72 mil entradas em 24 horas: O que mudou em Ceuta um mês depois

A cidade de Ceuta viveu há um mês uma entrada inédita de dezenas de milhares de pessoas de forma ilegal em 24 horas, gerando uma crise migratória que se mantém, com consequências a diversos níveis.

Estes são alguns pontos relativos ao ocorrido no enclave espanhol no norte de África, com fronteiras com Marrocos, em 30 e 31 de julho e nas semanas seguintes:

Os números (ainda por esclarecer) da crise

O número de pessoas que entrou ilegalmente em Ceuta no final de julho ascendeu a 72.000 e permanecem na cidade cerca de 5.000, incluindo pelo menos 1.200 menores de idade não acompanhados, segundo o balanço mais recente e oficial do Governo de Espanha.

Mais de 90% daquelas pessoas abandonou voluntariamente a cidade nas horas e dias imediatos à avalanche de 30 e 31 de julho, outras 3.500 fizeram o mesmo entre 10 e 31 de agosto e mais 214 foram expulsas por causa de delitos, segundo as autoridades nacionais.

Já o governo da cidade autónoma disse que permanecem entre 8.000 e 9.000 migrantes e estimou que entraram 80.000 pessoas ilegalmente no território, de 83.500 habitantes.

O Governo central criou 3.400 lugares de acolhimento temporário de migrantes na cidade durante o mês de agosto e espera chegar aos 6.000 nas próximas semanas. Só com lugares de acolhimento é possível fazer o registo de todas as pessoas que continuam a dormir nas ruas, abrir os respetivos processos, com vista ao repatriamento ou à concessão de asilo, e chegar a números definitivos.

"Plano de choque" de 309 milhões de euros para responder à crise

O Governo espanhol aprovou na terça-feira um "plano de choque" para Ceuta de 309 milhões de euros, a executar até ao final do ano, para responder à crise migratória e humanitária na cidade e ao impacto na economia da entrada ilegal de dezenas de milhares de pessoas.

Serão destinados 90 milhões de euros ao reforço da segurança na cidade, com mais meios humanos e outros das polícias e das forças armadas, assim como 118 milhões para responder às necessidades extraordinárias de acolhimento e humanitárias de milhares de migrantes.

Haverá ainda verbas para "o reforço de serviços essenciais" (como saúde, educação ou justiça) e 80 milhões de euros para apoio a empresas e trabalhadores, entre ajudas diretas e outras, com o Governo a destacar o impacto em setores como o turismo ou o pequeno comércio de Ceuta e que houve quebras de atividade no último mês na cidade de entre 30% e 60%, conforme os setores.

Causas da avalanche inédita

O Governo de Espanha disse que ainda estão a ser investigadas as causas exatas do que ocorreu em Ceuta, situação que qualificou como um ataque à integridade territorial do país.

Segundo o executivo, aquilo que as autoridades sabem até agora é que foi deturpada uma sentença do Tribunal Supremo espanhol nas redes sociais sobre devolução de migrantes que cruzam ilegalmente uma fronteira a nado e que essa desinformação foi aproveitada por "organizações criminosas" que traficam seres humanos.

O executivo acusou também Israel, Rússia e "uma internacional de extrema-direita que usa sempre a migração não só para atacar Espanha como também a Europa", de terem amplificado o ocorrido e a desinformação relativa a Ceuta e de estarem envolvidos neste "ataque híbrido" à União Europeia e a Espanha.

Por outro lado, o Governo liderado por Pedro Sánchez, tem insistido em ilibar Marrocos de qualquer responsabilidade, contrariando a perceção e opinião generalizadas em Espanha, num aspeto que divide a própria coligação governamental, formada pelo Partido Socialista (PSOE) e pelo Somar (esquerda).

O Governo disse até agora não haver indícios ou informações por parte de forças de segurança ou serviços secretos nacionais ou outros do envolvimento de Marrocos neste caso e elogiou a cooperação de Rabat. No entanto, um relatório da Polícia Nacional de Espanha concluiu que agentes das forças de segurança de Marrocos (conhecidos como 'gendarmes') orientaram a entrada em massa de pessoas em Ceuta em julho, noticiou a imprensa espanhola.

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