Zelensky conseguirá unir Trump à causa da resistência?

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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que fazemos um ponto de situação sobre os principais conflitos a marcar a atualidade internacional. Para isso, hoje temos conosco a Liliana Reis, é especialista em relações internacionais. Liliana Reis, bem-vinda, muito obrigado por estar conosco.

Bom dia, Vasco, e a todos os ouvintes.

Começamos com a atualidade na Rússia, mas temos aqui duas guerras interligadas, porque Volodymyr Zelensky acusa o Kremlin de estar a ajudar o Irão. Fala em atividade dos satélites de vigilância russos sobre os Estados do Golfo, sobre as infraestruturas militares dos Estados Unidos, imagens que depois apareceram no Irão. O presidente da Ucrânia garante que há aqui uma correlação entre estas imagens de satélites e os ataques do Irão. Liliana Reis, eu perguntava-lhe, Zelensky vai estar nos próximos dias na Casa Branca, Netanyahu também. Pode estar aqui uma espécie de demonstração de valor por parte de Zelensky para não vir de mãos a abanar desse encontro?

Naturalmente que sim, mas repare que esta situação que Zelensky destapa não é nova. Desde o início da agressão russa à Ucrânia, nós vimos o fornecimento e o apoio militar por parte do Irão à Rússia, aliás, através de drones e de outras capacidades militares. Novamente, evidenciar esse eixo que efetivamente existe entre a Rússia e o Irão, também surge depois, como nós sabemos, da reunião do ministro dos Negócios Estrangeiros russos, Lavrov, que como nós temos conhecimento, encontrou-se com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em Manila. Ora, o que tivemos também conhecimento foi que depois desse encontro, Lavrov veio declarar que Moscovo continua e havia disponível para uma solução política, quando nós sabemos que essa solução política é claramente prejudicial aos interesses ucranianos, que é vítima de uma guerra prolongada há bastante tempo e que, na verdade, aquilo que Lavrov veio novamente apontar é que qualquer acordo teria de respeitar aquilo que Moscovo designa por realidades no terreno, ou seja, nomeadamente, a alienação dos quatro oblasts do Donetsk, Lugansk, Zaporizhzhia e Kherson. Esta posição pode ter uma leitura por parte de Zelensky de maior fragilidade neste momento, até porque nós também sabemos aquilo que se passa a nível internamente com o caso Fedorov. E ele não quer ir para os Estados Unidos sem destapar primeiro essa proximidade do Irão com a Rússia, mas depois mostrar que os Estados Unidos não se podem deixar iludir por qualquer tipo de aparente negociação que a Rússia possa estar neste momento a apresentar aos Estados Unidos, aliás, como o Lavrov fez a Marco Rubio. E por isso parece-me que ligar as crises não é efetivamente um mau sinal. Aliás, é mais, é mostrar que há aqui vários atores que estão a ameaçar os interesses dos Estados Unidos e os interesses do mundo ocidental e que provavelmente Donald Trump não está agora, e nem esteve desde o início, a compreender a dimensão destas alianças.

Falemos então sobre esse encontro que vai decorrer na Casa Branca entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky. O que o presidente da Ucrânia pode esperar dessa reunião?

