Não dar respostas simples por convicção

Raramente respondo de um modo directo às perguntas que me fazem. Para quem espera de um pastor um oráculo, desiludo sempre. Mas, de facto, não sou o Google, nem a Wikipédia, nem o ChatGPT. Quando as pessoas vêm falar comigo enquanto pastor, não estão a delegar-me a responsabilidade de encontrar respostas.

Quem lê diariamente a Bíblia sabe que o Nosso Senhor teve de aturar todo o tipo de perguntas: as sinceras e as outras. Logo, quem quer imitar Jesus sabe que perguntar não é tão simples quanto parece. Isto aplica-se a mim, que sou pastor evangélico, ou a qualquer cristão, mesmo que num grau diferente.

Havia pessoas que perguntavam coisas a Jesus porque estavam interessadas nas respostas dele e havia pessoas que perguntavam coisas a Jesus precisamente porque faziam questão de não lhe seguir as respostas. Uma vez mais, as perguntas não eram lineares. Dependendo das perguntas, as respostas de Jesus eram muito diferentes.

Jesus conseguia ser o melhor a dar respostas e também parecer o pior. O padrão que se nota em todas as conversas dele é a responsabilidade repousar sobre quem perguntava. Numa vez queriam embrulhar o Nosso Senhor acerca do delicado assunto de reconhecer a autoridade de João Baptista: ele topou e deixou os perguntadores pendurados. Aguentem-se.

Isso leva-me a uma preferência: quando as pessoas me fazem perguntas prefiro não que saiam com respostas mas que saiam a saber responder. São coisas diferentes. O mais importante, quando um procedimento é necessário, é compreender o seu princípio. No fundo, é conhecer o alfabeto para depois escrever.

Quando reajo às perguntas que me fazem, é típico que faça um pequeno passeio verbal pela circunstância que vive quem me fez a pergunta. Encorajo a pessoa a dar nomes ao que lhe está a acontecer. Isso significa que quem pergunta algo é responsabilizado pelo que pergunta. Numa pergunta o responsável é o perguntador.

A melhor resposta que, como pastor, posso dar envolve sempre colocar o ónus em quem pergunta e não em mim, que respondo — não sou eu que viverei a vida que não é minha. Quando a pessoa que me fez a pergunta tem de caracterizar o que está a viver com a linguagem da fé que diz ter, metade do caminho já está feito.

Se descrevermos a dúvida que vivemos com a linguagem dos nossos princípios, a solução deixa de ser um território assim tão estranho. O cenário começa a ganhar uma nitidez que retira à crise o monopólio da situação. Damos nomes aos animais como Adão. De repente, surgem seguranças em quem duvidava.

Isto não significa que tudo fica óbvio mas que a resposta à pergunta, mesmo quando não é simples, já se tornou a vontade de avançar com esses princípios da fé: a resposta claramente regressa à responsabilidade de quem fez a pergunta. Nessa fase do processo, como pastor, quase só assisto.

Logo, o pastor Tiago não dá respostas imediatas porque não é o pastor Tiago que vai viver a vida de quem fez a pergunta. Ter uma pergunta é uma responsabilidade e não um modo de a transferir para outro. Somos testados quando fazemos perguntas. Perguntar avalia-nos.

Nessa medida, obter uma resposta não é apenas poder usar a verdade a meu favor, mas também é saber se estou a ser útil para a verdade maior que não é uma ideia, mas uma pessoa, para quem acredita em Cristo. Ter fé não é um processo de dissolver perguntas em respostas fáceis; é vivê-las com outros sem descartar a nossa responsabilidade.