Têm sido meses duros para o governo de Luís Montenegro, que acumula polémicas. Esta envolve obras, comprovativos de pagamento por revelar, uma mesa e um atrelado cheio de precursores para produzir drogas
Há quem diga que estalou o verniz na política portuguesa. Depois de se instalar o caos na Educação, com um processo de classificação de exames digital, mas também defeituoso, foi a vez de Luís Neves ser o centro da polémica.
O caso tem deixado indignada a oposição, que insiste em escrutinar os detalhes da investigação, colocando o ministro da Administração Interna (MAI) sob um autêntico fogo cruzado. Há até quem já exija a demissão do governante nem cinco meses depois de este ter sido empossado.
O caso Luís Neves
Uma investigação do Nascer do Sol deu o mote para a controvérsia. Na sexta-feira passada, a manchete do semanário dava conta da escolha de João dos Santos Carvalho, proprietário da Construbarcelos e amigo pessoal de Luís Neves, por parte do próprio MAI, para realizar trabalhos de remodelação em dois montes da sua família, em Odemira.
O problema estaria na contratação do mesmo empreiteiro a quem o ministro adjudicou várias obras na Polícia Judiciária (PJ), quando era diretor nacional daquela força. Segundo o jornal, ter-lhe-ão sido atribuídos diversos contratos para intervenções em instalações da PJ, como é o caso das sedes distritais da Guarda e de Évora entre 2019 e 2025, que lhe renderam dois milhões de euros.
João dos Santos Carvalho deixou de ser um nome estranho para essa polícia em 2017, ano em que foi alvo de uma investigação por suspeitas de falsificação de documentos e insolvência dolosa, envolvendo uma empresa de exploração de pastelarias.
A própria empresa que liderava, a Construbarcelos, surge classificada por analistas de informação comercial como sendo de elevado risco em matéria de crédito e litigância, devido à existência de processos judiciais pendentes nas comarcas do Porto e de Braga, incluindo ações relacionadas com alegadas dívidas a fornecedores.
Mas nem esse historial impediu o ministro da Administração Interna de recorrer aos serviços do empreiteiro, entretanto confirmados por Luís Neves, ainda que num único monte de que é proprietário, garantiu ao Sol, argumentando que o facto de se tratar de uma empresa credenciada pelo Gabinete Nacional de Segurança lhe transmitiu confiança para tal.
A questão é que o Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) visitou o local, onde se deparou com um cenário que desmente o ministro. Afinal, há equipamentos da empresa de construção, como um alpendre e uma retroescavadora, nos dois montes de Luís Neves.
O "tanque", ou a piscina
A trama adensou-se quando, em entrevista à TVI, o ministro da Administração Interna detalhou o plano das suas remodelações, adiantando que as obras são “três paredes, uma casa de banho com sete metros quadrados, um alpendre e um tanque que foi feito”. Questionado sobre o orçamento da obra, Luís Neves admitiu que pagou no fim entre 20 a 30 mil euros. “À volta disso”, acrescentou. Mas isso só pode ser um "preço de amigo", afirmaram construtores consultados pelo Exclusivo, que não têm dúvidas de que o total das obras nos montes do ministro supera o valor indicado por Neves. Só a piscina, sublinharam, custaria entre sete a nove mil euros, fora os custos de deslocação e alojamento.
Além disso, imagens revelam uma piscina já finalizada, pelo que deveria estar paga.
O MAI adiantou, em antena na CNN Portugal, que na altura “entendeu que, se calhar, aquelas obras não precisam de ser pedidas”, quando questionado sobre se tinha requerido alguma licença para a construção. A Câmara Municipal de Odemira esclareceu que qualquer piscina se trata de uma obra urbanística, pelo que precisa de licença, não tendo encontrado “qualquer processo de licenciamento de obras” para os montes do MAI.
O pagamento ao empreiteiro
Também a fórmula de pagamento combinada com o amigo de Barcelos tem levantado uma série de dúvidas.
Depois de ter recebido uma lista com 108 faturas relativas às obras de Luís Neves, o jornal Observador concluiu que apenas duas pertenciam à Construbarcelos, que terá emitido um total de cinco mil euros. O ministro da Administração Interna recusou-se a apresentar os comprovativos de pagamento.
Instado a explicar o valor numa entrevista à TVI, Luís Neves justificou-se: "Isso são cinco mil euros que eu lhe fui dando aos fins de semana, quando ele ia lá, para pequenas despesas, para fundo de maneio", referindo-se a duas faturas que o próprio exibiu à comunicação social.