Isso é o que nós não conseguimos antecipar desde já, até porque aquilo que conhecemos até do próprio perfil do presidente norte-americano é que é muito imprevisível. E nós temos conhecimento também de uma visita de Zelensky à Casa Branca que não correu nada bem e que todos estamos recordados. Neste momento, os Estados Unidos também começam, pelo menos do meu ponto de vista, a ficar demasiado pressionados por um alastramento de vários conflitos, aquilo que se chama a sob extenção estratégica ou a imperial overstretch. O que isso significa? Significa que se os Estados Unidos tiverem que manter vários cenários de guerra, repare, neste momento têm dois porta-aviões no Médio Oriente. Tiveram que reforçar a defesa das bases no Golfo. Esta semana, depois dos ataques dos houthis no Estreito de Bab-el-Mandeb, percebemos que há aqui uma nova frente a abrir do ponto de vista marítimo, que já ultrapassa também o Estreito de Ormuz. Manter o apoio à Ucrânia, continuar a dissuadir a China no Indo-Pacífico. Ou seja, são aqui vários elementos que podem começar a preocupar sobremaneira Zelensky. Por quê? Porque como nós vimos desde o início da guerra do Irão, mas eu até arriscar-me-ia a dizer que começou até num período anterior, Donald Trump deslocou a importância estratégica dos Estados Unidos da Europa, claramente pro Médio Oriente. Ora, se neste momento, exatamente por esta sob extenção estratégica, afastar definitivamente os Estados Unidos da Ucrânia, a Ucrânia naturalmente só poderá contar com os europeus, e os europeus não têm as capacidades militares, nem tão pouco o poder de dissuasão que têm os Estados Unidos. Zelensky procurará manter efetivamente os Estados Unidos Também mobilizados em relação a este teatro operacional. Mas, como lhe digo, para isso terão que ligar, e por isso a sua pergunta inicial foi tão relevante, terão que relacionar este conflito na Europa àquilo que também se passa no Médio Oriente e porque naturalmente estão relacionados.

Entretanto, Zelensky avisa também que nos próximos dias vão chegar ao terreno mais 30 mil soldados norte-coreanos para ajudar a Rússia. Significa isto, por um lado, uma escalada na guerra na Ucrânia, mas pode ser também um sinal de que as tropas russas neste momento são insuficientes?

Significa, eu faria mais uma vez a ligação àquilo que estava a dizer anteriormente. Naturalmente, aquilo que destapou é um fato. Neste momento, o exército russo debate com várias fragilidades, nomeadamente ao nível dos recursos humanos, mas há aqui outra questão que me parece mais importante do ponto de vista estratégico. O que Zelensky está a procurar é que Donald Trump compreenda que todos os inimigos dos Estados Unidos são também os inimigos da Ucrânia e que, por isso, os Estados Unidos não podem abandonar a Ucrânia, nem tão pouco abandonar os europeus, que são os seus aliados tradicionais. A deslocação também para o Indo-Pacífico, repare que o principal competidor estratégico dos Estados Unidos é a China. E também sabemos das relações entre a Coreia do Norte, a China e a Rússia. Por outro lado, o que Zelensky neste momento quer revelar é que há aqui um eixo de resistência, aliás, o eixo de resistência costuma ser apenas relacionado ao Médio Oriente, mas há efetivamente um eixo de resistência muito alargado, que compromete os interesses norte-americanos na Europa, mas em todo o mundo.

Falemos então nos Estados Unidos, porque neste fim de semana, e depois de 13 dias de ataques consecutivos, não houve ataques dos Estados Unidos no Médio Oriente direcionados contra o Irã. Pode isto querer dizer que está para chegar um novo cessar-fogo?

