O controlo do estreito de Ormuz por parte do Irão, juntamente com o crescente domínio sobre o estreito de Bab el-Mandeb, ameaçam fazer subir ainda mais os preços do petróleo. Isto, numa altura em que o preço do barril de Brent se mantém acima dos 100 dólares e a poucas semanas antes das eleições intercalares de novembro nos Estados Unidos
Os apelos desesperados dos generais iemenitas por cobertura aérea começaram a chegar a meio da manhã de quinta-feira. O avanço dos Houthis, apoiados pelo Irão, em direção à cidade portuária estratégica iemenita de Mocha estava em pleno curso, e o apoio de reforço do principal aliado, a Arábia Saudita, não aparecia em lado nenhum.
“Os Houthis empenharam tudo o que tinham – vagas sucessivas de combatentes… juntamente com os seus mísseis balísticos e armas disponíveis”, disse à CNN uma fonte iemenita de alto nível ligada às forças militares. A fonte afirmou ter contactado o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) e ter recebido garantias de que os EUA estavam “a acompanhar de perto a situação e que o apoio aéreo saudita estava a caminho”.
“Mas o apoio aéreo nunca chegou”, disse a fonte. “E Mocha caiu agora.”
Horas mais tarde, na sexta-feira, os Houthis capturaram outro ponto costeiro fundamental, a ilha de Perim, na entrada do Mar Vermelho. A ilha divide o estreito de Bab el-Mandeb em dois, dando a Teerão o controlo de facto sobre outra importante rota marítima.
O rápido avanço dos Houthis representa umas extraordinárias 36 horas num conflito que esteve em grande medida congelado durante anos. Mas o combustível para a retoma dos combates vinha a ser preparado há meses, em plena guerra entre os Estados Unidos e o Irão, enquanto Teerão procura utilizar os preços do petróleo – e o seu impacto na economia mundial – como instrumento de pressão.
Agora, o Iémen e o Mar Vermelho têm potencial para se tornarem uma verdadeira segunda frente na guerra contra o Irão.
Fonte: ACAPS, fontes do governo iemenita
Gráfico: Henrik Pettersson e Renée Rigdon, CNN
O controlo efetivo do estreito de Ormuz pelo Irão, juntamente com o seu crescente domínio sobre o estreito de Bab el-Mandeb, ameaçam fazer subir ainda mais os preços do petróleo, poucas semanas antes das eleições intercalares de novembro nos Estados Unidos.
Embora o estreito de Bab al-Mandeb, porta de entrada para a rota marítima do Canal do Suez, seja menos crítico para os mercados energéticos mundiais do que Ormuz, continua a transportar bens essenciais para todo o mundo, incluindo milhões de barris de petróleo por dia. O estreito tornou-se cada vez mais importante desde o início da guerra contra o Irão, uma vez que a Arábia Saudita redirecionou algumas exportações através desta via marítima para contornar Ormuz.
“(Os Houthis) não precisam de utilizar armas avançadas para fechar Bab el-Mandeb. Podem simplesmente usar um canhão montado num carro”, disse Amr Al-Bidh, o mais alto responsável do Conselho de Transição do Sul (STC) do Iémen. O STC combateu tanto os Houthis como as forças apoiadas pela Arábia Saudita no passado e pretende criar um Estado independente no sul.
“É uma vantagem de pressão que têm sem utilizar armas avançadas”, disse Al-Bidh à CNN numa entrevista. “E vão mantê-la.”
Listas de tropas ‘fantasma’ e ausência de apoio de reforço
O príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman falou duas vezes na quinta-feira com o presidente dos EUA, Donald Trump, e instou-o a atacar os Houthis, revelou na sexta-feira à CNN outra fonte familiarizada com o assunto. Segundo essa fonte, Trump recusou intervir.
“Os Estados Unidos estão concentrados em proteger os nossos principais interesses de segurança nacional – como garantir a liberdade de navegação no Mar Vermelho – ao mesmo tempo que capacitam os nossos parceiros regionais para assumirem a liderança na gestão e resolução dos desafios de segurança regionais”, afirmou a Casa Branca em resposta às perguntas da CNN sobre as chamadas. “Estamos em diálogo contínuo com a Arábia Saudita e com o governo da República do Iémen sobre a estabilidade regional.”
A CNN também contactou a embaixada da Arábia Saudita em Washington para obter um comentário.
A rápida queda de Mocha e a falta de resistência deram origem a acusações e recriminações entre os aliados dos EUA.
“O fracasso desta vez não é dos iemenitas”, disse uma fonte regional à CNN na quinta-feira. “É um desastre feito em Washington DC e Riade.”
A fonte regional disse à CNN que se tratou de “um fracasso total da liderança política”, no meio de fortes disputas e de uma tomada de decisões tardia em Riade.
