Ao longo de décadas, o trio de vitrais que faz parte de obra “Invocação de Santa Cecília” chegou também a ser alvo de vandalismo - principalmente pedradas. O painel específico, de 1898, fica no espaço dedicado ao coro da Candelária e mostra Nossa Senhora com o Menino Jesus.
O projeto de restauração já alcançou 70% de execução - o trabalho nos vitrais em si já está bem perto do fim. A iniciativa busca preservar as características originais dos vitrais e garantir que o conjunto continue sendo apreciado pelas próximas gerações. Os vitrais em si devem ficar prontos em agosto e a instalação ocorre em outubro, com janelas de proteção contra vandalismo (entenda mais adiante na reportagem).
Concebidos no fim do século XIX pelos artistas João Zeferino da Costa e Henrique Bernardelli, os vitrais foram produzidos em 1898 pela tradicional oficina F. X. Zettler, em Munique, na Alemanha.
Vitrais da Igreja da Candelária passam por restauro — Foto: João Ricardo Gonçalves/g1
O projeto de recuperação começou depois que a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária procurou o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade para falar sobre a necessidade de restauração dos vitrais.
O projeto teve apoio da Fundação Gerda Henkel. "Entramos em contato com o consulado da Alemanha e explicamos que os vitrais são um patrimônio brasileiro e alemão. Aceitaram ajudar na mesma hora", explica o gerente de Arqueologia do IRPH, Helder Magalhães Viana.
"São vitrais do século XIX concebidos por um artista importante, professor da Escola Imperial de Belas Artes, que é o João Zeferino da Costa, que coube fazer toda a decoração interna da Igreja Nossa Senhora da Candelária. Esses vitrais integram essa composição artística, com uma composição junto com uma pintura da parede, como se fossem inseridos no mesmo tema", acrescenta.
Para Justino Carvalho Neto, secretário da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, a recuperação dos vitrais vai além da preservação de obras de arte. Segundo ele, o projeto também representa uma forma de proteger parte da memória e da identidade cultural do Rio.
“Quem entra na Igreja da Candelária se encanta com sua arquitetura, sua história e, principalmente, com a beleza dos seus vitrais. Essas obras de arte acompanham gerações de cariocas e visitantes há mais de um século”, afirma.
Processo de restauração
Vitrais do coro da Candelária antes do trabalho de restauração, com buracos causados por pedradas — Foto: Divulgação/Igreja da Candelária
O processo de restauração inclui limpeza e consolidação de pinturas fragilizadas - os olhos da santa e do Menino Jesus, por exemplo, estavam "opacos". As empresas contratadas para os trabalhos foram a Luidi e Luiza Vitrais e Jequitibá Restauro.
Como em vários lugares do conjunto há "buracos" formados pelas pedradas que a obras sofreu, também foi necessário importar mais vidro da Alemanha e pintá-lo de forma compatível com o que estava preservado. O material é levado também ao forno para diminuir eventuais espaços entre ele e o vidro original.
A prioridade dos especialistas, porém, é tentar o máximo de originalidade possível da peça. "Existe uma porcentagem do trabalho que você consegue fazer sem precisar ficar trocando vidros novos, o que acaba tirando a originalidade da peça. Então, quanto mais original ela for, mais valorização ela tem e menos a história também a gente perde", diz Eliana Leandro Gonçalves Lemos, da empresa Luidi e Luiza Vitrais Ltda.
Para evitar a repetição dos episódios de vandalismo, o projeto contempla a instalação de vidraças de proteção com sistema isotérmico de ventilação e telas metálicas, solução amplamente adotada na Europa.
Seminário reúne especialistas em restauração
Pé de Menino Jesus do vitral da Candelária passa por restauros — Foto: João Ricardo Gonçalves/g1
Para discutir o trabalho realizado e ampliar o conhecimento sobre a conservação de vitrais históricos, especialistas do Brasil e da Europa participam de um Seminário Internacional entre os dias 3 e 5 de agosto.
O evento será realizado no Windsor Guanabara, no Centro, como parte das comemorações pelos 40 anos da Rede Windsor Hoteis. A empresa apoia o projeto de restauração.
A programação terá palestras e mesas de discussão sobre as metodologias utilizadas na recuperação dos vitrais, além de troca de experiências entre profissionais da área. O encontro também prevê ações de capacitação de jovens restauradores, incentivo à documentação científica e difusão de técnicas de conservação.
Para Laura Di Blasi, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), o seminário representa uma oportunidade de apresentar os procedimentos adotados no projeto e discutir formas de preservar esse tipo de patrimônio.
“A organização deste projeto de um ano foi além do restauro, que é muito importante na preservação desta que é uma das igrejas mais tradicionais do Rio, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), trazendo especialistas internacionais para debater as melhores práticas de salvaguarda de vitrais históricos”, afirma.
Além do seminário, o Windsor Guanabara vai receber a inauguração de uma exposição itinerante com os 50 vencedores do concurso fotográfico Olhos de Ver 2026, realizado em parceria com o IRPH e a Fundação Gerda Henkel.
A mostra reúne fotografias que destacam detalhes e a luminosidade dos vitrais da cidade, aproximando o público das características artísticas dessas peças.
Serviço - Seminário
- De 3 a 5 de agosto de 2026
- Local: Centro de Convenções Windsor Guanabara – Salão Pancetti
- Endereço: Av. Presidente Vargas, 392 – Centro, Rio de Janeiro/RJ
- 8h30 às 17h45
Restauradora trabalha em vitral da Candelária — Foto: João Ricardo Gonçalves/g1