Vacinas, covid-19 e a quinta emenda mais de 100 vezes: Fauci foi ouvido e pode acabar acusado de desacato

Cientisa que orientou a resposta dos EUA à pandemia da covid-19 foi ouvida numa comissão do Senado sobre as origens do coronavírus

Anthony Fauci passou décadas a construir a sua reputação como a autoridade mais reconhecida, mais acessível e, muitas vezes, mais loquaz do governo americano em matéria de crises de saúde pública.

Mas na quarta-feira, sob intenso escrutínio e a ameaça constante de um processo judicial, Fauci passou uma audiência no Congresso que se prolongou por bem mais de duas horas a proferir apenas uma única frase de 24 palavras: "Seguindo o conselho dos meus advogados, invocarei o meu direito ao abrigo da Quinta Emenda da Constituição de me abster de responder às vossas perguntas".

O cientista aposentado, que orientou a resposta dos EUA à pandemia da covid-19 ao longo de dois mandatos presidenciais, invocou o seu direito constitucional contra a autoincriminação mais de 100 vezes ao longo da importante audiência, na qual os republicanos esperavam poder acusá-lo de perjúrio.

O presidente da comissão, o senador Rand Paul, garantiu forçar uma votação na próxima semana para acusar Fauci de desacato ao Congresso devido à sua recusa em testemunhar, prolongando assim uma investigação que já dura há anos e que visa validar a convicção, sua e de outros republicanos, de que Fauci orquestrou um encobrimento das origens do coronavírus.

No entanto, entretanto, a audiência que Rand Paul tinha apresentado como uma oportunidade para obter respostas há muito evasivas sobre a crise da covid pareceu apenas aprofundar as divisões partidárias que têm marcado os EUA há mais de seis anos — e transformou Fauci num alvo político.

Os republicanos, frustrados, procuraram apresentar a falta de cooperação de Fauci como uma nova prova de culpabilidade, apesar de não conseguirem prová-la. Para os democratas, a audiência marcou apenas o mais recente episódio de um esforço de longa data do Partido Republicano para minimizar a gravidade de uma pandemia que matou mais de um milhão de americanos — muitos deles durante o mandato do presidente Donald Trump.

"Esta audiência é o culminar de uma cruzada que se arrasta há anos, que começou há mais de seis anos quando o dr. Fauci ousou contradizer o presidente Trump", afirmou o senador Richard Blumenthal, um democrata de Connecticut. "A campanha para o difamar, dr. Fauci, é apenas uma parte desta campanha mais ampla contra a ciência e os factos — uma campanha que tornou os americanos menos seguros."

Fauci proferiu uma declaração inicial breve, mas contundente, antes de invocar os seus direitos ao abrigo da Quinta Emenda, argumentando que a "óbvia obsessão de Paul em exigir a minha acusação" justificava a sua recusa em falar.

"A única razão pela qual me está a chamar perante esta comissão é para me obrigar a dizer algo que possa justificar as suas repetidas promessas públicas de que eu acabaria, nas suas palavras, “atrás das grades”", afirmou Fauci sobre Paul, que o tinha intimado a comparecer.

No entanto, numa atitude invulgar, os senadores republicanos prosseguiram com a audiência na mesma, bombardeando o cientista com perguntas incisivas, obrigando Fauci a repetir, vezes sem conta, que estava a invocar o seu direito constitucional.

Quando a audiência estava a chegar ao fim, Paul afirmou que irá realizar uma votação na comissão sobre desacato na próxima semana — o que poderá dar início a um processo que levaria o Departamento de Justiça a ponderar a possibilidade de acusar Fauci de um crime.

Apesar de se recusar a responder a quaisquer perguntas, Fauci mostrou-se frustrado em várias ocasiões com as acusações dos republicanos, incluindo a de que teria orientado a investigação sobre doenças infecciosas que conduziu à pandemia da covid-19, uma acusação sem provas que ele já negou no passado.

Os republicanos também se mostraram visivelmente exasperados com o antigo diretor do NIAID, abanando a cabeça e revirando os olhos enquanto ele repetia as suas invocações.

Os presentes riram-se quando os senadores republicanos testaram os limites das suas respostas, fazendo-lhe perguntas como a cor da sua gravata e o que é que a emenda que ele invocava protege.

Fauci permaneceu sentado, sério e sem sorrir, muitas vezes sem olhar para os senadores que o questionavam.

E, num confronto extraordinário, Paul mandou escoltar para fora da sala o advogado de Fauci, depois de este ter tentado interromper repetidamente. O confronto provocou exclamações de espanto e alguns aplausos por parte de um grupo de participantes anti-Fauci que lotavam a sala de audiências.

O advogado de Fauci, David Schertler, classificou posteriormente a sua expulsão como "ultrajante" e mais uma prova da "natureza infundada e vingativa deste processo", numa declaração à CNN.

Noutro momento da audiência, o senador republicano Bernie Moreno, de Ohio, pediu aos presentes que se levantassem se tivessem perdido o emprego ou sido de alguma forma prejudicados pelas políticas relacionadas com a covid-19, incluindo a obrigatoriedade da vacinação e o encerramento de escolas.

Cerca de 15 pessoas, incluindo a apresentadora da Fox News Laura Ingraham, que se encontrava sentada atrás de Fauci na sala, levantaram-se. Alguns dos que se levantaram, incluindo um pediatra do Kentucky e um representante da "Feds for Freedom" — um grupo de defesa contra a obrigatoriedade da vacinação —, afirmaram à CNN após a audiência que acreditavam que o coronavírus se tinha escapado de um laboratório.

No entanto, a audiência pouco contribuiu para sustentar as alegações de Paul e de outros republicanos proeminentes de que Fauci teria encoberto as origens da pandemia.

