Visitando a idade antiga: vinhos resinados | Jovem Pan

Poucos vinhos despertam reações tão extremas quanto a Retsina. Para alguns, trata-se de uma curiosidade enológica quase exótica; para outros, de uma das mais antigas e autênticas expressões da cultura do vinho. Seu aroma inconfundível de pinheiro, ervas mediterrâneas e resinas naturais costuma dividir opiniões logo ao primeiro contato. Entretanto, por trás desse perfil aromático singular encontra-se uma tradição milenar, cuja origem remonta a um período em que a tecnologia da conservação do vinho ainda dependia da engenhosidade humana e da observação da natureza.

Na Antiguidade, o vinho era transportado e armazenado em ânforas de barro, recipientes naturalmente porosos que permitiam a entrada de oxigênio e favoreciam perdas por evaporação. Para impermeabilizá-los, gregos e romanos passaram a revestir seu interior com resina de pinheiros, sobretudo do Pinheiro-de-Alepo (Pinus halepensis). A solução mostrou-se extremamente eficaz, reduzindo a oxidação e aumentando a durabilidade do vinho durante longas viagens marítimas. Inevitavelmente, parte dos compostos aromáticos da resina migrava para a bebida, conferindo-lhe um caráter balsâmico e herbáceo que, ao longo dos séculos, deixou de ser uma consequência técnica para tornar-se uma característica apreciada pelos consumidores.

Quando recipientes de madeira e, posteriormente, de vidro substituíram as antigas ânforas, a necessidade prática da resina desapareceu. A tradição, porém, permaneceu viva na Grécia. Hoje, a Retsina é produzida mediante a adição controlada de pequenas quantidades de resina durante a fermentação alcoólica. Ao final do processo, a resina sólida é removida, permanecendo apenas seus componentes aromáticos dissolvidos no vinho. O resultado é um branco seco, normalmente elaborado a partir das castas Savatiano, Roditis ou Assyrtiko, marcado por notas de pinho, tomilho, alecrim, casca de limão, ervas mediterrâneas e um frescor particularmente gastronômico. A moderna enologia grega refinou significativamente esse estilo, reduzindo os excessos aromáticos que caracterizavam algumas versões produzidas em larga escala durante o século XX e demonstrando que a Retsina pode alcançar elevado nível de equilíbrio e elegância.

Diante de uma tradição tão peculiar, surge naturalmente a pergunta: existiriam outros vinhos resinados além da Retsina? A resposta é afirmativa, embora com importantes ressalvas. Na prática, nenhum outro estilo alcançou continuidade comercial comparável. Existem registros históricos de vinhos produzidos na antiga Geórgia cujas ânforas eram vedadas com resinas vegetais e cera de abelha, prática que ocasionalmente deixava discretos traços aromáticos na bebida. Da mesma forma, diversas vinícolas europeias desenvolvem atualmente pequenos projetos de arqueologia experimental, recriando receitas descritas por autores romanos como Columela e Plínio, o Velho. Nesses casos, utiliza-se novamente a impermeabilização das ânforas com resina ou pez, buscando reproduzir o perfil sensorial dos vinhos consumidos há dois mil anos. Contudo, tais iniciativas permanecem limitadas a produções experimentais, sem constituir categorias consolidadas no mercado internacional.

É importante distinguir os vinhos efetivamente resinados daqueles que apenas apresentam aromas semelhantes. Certos brancos envelhecidos sob influência oxidativa, alguns exemplares do Jura francês ou determinados Riojas tradicionais podem desenvolver notas que evocam terebintina, ervas secas e resinas naturais. Entretanto, nesses casos não houve qualquer adição de resina; trata-se apenas da evolução natural dos compostos aromáticos do vinho durante seu amadurecimento.

Talvez justamente por sua singularidade, a Retsina continue ocupando um espaço próprio no universo do vinho. Ela não pretende competir com os grandes brancos minerais da Borgonha ou com os vibrantes Assyrtikos de Santorini. Sua proposta é outra: preservar um elo vivo entre a viticultura contemporânea e uma prática enológica que atravessou mais de dois milênios praticamente inalterada. Em um mundo em que tantos vinhos buscam a uniformidade, poucos estilos conseguem transmitir, com tanta autenticidade, a sensação de beber um fragmento da própria história do Mediterrâneo.

Felizmente, o consumidor brasileiro já encontra boas opções desse estilo. Entre elas destacam-se o Kechribari Retsina, referência clássica da vinícola Kechris; o sofisticado Tear of the Pine, também da Kechris; o Tetramythos Retsina, elaborado em ânforas; o Gaia Ritinitis Nobilis, um dos rótulos responsáveis pela renovação da imagem da Retsina moderna; e o Malamatina Retsina, provavelmente o exemplar mais tradicional e difundido da Grécia. Todos podem ser encontrados, com alguma regularidade, por importadores especializados ou lojas brasileiras dedicadas aos vinhos gregos.

À mesa, a Retsina revela sua verdadeira vocação gastronômica. O Kechribari harmoniza com sardinhas grelhadas, lulas à dorê, queijo feta e saladas mediterrâneas, devendo ser servido entre 10 °C e 12 °C. O Tear of the Pine acompanha admiravelmente peixes de carne firme, polvo grelhado e frutos do mar mais elaborados, mostrando o melhor de si entre 11 °C e 12 °C. O Tetramythos Retsina combina com bacalhau, camarões grelhados e mariscos, sendo ideal entre 8 °C e 10 °C. O Gaia Ritinitis Nobilis encontra excelente parceria com culinária mediterrânea, carnes brancas e pratos aromáticos à base de ervas frescas, servido entre 10 °C e 12 °C. Já o tradicional Malamatina revela toda sua autenticidade ao lado de petiscos, anchovas, azeitonas, legumes grelhados e peixes fritos, preferencialmente entre 8 °C e 10 °C. Em todos os casos, trata-se de vinhos que desafiam convenções, mas recompensam amplamente o degustador disposto a compreender um dos mais antigos capítulos ainda vivos da história do vinho. Salut!