Não. Aliás, não me parece que esta ausência de ataques deva ser confundida com uma desescalada, mas apenas que todos os atores estão a recalibrar a sua estratégia. Repare que nós já não estamos perante uma pequena crise. Estamos perante uma nova arquitetura de conflito regional que está a transformar numa competição de resistência estratégica e naturalmente, também numa estratégia regional multidomínio. Ora, o conflito, neste momento, já não é apenas entre o Irã e os Estados Unidos, passou a envolver diretamente toda a Península Arábica. E por isso é que eu há pouco também falava na questão dos ataques dos houthis ao Estreito de Bab el-Mandeb, e nomeadamente a afetar o mar Vermelho e o canal do Suez. Nos Estados Unidos, esta pausa pode ser efetivamente estratégica, porque compreenderam que neste momento, a abertura de várias frentes é claramente prejudicial para os Estados Unidos, porque nenhuma potência, por mais força que tenha, consegue efetivamente manter várias frentes abertas simultaneamente. Depois, permita-me que introduza este elemento, porque me parece importante. Também pode ter havido por parte da União Europeia algum tipo de pressão, porque provavelmente é o ator que mais perderá com o feixe prolongado do mar Vermelho. Repare que a interrupção do Suez e o bloqueio de Bab el-Mandeb já era uma preocupação da União Europeia, e não de agora, não depois desta guerra. Depois da Operação Atalanta e do combate à pirataria no largo da Somália, uma operação no âmbito da política comum de segurança e defesa da União Europeia. Também em fevereiro de 2024, a União Europeia lançou, no âmbito da mesma política, a Operação Aspides, para responder aos ataques dos houthis contra a navegação comercial no mar Vermelho. Repare o que isto significa. Significa que, para além do problema a nível de comércio mundial, que nós já tínhamos com o estreito de Hormuz, pode estar efetivamente a abrir-se aqui uma nova frente ou um novo problema do ponto de vista do comércio mundial. E Donald Trump, sabendo efetivamente que isso ainda vai comprometer, ou pelo menos pode comprometer mais a sua frágil capacidade de mobilização da opinião pública, mesmo do ponto de vista ocidental. Repare que a rejeição a Donald Trump, mesmo nos Estados membros da União Europeia, é enorme. Pode efetivamente também ter condicionado aqui esta pausa nos ataques. Agora, não me parece que nós estejamos próximos, pelo menos de um acordo final. Nós já tivemos aqui várias fases de cessar-fogo, e aquilo que nós fomos percebendo é que efetivamente, havia sempre uma deslocação e um alargamento do conflito. Foi deslocando-se do território iraniano para várias frentes e neste momento, a frente mais importante é o domínio marítimo. Porquê? Porque o Irão também percebeu que é pelo domínio marítimo e pelo controle dos estreitos de Ormuz e do seu proxy, dos Houthis no Iémen, que pode infligir maior dano não apenas aos Estados Unidos, como a todos os aliados norte-americanos, nomeadamente à Arábia Saudita.

E nesse seguimento, o encontro que também vai acontecer na terça-feira entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu pode ser também decisivo para esse recalibrar estratégico que pode ser necessário então?

Naturalmente que sim, mas quer um protagonista, quer o outro protagonista, começam também a estar mais preocupados. Ainda ao referir na semana passada, e convém recuperar, que os dois países, quer Israel, quer os Estados Unidos, vão ter eleições agora no segundo semestre de 2026. Ora, Netanyahu começa a estar mais preocupado com as eleições internas do que propriamente com aquilo que pode efetivamente decidir ao nível da segurança regional, até porque os Estados Unidos é que têm liderado a guerra. Não tem sido efetivamente Israel, que nós vimos muito mais concentrado no norte de Israel e no sul do Líbano a propósitos do Hezbollah. Mas Donald Trump também nos seus últimos discursos, nomeadamente este último entre os jornalistas, começa também a revelar uma tendência para se preocupar mais com a opinião pública interna e, naturalmente, com as midterm elections que estão aí e, como nós sabemos, também poderão não correr nada bem esta administração. Tendencialmente, quem está no poder perde as midterm elections.

Ainda para mais com uma guerra a decorrer.

Ainda para mais com vários focos de instabilidade regional. E Donald Trump já enfrenta também uma oposição interna, mesmo dentro do Partido Republicano, bastante significativa. Por isso este encontro, ainda que procure efetivamente discutir a estabilidade regional, mas como eu falava no início, neste momento já está numa competição de resistência estratégica e regional multidomínio. Neste momento, parece que os dois vão procurar avaliar quais serão os passos a serem dados para minimizar os riscos a nível interno para os respectivos líderes.

Liliana Reis, muito obrigado por ter estado conosco no "Gabinete de Guerra".

Muito obrigada e muito bom domingo.

Este episódio, como sempre, fica disponível já a seguir em podcast.