Paul há muito que defende que o NIH financiou investigação viral em Wuhan, na China, que criou estirpes mais virulentas e contagiosas do coronavírus. Conhecidos como investigação de ganho de função [estudos científicos que alteram geneticamente um organismo para lhe dar novas capacidades, como aumentar a transmissão, a força ou a resistência de um vírus], este tipo de estudos são frequentemente utilizados para compreender melhor como os vírus se propagam e como tratá-los.

Fauci tem negado, ao longo dos anos, que o NIH alguma vez tenha financiado estudos relacionados com o coronavírus que causou a pandemia de 2020. As análises federais sobre o surto não foram conclusivas quanto à sua origem, mas não há provas de que o vírus tenha sido criado artificialmente e tenha escapado de um laboratório de virologia.

Alguns dos principais opositores de Fauci assumiram cargos de poder desde o regresso do presidente Donald Trump à Casa Branca, incluindo o secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., um antigo ativista antivacinas que há anos mantinha um confronto com Fauci.

Paul e Kennedy tinham prometido abertamente encontrar novas formas de apresentar acusações de perjúrio contra Fauci, tendo Kennedy afirmado no início desta semana que liderou uma investigação de oito meses no âmbito do HHS à procura de novas provas a utilizar, acabando por encontrar registos do diário do cientista num servidor do governo.

Paul publicou-os antes da audiência — uma medida que Fauci descreveu como "destinada a envergonhar-me e a intimidar-me".

Vários deputados republicanos aproveitaram a audiência para atacar a conduta de Fauci e a sua credibilidade, apontando ao mesmo tempo a sua invocação da Quinta Emenda como prova de que não estava disposto a ser transparente.

"Que fique registado que a testemunha se recusou a responder se existe ou não uma pasta à sua frente, invocando o seu direito ao abrigo da Quinta Emenda", afirmou Paul a certa altura.

Os democratas da comissão procuraram, por vezes, defender Fauci e criticar os esforços dos republicanos, nos últimos anos, para minimizar a pandemia.

"É lamentável que tenha sido colocado na situação em que se encontra hoje, e deve ser extremamente frustrante saber que esta audiência foi concebida para o colocar numa situação comprometedora", disse a senadora Maggie Hassan, de New Hampshire, a Fauci.

Disputas jurídicas à vista

Fauci, a figura de proa da investigação americana em doenças infecciosas desde a crise do VIH/SIDA, compareceu mais de 250 vezes perante o Congresso e não tinha invocado a Quinta Emenda até esta quarta-feira.

O ex-diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, de 85 anos, já tinha comparecido perante os deputados para negar, sob juramento, as acusações feitas por Paul de ter ocultado as origens da pandemia da covid-19 e de ter conduzido investigação controversa sobre doenças infecciosas.

A pressão exercida por Paul e outros levou o presidente Joe Biden a conceder um perdão preventivo a Fauci durante os seus últimos dias no cargo, protegendo-o de acusações relacionadas com quaisquer comentários feitos em anos anteriores.

Mas depois de Paul se ter tornado presidente de uma importante comissão do Senado com poderes de intimação, ele e outros republicanos procuraram novas formas de fazer com que Fauci se expusesse a um processo judicial.

"Um perdão que protege uma pessoa de um processo penal não reescreve a história. Não apaga documentos. Não transforma uma declaração enganosa numa verdadeira, nem impede o Congresso de apurar o que aconteceu", afirmou Paul nas suas observações iniciais.

Esse objetivo motivou a decisão de Fauci e da sua equipa jurídica de invocar os direitos previstos na Quinta Emenda, revelaram amigos e conselheiros de Fauci à CNN, após terem concluído que pouco haveria a ganhar com a participação no processo.

Segundo afirmaram, também acompanharam de perto a forma como os republicanos da Câmara dos Representantes lidaram recentemente com o depoimento à porta fechada do ex-conselheiro especial Jack Smith perante a comissão, o que foi aproveitado para o remeter para possível acusação com base em sugestões de que ele teria prestado falsas declarações. Tal como Fauci, Smith tem sido alvo de um escrutínio prolongado por parte dos aliados de Trump, que ficaram indignados com a sua investigação sobre os esforços de Trump para anular as eleições de 2020.

Mas a decisão de Fauci de invocar a Quinta Emenda criou uma oportunidade para os republicanos prepararem a próxima fase do seu inquérito: uma votação na comissão por desacato, com o objetivo de levar os tribunais a pronunciarem-se sobre se Fauci pode recorrer à proteção constitucional para evitar testemunhar.

Paul admitiu mais tarde que "tudo o que posso fazer é recomendar a acusação. Não posso dar início a um processo judicial".

Essa incerteza jurídica, no entanto, não impediu os republicanos de aproveitarem o momento para lançarem uma nova ronda de ataques. Após a audiência, Kennedy utilizou a sua conta oficial no X para publicar uma fotografia de Fauci, alterada de forma a incluir uma imagem do secretário atrás dele, segurando algemas. Na sua conta pessoal, aproveitou a oportunidade para promover o seu "best-seller", um livro intitulado "The Real Anthony Fauci", publicado em 2021.

Os diários de Fauci indicavam que, no início de 2021, ele estava preocupado com o facto de o livro "ser quase certamente difamatório". No entanto, foi aconselhado por um advogado a não entrar em contacto com Kennedy, que era então — e continua a ser — um crítico fervoroso da segurança das vacinas contra a covid-19.

Fauci escreveu, em abril de 2021, que o advogado "foi categórico ao afirmar que não devíamos fazer nada a este respeito, uma vez que Bobby Kennedy não tem absolutamente nenhuma credibilidade nos últimos anos".

Alison Main e Logan Schiano, da CNN, contribuíram para este artigo