
Vanda Maria Ferreira não escreve desde sempre, mas nasceu escritora. Hoje professora, escritora e pesquisadora, ela dá vida a sua história e a de outras pessoas em um processo que é individual e coletivo ao mesmo tempo. Para o especial Cidade de Escritores, em comemoração ao Dia do Escritor, Vanda compartilhou um pouco do seu processo com a Tribuna.
Todo contador de histórias garimpa. Isso é fato. Pode ser de maneira consciente, buscando histórias entre livros e contos, ou inconscientemente, no dia a dia, quando uma conversa de outras pessoas é entreouvida. De qualquer maneira, Vanda garimpa. E muito.
Como contadora de histórias, muitas vezes ela é contratada para apresentar ao público um tema já definido e até textos já pré-estabelecidos. Porém, ela confessa que prefere ter certa liberdade nesse aspecto, buscando sempre provocar o público com a história escolhida. Quando Vanda garimpa, ela busca o ouro.
Provocações para além da leitura

A autora estreou com o livro infantojuvenil “O julgamento de João Jiló”, que conta a história do caçador João Jiló e suas aventuras com criaturas mitológicas das matas brasileiras, que decidem julgá-lo após a tentativa de matar o galo Godofredo em plena Sexta-Feira da Paixão. Além de livros voltados para o público infantil, Vanda também escreve poesia e outros gêneros.
Ela explica que seu público-alvo são crianças da periferia. Professora da rede municipal, Vanda sempre buscou provocar seus alunos e apresentar histórias que falassem sobre a identidade negra.
“Não dá para ser neutra”, diz ela sobre a escolha de textos e autores. “Somos muitas personas em uma só, assumimos muitos papéis e isso impacta na nossa visão de mundo, o que concordamos ou não.”
Atualmente, ela está pesquisando em seu mestrado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) a identidade negra em escolas municipais e os impactos da contação de histórias que valorizam isso.
“Antes, existiam autores que escreviam sobre nós; hoje temos nossos próprios autores. Porque uma coisa é você escrever de fora e outra é viver aquilo.”
Por isso, a autora utiliza o conceito de escrevivências, de Conceição Evaristo, que se refere a uma escrita que nasce da vivência, da memória e da ancestralidade, especialmente sob a perspectiva de mulheres negras.
Vivências atravessadas
Nascida no São Benedito, Zona Leste de Juiz de Fora, Vanda conta que tudo que vê, a poesia e a arte de seu bairro influenciam sua escrita. Ela é pautada também pela ideia de uma perspectiva de evolução para além do olhar tradicional, sempre buscando uma visão crítica.
“Não somos pessoas em branco. Quando saímos da caverna, há um mundo lá fora”, diz, referindo-se ao mito da caverna de Platão, em que as pessoas precisam sair da caverna onde foram criadas para experienciar o mundo real, além das sombras. Porém, ele é diferente do que todos esperam e isso causa estranhamento.
O que há na estante de Vanda Maria?
Alguns livros deixam marcas. Alguns mudam a forma de pensar. E Vanda cita alguns textos que a guiam, seja para sua pesquisa de mestrado ou para aumentar o seu já vasto repertório.
Em termos de escrevivência, ela recomenda “Vozes Negras na Literatura de Juiz de Fora”, idealizado por Ana Torquato, além de “Insubmissas lágrimas de mulheres”, de Conceição Evaristo, e “Negros gigantes: As personalidades que me fizeram chegar até aqui”, de Alê Garcia.
Outros textos como “O mestre ignorante – Cinco lições sobre a emancipação intelectual”, de Jacques Rancière, e livros de Lélia Gonzalez também estão em sua estante.
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*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy