Viciada em poder: Rosario Murillo quer o lugar do marido, está quase lá

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A co-ditadora: Rosario Murillo abriu caminho completo para o poder (NTI OCON/AFP)

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É quase inacreditável pensar que Rosario Murillo foi uma intelectual bonita e admirada até por quem não era da esquerda pura e dura, mas se rendia à luta de jovens idealistas rebelados contra a execrável ditadura do clã Somoza na Nicarágua. O maior lugar comum se tornou dizer que ela e o marido, Daniel Ortega, viraram tudo o que combatiam: autoritários, ditatoriais, violadores dos direitos básicos. Com uma conhecida e irônica diferença: foi possível derrubar Somoza e companhia, mas o clã atual se encastela cada vez mais no poder.

Å última foi anunciada numa cerimônia sinistra, quando o alquebrado Ortega disse que o regime nem se daria mais ao trabalho de fazer eleições – mesmo fraudadas, como de hábito. Com 80 anos e problemas de saúde, ele praticamente virou um fantoche de Rosario.

Há maridos que mimam as companheiras com alianças de brilhantes iu viagens internacionais, mas Ortega preferiu uma reforma constitucional que consagrou Rosario como copresidente – apta portanto a substituí-lo inteiramente.

A lealdade dela é lamentavelmente conhecida. Quando a filha dela Zoilamérica acusou o padrasto de infligir abusos sexuais durante duas décadas, Rosario ficou do lado de Ortega. Isso diz tudo sobre seu caráter.

Mas ela fez muito mais, lançando as bases de um bizarro regime autoritário, com insinuações de recurso a forças ocultas. Obviamente, Rosario ganhou o apelido de Bruxa.

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REALISMO MÁGICO

Devido à sua insignificância económica e territorial, a Nicarágua e seu delirante casal de ditadores passam despercebidos a maior parte do tempo. Faz parte do pacote, obviamente, perseguir opositores, jornalistas e, principalmente, integrantes do clero católico, praticamente a única força remanescente capaz de alguma resistência.

O casal ditatorial se aproximou da China e mantém a economia sob controle. Ortega e Murillo formam ao lado de Kim Jong-Un na liga dos governantes bizarros, daqueles que ninguém entende como sobrevivem. Mas sobreviver é sua especialidade, nem que seja à custa de romper com todos os companheiros sandinistas ainda vivos. Eles também expulsaram freiras da ordem de Madre Teres de Calcutá, prenderam um bispo, proibiram procissões e baniram os escoteiros. Romperam publicamente com Lula da Silva.

A onda do realismo mágico já passou há um bom tempo na América Latina, mas não existe outro gênero literário que seja mais adequado ao casal de revolucionários que se viciou na mais pesada das drogas, o poder. Depois que a filha tomou coragem e denunciou ter sido abusada pelo padrasto, Rosario a chamou de “mal-agradecida”.

“La Bruja”e “El Coma-andante”, o apelido irônico dado a Ortega, agora vão se livrar desse detalhe aborrecido chamado eleição. Está tudo pronto para Rosario Murillo, quando a natureza seguir seu curso, finalmente ter todo o poder que perseguiu desde quando era uma poetisa revolucionária. A degradação física nesse caso reflete a degradação moral. “Ortega e Somoza são a mesma coisa”, diziam manifestantes de oposição quando ainda se manifestavam. Nem isso podem fazer mais.

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