No dia 10 de Agosto, chegámos a Paredes de Coura. Procurámos chegar cedo, como usual, e acabámos a chegar tarde, como habitual; mas não deixámos de subir ainda à vila para começar a matar a sede e as saudades.
No dia 11 de Agosto, acordámos em Paredes de Coura. Pela primeira vez, e amparados por companhia mais experiente, fizemo-lo não numa tenda, mas numa autocaravana, parte importante de uma estratégia de prolongamento da vida festivaleira em idade que menos lhe corresponde. Imbuídos da ânsia e da energia que a frescura inicial permite, e que as antecipações várias – do rio, da floresta, da música, da simbiose única com a localidade – motivam, passámos o dia a ler e a conviver nas diferentes micro-geografias que florescem em torno do dito habitat natural da música. À noite, tornámos à vila ao som do indie solene de Nunca Mates o Mandarim, desta vez para gozar um serão completo desses que engrossam o mito com cerveja, caldo verde e tropeções, e sempre rivalizam com os do festival propriamente dito.
No dia 12 de Agosto, reentrámos no recinto. O primeiro e progressivo vislumbre do belíssimo anfiteatro natural, ao descer a calçada, é o meu ponto alto deste reencontro, onde confluem as memórias exuberantes dos concertos passados, as expectativas sempre altas dos vindouros, e o envelope imediato do actual – desta feita, o espectáculo A Residência dos First Breath After Coma com Salvador Sobral à sombra do eclipse solar que calhou, neste ano, pontuar o primeiro dia do festival.
Julguei a actuação dos Wet Leg – a primeira das que mais antecipava – moderadamente desapontante. A banda oriunda da Ilha de Wight é e foi tecnicamente competente, mas entregou uma performance banal e interacção praticamente circunscrita a um “this is such a cool festival” (com correspondente saída de rompante). Em suma, escasso para encher as medidas de um palco e de um público aos quais tantos artistas já se renderam; particularmente quando contrastado com o cativante entusiasmo da irlandesa CMAT, que os precedeu.
Seguiram-se dois concertos em que também entrei ignorante – The Horrors, ingleses, e Kneecap, irlandeses. Dos primeiros, tinha apenas uma recomendação firme de confiável e mais calejado festivaleiro. Descobri uma banda maior que o palco secundário, capaz de atingir o raríssimo e elegante equilíbrio entre a veterania e a despretensão, e portadora de um goth-synth-alternativo que, não obstante a sua especificidade, é pai de muito do que se ouviu no restante do festival. Dos segundos trazia algum preconceito, bastante curiosidade pelo conceito – hip hop em irlandês –, e breve conhecimento prévio. Encontrei uma performance excelente, urgente mas sempre dançável, que não teve qualquer dificuldade em encher – literal e metaforicamente – o anfiteatro.
Terminámos o dia com a anarquia disco-indie-rock-deboche dos Getdown Services (com Adolfo Luxúria Canibal na grade) para a qual, em contraste, ia bem preparado. O avançado da hora não me permite testemunho particularmente preciso, mas recordo dois ingleses em tronco nu, uma coesão implausível, um moche de que o meu ortopedista não pode saber, e plena realização espiritual no retorno ao nosso lar temporário.
Passei o dia 13 de Agosto a trautear a Something To Remember Me By, a FENIAN, e a Get Back Jamie. No recinto, não deixámos de ver Aldous Harding no fim de tarde do palco principal, muito adequado ao indie-folk da neozelandesa. Interrompemos, depois, para jantar e assistir ao jogo do Benfica na vila.
Voltámos a tempo do destaque da noite: o Sonido Cósmico dos Hermanos Gutiérrez, suíços-equatorianos que incluem os Dead Combo nas suas influências e que, não obstante terem tocado demasiado tarde para o seu misto western-latino, deram um dos melhores concertos do ano com cunho genuíno e humilde que o anfiteatro não esquecerá. Seguiu-se a electrónica ecléctica dos Underworld, cuja sonoridade de fim do século se espalhou e alojou colina acima, entre as árvores e as pessoas.
No dia 14 de Agosto, já assaz debilitados pela folia continuada, dedicámos a tarde inteira à nutrição via prolongado almoço na vila, na Albergaria – tradição para o nosso grupo e estreia para nós. Recompostos, começámos a noite com o inconfundível virtuosismo e a contagiosa entrega, candura, e alegria de Benjamin Clementine.
