A estranha paixão da esquerda portuguesa por Pedro Sánchez

Nem mesmo um desastre como o de Ceuta fez abrandar a propaganda cega e fanática. Jornais, canais de televisão, comentadores e aventureiros à procura de um porto de abrigo que lhes pague as contas: a multidão do costume veio a correr jurar-nos que Sánchez pelo qual a Europa nunca poderá estar suficientemente grata. Não há mentiras, corrupção, traição, cinismo, duplicidade, incompetência que tragam clarividência a toda esta gente que sofre uma orfandade traumática e por isso corre para os braços do primeiro crápula que lhes diga que é seu pai.

A extrema-esquerda porque está nesse governo e usa-o para conduzir a orientação básica em políticas estruturais – desde a imigração à habitação. A esquerda dita “democrática” porque no estado actual de desorientação, e na balança das derrotas sucessivas à escala europeia, vai agarrando-se ao que há, por mais podre que possa ser, até a escolha ser a adesão à aliança com o islão radical que o seu lado mais extremo já aceitou. Outros dispersos porque fazem do ódio a Israel (e o amor oculto ao Hamas) uma carreira mediática; ou Sánchez nas suas “referências” e “conduta” do que Trump, ódio que também justifica qualquer coisa, incluindo o elogio do regime xiita assassino do Irão, a violência chinesa sistemática ou a corrupção e anti-democracia dos populismos esquerdistas da América Latina.

O caso podia ser divertido se não afectasse os destinos de Espanha e não infectasse a discussão pública nas democracias suas vizinhas. É um habitus tristemente familiar. As sementes da alma autoritária nunca apodreceram. Como negar o que todos os dias nos é dado a testemunhar: a mesma ofensa à verdade factual, a mesma recriminação violenta de quem lhes indica os erros evidentes, a mesma histeria em defesa do indefensável, a mesma substituição da ponderação racional dos elementos, o mesmo sectarismo que prefere a destruição do mundo ao revés da sua “causa”?

Já falei em várias ocasiões na essencial corrupção e incompetência de um governo que se arrasta desmantelando o Estado de Direito e a higiene cívica de uma democracia europeia. Nada disso abala a fé infantil dos devotos em Portugal e noutros covis. Seja. Mas querer converter o desastre e as sucessivas Sánchez de Ceuta e sobre acontecimentos que se desenrolaram, e continuam a desenrolar aos nossos olhos, é a gota de água. Já nem vou falar na proibição de um discurso sensato, sóbrio e realista sobre a imigração e a protecção das fronteiras que, por razões ideológicas e de sobrevivência política, Sánchez. Nem no cinismo como a cada dificuldade se responsabiliza a “ultradireita”, designação que abrange todos os que se atrevem a duvidar da escolha ou a contestar a estupidez de um bando de manipuladores a que chamam ministros. Deixemos de parte tudo o que é matéria para reprovar democraticamente um governo – a nossa esquerda a isso obriga. Passemos exclusivamente a quatro exemplos que ninguém, de esquerda ou de direita, pode recompensar sob pena de aniquilar a racionalidade e a razoabilidade próprias do debate público democrático sem o qual o regime das liberdades não pode sobreviver.

Primeiro, era o governo inocente apanhado de surpresa e que era aplaudido enquanto se desresponsabilizava de uma catástrofe a vários títulos. Agora sabe-se que o Sánchez por diversas instâncias sobre o que se aproximava no horizonte e a sua indiferença não pode deixar de ser classificada como criminosa. Serviços de informação e presidência da cidade tentaram cumprir a sua função. Sánchez. A surpresa final foi produto da incúria e negligência do seu governo.

Segundo, Sánchez por “repor a normalidade” em “24 horas” – depois, “48 horas” e mais tarde “72 horas” ou o que for – na cidade de Ceuta. Desde o regresso de uma parte do caudal humano que invadiu Ceuta que se sabe que há milhares de imigrantes na cidade e que a situação é tudo menos normal. Ficámos até a saber que as forças de segurança espanholas admitiram que ainda havia “jihadistas” dentro da cidade que engrossaram as fileiras iniciais. Os relatos das violações vieram a seguir. Tudo dentro da normalidade.

Terceiro, o espaço Schengen. Os absurdos com que a esquerda portuguesa e estrangeira falou com uma autoridade analfabeta da impossibilidade de aqueles migrantes passarem para território europeu – sim, europeu, porque Ceuta deixou subitamente para conveniência de alguns de ser “europeia”, deixando Espanha num limbo geográfico e político – foi todo um tratado. Ou a ignorância não deixou perceber todos os mecanismos que podem colocar os migrantes em território continental espanhol e em Schengen (desde os menores até aos migrantes subsaarianos que Marrocos nunca aceita de volta), ou a fuga para a frente quis enganar toda a gente sob o manto da experiência e do conhecimento.

Quarto, se Marrocos pode ser simultaneamente a origem da “invasão” e o “parceiro fiável e leal” (assim o governo espanhol o descreveu reiteradamente), o tipo de contradição que Orwell nos fez perceber há muitos anos não perturba minimamente a alma totalitária, Meloni seria a vilã nauseabunda. A introdução de controlos junto das fronteiras italianas para prevenir migrantes provenientes do descontrolo e caos espanhol de uma fronteira comum foi vendida como uma traição do nível do pacto Ribbentrop-Molotov – pacto que nos tempos que correm de elogio ao Sanchismo também não é de bom tom recordar. Agora, chegam notícias de que afinal as fronteiras italianas já detectaram 15 migrantes provenientes de Ceuta. Mas o que conta é agitar a malta.

Sei que no final das contas os factos não importam. Depois não se queixem da deterioração das instituições democráticas. Com os telhados partidos, dedicam-se a dar cabo das fundações. Não há arquitectura que resista se o desejo sectário de intimidação e poder sobre os adversários democráticos levar a melhor sobre qualquer outra consideração.