pela inovação e pela boa gestão.”