“Não houve um único ataque aéreo durante todo o dia de ontem (por parte das forças sauditas de apoio), apesar de terem existido atualizações minuto a minuto”, acrescentou a fonte regional. “É uma trapalhada saudita-americana de proporções épicas.”
Nem todos concordam. Mohammed al-Basha, que trabalhou como conselheiro do governo dos EUA e do setor privado sobre riscos emergentes na Península Arábica, defende que a culpa também recai sobre os líderes iemenitas, cujas divisões internas comprometeram as suas defesas.
“Isto remonta a um problema mais profundo na coligação anti-Houthi”, disse o conselheiro, baseado em Washington DC, à CNN. “Não existe coesão política.”
“Acho que toda a gente estava ciente do avanço dos Houthis em direção à costa ocidental. Os sinais eram muito claros”, acrescentou. “Não existe um comando e controlo unificados no Iémen.”
Os combatentes Houthi chegaram a Mocha na quinta-feira e encontraram batalhões iemenitas severamente desfalcados – as suas listas estavam preenchidas com “nomes fantasma” que recebiam salários, e a força efetiva do exército correspondia apenas a cerca de 20% do que constava oficialmente, segundo uma fonte ocidental com conhecimento das operações que falou à CNN.
A situação foi agravada pelo facto de os Emirados Árabes Unidos – anteriormente membros da coligação liderada pela Arábia Saudita no Iémen – terem retirado as forças que ainda mantinham no país em janeiro, depois de a Arábia Saudita ter exigido a sua saída na sequência de um diferendo. E a Arábia Saudita não substituiu essas tropas nos quartéis e bases.
“Não faz sentido. Quer dizer, temos o principal apoiante dos militares no terreno… que, na realidade, está a fazer todo este trabalho há 10 anos, e de repente pedem-lhes que saiam e não preenchem esse vazio”, acrescentou Al-Bidh, do Conselho de Transição do Sul do Iémen. “É simplesmente falta de estratégia e má gestão.”
O alto responsável iemenita disse à CNN na sexta-feira que tinha “alertado repetidamente o CENTCOM nos últimos dias, incluindo ontem, de que a situação estava a tornar-se crítica”. A CNN contactou o CENTCOM para obter uma resposta.
O chefe do CENTCOM, almirante Brad Cooper, esteve na Arábia Saudita na quinta-feira para reuniões de coordenação, disseram duas fontes familiarizadas com o assunto. O CENTCOM recusou comentar, invocando razões de segurança operacional.
O exército saudita tinha sido colocado em estado de alerta máximo três semanas antes, disseram fontes à CNN, mas não deslocou para as posições necessárias os principais elementos de comando aéreo. A fonte ocidental com conhecimento da batalha afirmou que a Arábia Saudita nunca enviou o pessoal necessário para controlar e dirigir aeronaves de combate no caso de um ataque grave.
“Os sauditas atiraram os iemenitas para debaixo do autocarro”, disse a fonte ocidental à CNN na quinta-feira.
A CNN contactou o Ministério da Informação da Arábia Saudita para obter um comentário sobre essas alegações.
O fracasso em defender Mocha e Perim é ainda mais desconcertante à luz das notícias recentes – divulgadas em exclusivo pela CNN – de que mais de 100 conselheiros militares norte-americanos foram enviados para a Arábia Saudita, fornecendo informações e apoio à identificação de alvos ao reino na sua campanha militar, segundo cinco fontes familiarizadas com as operações.
Os militares norte-americanos estão a trabalhar como parte de um comando de forças conjuntas recentemente criado, formado nas últimas semanas perante sinais de que o Irão estava a intensificar os seus próprios esforços para apoiar os ataques dos Houthis, disse uma das fontes, um responsável norte-americano. Esse responsável estimou o número total de militares norte-americanos na Arábia Saudita em cerca de 200.
A captura dos pontos estratégicos do Mar Vermelho dá aos Houthis uma margem de manobra e uma capacidade de pressão muito maiores, uma vez que abre novos locais a partir dos quais os rebeldes apoiados pelo Irão podem lançar embarcações e ataques.
Questionado sobre o que acontecerá a seguir, al-Basha, analista de riscos, disse à CNN: “Penso que os Houthis vão avançar para leste. Estamos a ver hoje, através de satélite e de imagens de OSINT, que os Houthis estão a mobilizar-se.”
Um conselheiro do líder supremo do Irão descreveu na sexta-feira o avanço dos Houthis na costa ocidental do Iémen como uma “vitória clara”, escrevendo numa publicação no X que “o povo americano e os aliados de Washington estão a pagar o preço pela crise económica e pelas ambições de Trump”.