Socialista sublinha que “visitar um país não significa apoiar o seu Governo”, conhecer um povo não significa concordar com quem o governa” e que mostrar aquilo que se vê “não significa fazer propaganda”
A Associação dos Ucranianos em Portugal questionou hoje o PS sobre o deputado socialista José Carlos Barbosa que acusa de elogiar a Rússia numa viagem pelo país, mas o Partido Socialista refere que “não corresponde à realidade”.
“Pedimos-lhe que avalie as ações de um membro do seu partido, deputado da Assembleia da República de Portugal - José Carlos Barbosa, que se encontra atualmente na Rússia e que nas redes sociais elogia a Rússia. País que há 12 anos está a travar uma guerra não provocada contra a Ucrânia”, refere a associação numa carta dirigida ao secretário-geral do PS, José Luís Carneiro.
Na carta, o presidente da associação, Pavlo Sadokha, indica que no dia 5 de agosto oito pessoas morreram durante um ataque russo na estação ferroviária de Kvitneva, no distrito de Brovary, em Kiev.
“Está a ser muito doloroso para nós, ucranianos em Portugal, ver que, nesse mesmo dia, o deputado da Assembleia da República José Carlos Barbosa publicou nas suas páginas nas redes sociais mensagens de alegria sobre a sua estadia na Rússia, elogiando, na verdade, a atual administração russa e sem uma única palavra a condenar o assassinato de civis ucranianos que esperavam um comboio numa das estações ferroviárias perto de Kiev”, salienta.
Pavlo Sadokha recorda que o ministro dos Negócios Estrangeiros português condenou os recentes bombardeamentos russos contra Kiev e reiterou a solidariedade de Portugal para com o povo ucraniano, bem como do Presidente António José Seguro.
O presidente da associação destaca o apoio dado à Ucrânia pelo atual presidente do Conselho Europeu e ex-primeiro-ministro de Portugal, António Costa, e que o presidente do grupo parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, vai este ano à Ucrânia para a cerimónia oficial de comemoração do 35.º aniversário da independência.
Contactado pela Lusa, Eurico Brilhante Dias afirmou que esta ação “não corresponde nada à realidade”, indicando que o deputado José Carlos Barbosa está a fazer uma viagem privada pela ferrovia entre Paredes, a sua terra natal, e Pequim.
O deputado realçou que José Carlos Barbosa tem votado ao longo dos anos ao lado do PS na condenação da Federação Russa e na defesa da causa ucraniana.
“Isto é uma atividade privada de promoção do modo ferroviário e que nada tem a ver com esse aspeto e que, bem pelo contrário, já serviu para José Carlos Barbosa afirmar naturalmente a vontade que encontrou nos mais jovens na Rússia para terem um futuro diferente”, disse.
O líder parlamentar do PS afirmou ainda que a associação de ucranianos “conhece bem a posição do Partido Socialista e do deputado José Carlos Barbosa” em relação à causa ucraniana, além da “forma empenhada” como o PS tem vindo a defender a Ucrânia.
Nas redes sociais, José Carlos Barbosa também já reagiu a uma publicação do deputado da Iniciativa Liberal Rodrigo Saraiva, que no sábado publicou um vídeo com o título “Enquanto caem mísseis na Ucrânia há quem passeie pela Rússia. Não é apenas um cidadão apaixonado por viagens. É um deputado da nação. Será falta de noção?”.
“Um deputado do PS está a fazer uma viagem de comboio até Pequim. Já passou pela Bielorrússia e agora está na Rússia. Ele filma estações bonitas, o ambiente nas cidades e faz sorrisos para a câmara”, diz o deputado da IL, referindo que o socialista “come e dorme lá, contribuindo para a economia dos dois países”.
Rodrigo Saraiva considera que “o mais estranho é o silêncio” por parte do PS, sustentando que esta viagem do deputado socialista “não é uma aventura ferroviária”, mas sim “uma propaganda em segunda mão, uma irresponsabilidade e é ser útil a Vladimir Putin”.
Em resposta, José Carlos Barbosa refere que não está na Rússia para defender o Governo russo, mas para mostrar aquilo que encontra e fazer o Transiberiano, a viagem ferroviária com que sonhou durante anos.
“O facto de um cidadão português, seja deputado, jornalista, empresário, professor ou tenha qualquer outra profissão, entrar e viajar num país governado por um regime autoritário não o transforma num apoiante desse regime”, escreve o deputado do PS.
O socialista sublinha que “visitar um país não significa apoiar o seu Governo”, conhecer um povo não significa concordar com quem o governa” e que mostrar aquilo que se vê “não significa fazer propaganda”.
“Uma coisa é um Estado e quem o governa. Outra coisa, completamente diferente, são as pessoas que nele vivem. E reduzir milhões de pessoas às decisões dos seus governantes é precisamente aquilo que me recuso a fazer. E digo isto também com toda a clareza: sou pela paz, sempre fui pela paz e condeno qualquer agressão à soberania de um país, venha ela de onde vier. E foi isso sempre que fiz nas votações no parlamento sobre estes temas”, escreve ainda.