Os problemas recentes relacionados com o Ministro da Educação, Ciência e Inovação Fernando Alexandre e com o Ministro da Administração Interna Luís Neves vieram fragilizar ainda mais um Governo que já se encontrava numa situação débil. A degradação do capital político destes dois ministros é particularmente danosa para o executivo liderado por Luís Montenegro por serem até agora (justificadamente ou não) dois dos seus membros com melhor imagem pública. Num Governo que já tinha em áreas chave – como a saúde, a habitação ou os transportes – uma imagem de notória falta de capacidade para resolver os problemas do país, o enfraquecimento destes dois ministros torna-se especialmente preocupante. De tal forma que, como bem resumiu Rui Rocha: “O governo do país resume-se neste momento a uma corrida alucinada a que os portugueses assistem para perceber se é o Alexandre, a Martins, o Luz ou o Neves que caem primeiro ou se esses e o resto dos ministros caem todos ao mesmo tempo.”
Importa, é certo, realçar que há diferenças importantes entre os problemas enfrentados por Fernando Alexandre e Luís Neves. Enquanto no primeiro caso os sérios problemas com a transição digital na classificação dos exames nacionais denotam falta de preparação e incapacidade para lidar com a máquina do Ministério da Educação mas não beliscam a idoneidade de Fernando Alexandre para o cargo, já relativamente a Luís Neves é incompreensível que continue em funções face a tudo o que já se sabe. Revelações ainda mais graves para alguém que transitou do cargo de Director Nacional da Polícia Judiciária para Ministro da Administração Interna. No caso de Neves, a extraordinária manutenção no cargo talvez só possa ser compreendida atendendo ao muito peculiar padrão de apoio transversal de que goza o actual MAI em vários quadrantes do regime, nomeadamente (mas não exclusivamente) por parte do PS. Como oportunamente questiona Rui Rio:
“Não é UM POUCO INTRIGANTE que o PS ataque tão empenhadamente o Ministro da Educação (ou a Ministra da Saúde), e fuja para não ter de responder às (graves) questões sobre o anterior diretor da PJ e atual Ministro da Administração Interna?
Deve haver uma explicação…”
Seja qual for a explicação, a verdade é que, mais do que um Governo em crise, o país parece confrontado com um Governo em decomposição. Os dados da sondagem da Universidade Católica para a RTP, Antena 1 e Público divulgada na semana passada parecem confirmar esta percepção. Mais relevante do que o empate entre PS e AD nas intenções de voto (ambos abaixo dos 30%…), é haver uma maioria absoluta de portugueses (51%) que considera que o país está pior do que há um ano, sendo que 35% consideram que o país está igual e apenas 12% dos eleitores percepcionam uma melhoria. Dados condenatórios para o Governo liderado por Luís Montenegro e que, conjuntamente com a avaliação que é feita do Governo, pintam um quadro cada vez mais negro para a AD. Segundo esta sondagem, 41% dos eleitores portugueses fazem uma avaliação negativa do Governo (27% como mau e 14% como muito mau) – a percentagem mais elevada desde que Luís Montenegro é Primeiro-Ministro. 46% avaliam o desempenho do Governo como razoável e apenas 11% dos eleitores o consideram bom ou muito bom.
Vão valendo para já a Montenegro a ausência de uma alternativa credível de governação e a clara vontade por parte do eleitorado de que a legislatura termine. De facto, apenas 44% dos eleitores acreditam que algum partido na oposição seria capaz de fazer melhor do que o actual Governo e uns esmagadores 79% consideram que é melhor para o país que o actual Governo cumpra o seu mandato até ao fim. Dados que sugerem uma substancial fadiga eleitoral e também que poderá haver um pesado custo político associado a quem seja percepcionado como causador de uma crise política que conduza o país, uma vez mais, a eleições antecipadas.
A ausência de alternativas credíveis de governação é também demonstrada por Luís Montenegro continuar a ser o líder político com melhor avaliação (um marginalmente positivo 10,2), ligeiramente à frente de José Luís Carneiro (9,8). Note-se também que, apesar do forte e notório desgaste da AD, a IL não consegue capitalizar de forma significativa: não vai além dos 8% nas intenções de voto e perde inclusivamente terreno relativamente à sondagem de Dezembro de 2025. Dados significativos considerando que a IL deveria estar numa posição privilegiada para capitalizar com o desgaste da AD junto do eleitorado de centro-direita com maior aversão ao Chega (mas também considerando que num cenário de eleições reais a pressão do voto útil será tendencialmente mais forte sobre a IL).
Por fim, importa notar que, não obstante a desilusão com a governação AD e a incapacidade para constituir uma maioria governativa estável à direita, o espaço político à direita do PS continua largamente maioritário em Portugal. De facto, AD, Chega e IL reúnem 58% das intenções de voto enquanto PS, L, CDU e BE se ficam por uns modestos 40%.
Depois de um Congresso do PSD em que ficou patente a letargia do partido, a degradação notória e acelerada de um Governo incapaz de reformar e incompetente até na mera gestão do status quo deixa Montenegro agarrado ao poder “apenas” pela inexistência (para já) de alternativas credíveis e pela fadiga eleitoral. Pode ser pouco para aguentar até ao fim uma legislatura.