Seguiu-se um dos concertos que mais antecipava: os Terraplana, recente banda brasileira de shoegaze, a fazer lembrar os Hum, que veio ao Taboão dar o seu primeiro espectáculo na Europa. Infelizmente, a qualidade da música e competência dos intérpretes foram traídas pelo som, demasiado alto e com alguns problemas na mistura. Ainda assim, excelentes indicações de um grupo que valerá a pena seguir e rever.
Depois, no palco principal, pudemos pela primeira vez ver os Bloc Party – banda seminal do indie moderno com dois primeiros álbuns de imparável fulgor, que moldaram o gosto de uma geração, e uma restante carreira relativamente discreta. Não entrei neste concerto totalmente convencido, em parte por desconfiança da obra mais recente e em parte pela formação renovada. Em palco, no entanto, os ingleses fizeram jus a todas as versões de si próprios e acenderam o anfiteatro com interpretações apoteóticas da Banquet e da Helicopter, uma This Modern Love que nos levou de volta a onde quer que estivéssemos quando a ouvimos pela primeira vez, vários e competentes cortes do mais denso segundo álbum, e um fecho com a mais recente e mais dançável Ratchet – nas palavras do próprio Kele Okereke, certamente ecoadas por quem a testemunhou, um banger. Segundo (e final) moche de que o meu ortopedista não pode saber.
Houve ainda tempo para o disco/synth de muito boa memória da suíça Vendredi sur Mer, a invocar um pouco de La Femme e os históricos, e agora irrepetíveis, concertos de L’Impératrice em 2022 e 2024. Vimos, por fim, também os Maruja, com um art rock que faz lembrar o Blackstar de David Bowie, mas onde a monumentalidade auto-epitáfica (inimitável, é certo, pela singularidade do seu contexto) é substituída por uma angústia permanente e omnidireccional de responsabilidade pela totalidade das circunstâncias. Não me cativou, mas capturou indiscutivelmente a audiência com a qual, justiça seja feita, os ingleses estabeleceram uma excelente relação.
No dia 15 de Agosto, acordámos pela penúltima vez em Paredes de Coura. Começámos cedo com o concerto no rio da Rita Cortezão: um indie-pop a solo, minimalista, mas sempre cadente ora pela entrega vocal da lisboeta, ora pelas letras repletas de uma introspecção que é desarmante, porque despida, e articulada com arte. Apoiada por uma banda que traduza as mais densas instrumentações de estúdio (onde o toque do Benjamim, presente na plateia, é evidente), será forte candidata à promoção para o cartaz principal. De resto, pudemos ainda ver um concerto mais espontâneo dos Meute na margem do rio, assim como a sua posterior presença no palco principal.
A estrela do dia, no entanto, foi a Júlia Mestre, cantora carioca que trouxe um pop inconfundivelmente brasileiro, com sonoridade dos anos 80 e analogia possível ao Palavras Cruzadas de David Bruno e Mike El Nite. Ao longo da breve hora de que dispôs, apresentou-se confiante, enérgica, e irrepreensivelmente entrosada com a sua (diga-se, competentíssima) banda; dona de um conforto de quem está onde quer, a fazer o que quer, e a fazê-lo como quer. Condição, aliás, que conseguiu certamente transmitir à sua plateia, que não precisou de mais (e talvez não precisasse de tanto) para a acolher como sua. Melhor concerto desta edição do festival, de longe, na minha opinião, e dos melhores que vi em qualquer outra.
Vimos ainda Thundercat, virtuosíssimo, e o punk de pub dos Amyl and the Sniffers, mas o ponto alto já tinha sido atingido. No dia 16 de Agosto acordámos cedo, devolvemos a caravana, e fizemo-nos à estrada.
No dia 20 de Agosto, ainda em ligeira convalescença, terminei este testemunho com um misto de nostalgia e antecipação. No fim, a nossa lente sempre turva a realidade. É possível que a Júlia Mestre se tenha enganado nalguma nota; talvez os Bloc Party não tenham estado na melhor forma da sua carreira. Vê-los, no entanto, foi um momento da minha vida. E são esses, tão difíceis de antecipar no quotidiano e tão evidentemente ocorrentes em Paredes de Coura, que nos unem ao espaço, aos artistas e aos amigos que os partilharam connosco, numa malha concreta mas incorpórea que aguarda, sem perecer, o nosso regresso.