O ministro até chegou a dizer que, assim que as obras estivessem concluídas, ia disponibilizar “toda a documentação que se revelasse pertinente”, sublinhando durante a entrevista que não tinha “nenhum problema em apresentar as faturas”. “Logo que as tenha, e se entender que ainda é necessário, apresentarei as faturas”, culminou. Mas acabou por recuar na sua posição, acrescentando que, para já, nenhum documento será tornado público.
Sobre o alegado “preço de amigo”, Luís Neves assegurou que “não há favorecimento nenhum”.
As obras de Évora
As obras em Évora configuram mais um capítulo misterioso daquilo que se tem vindo a tornar numa saga de revelações. Ao que o Exclusivo da TVI e o jornal Nascer do Sol conseguiram apurar, a Polícia Judiciária recusa-se a divulgar os contratos assinados com a Construbarcelos.
No Portal Base, onde devem ser publicados todos os contratos realizados pelo Estado como manda a transparência, a PJ tem apenas as obras feitas pela empresa nas instalações da Guarda. Em falta estão as intervenções que ocorreram em Évora, em 2023, que aquela polícia diz terem custado 874 mil euros.
Mais lenha para a fogueira do ministro, já que à data era Luís Neves quem dirigia a instituição. O MAI alegou não ter divulgado os contratos por questões de segurança, embora especialistas advirtam que a PJ deve explicar o que está em causa.
A empresa da mulher (e de Luís Neves)
A empresa da esposa de Luís Neves, AL Campos, afinal também é sua por serem casados em comunhão de adquiridos. A informação é conhecida, mas não há muito tempo. É de conhecimento público há menos de dois meses, depois de o ministro o ter declarado junto da Entidade para a Transparência.
Apesar de ser obrigado a fazê-lo, escondeu o facto quando ainda era diretor nacional da PJ e voltou a omiti-lo quando ficou encarregue da pasta da Administração Interna, há cerca de cinco meses.
Em novembro de 2024, ao ser reconduzido pelo Governo como diretor nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves entregou a obrigatória Declaração Única prevista na Lei n.º 52/2019, de 31 de julho. E no campo destinado à identificação de quotas, ações, participações ou outras partes sociais em sociedades civis ou comerciais, escreveu o seguinte: “Nada a declarar”.
A alteração foi feita já durante o seu mandato.
O atrelado
Uma novidade ligada, mesmo que indiretamente, ao tráfico de droga tornou o caso ainda mais sério, ao revelar que o empreiteiro e amigo do MAI tinha na sua posse um atrelado apreendido pela Polícia Judiciária na conhecida megaoperação “Pacoba”.
A operação, conduzida em dezembro de 2024, culminou no “desmantelamento de um dos maiores laboratórios de produção de cocaína da Europa”. Foram apreendido 1.478 quilogramas de cocaína, armas de fogo, elevadas quantias de dinheiro e várias viaturas ligeiras e pesadas.
Na sequência das apreensões, um atrelado, que continha bidões selados com precursores, nomeadamente amoníaco (utilizado para o fabrico de drogas sintéticas), foi levado para o parque de apreendidos da Autoridade Marítima. Em 2025, esse atrelado desapareceu do local.
A TVI/CNN Portugal/Nascer do Sol descobriram então que o atrelado “desaparecido” estava agora nas instalações da Construbarcelos. Depois de confirmada a presença do atrelado acoplado a um camião da empresa de João dos Santos Carvalho, o atrelado desapareceu quatro dias depois. Restou apenas a viatura pesada.
A TVI/CNN Portugal/Nascer do Sol sabem também que foi aberto um inquérito para apurar as circunstâncias em que o referido atrelado foi parar às mãos da Construbarcelos, de acordo com uma fonte ligada à direção nacional da PJ.
A mesa
Um pedido insólito do ministro da Administração Interna sobre uma mesa também alimenta a polémica. Luís Neves pediu ao empreiteiro de Barcelos que construísse uma mesa e bancos de jardim para as suas propriedades no Alentejo, mas não com uma madeira qualquer. Tinham de ser as madeiras que a Comboios de Portugal (CP) lhe ofereceu, em 2025, num almoço entre altos dirigentes da CP e da PJ, após o desmantelamento de linhas férreas desativadas.
Durante um encontro que serviu para homenagear a REFER (Rede Ferroviária Nacional), Luís Neves terá mostrado que “gostava muito de ter umas sulipas dessas para fazer uma mesa e uns bancos corridos para uma quinta minha". Ao que o dirigente da empresa pública respondeu, dizendo que teria "muito gosto em oferecê-las".
O gabinete do Ministro das Infraestruturas e Habitação informou que Miguel Pinto Luz "não tem conhecimento" do caso e remeteu para a Infraestruturas de Portugal, que garantiu não existirem “quaisquer registos na IP relativamente a alienação dos referidos materiais ou cedência a título gracioso".