A Presidência do “Silencioso António José”

Juro pela minha saúde que não sei porquê, mas esta semana, a dada altura, dei por mim a pensar em Calvin Coolidge. Eu sei, é estranho. Afinal, John Calvin Coolidge Jr. foi Presidente dos Estados Unidos entre 1923 e 1929. Mas há um dado na biografia dele que me chamou a atenção: tanto os amigos como os inimigos deram-lhe a muito merecida alcunha de “Silencioso Cal”.

Tudo começou quando ele ainda era apenas Vice-Presidente. Depois da eleição, mostrando uma enorme generosidade política, o Presidente Warren G. Harding passou a convidar Coolidge a assistir a todas as reuniões do governo. Era a primeira vez na História dos Estados Unidos que era dado esse privilégio a um Vice-Presidente, mas não se pode dizer que ele tenha aproveitado: o “Silencioso Cal” nunca abria a boca sobre nada a não ser que lhe fizessem uma pergunta direta sobre algum assunto (aí, que remédio, precisava mesmo de limpar o pigarro).

Quando Harding teve um ataque cardíaco, Coolidge tornou-se Presidente e manteve-se tão loquaz quanto um monge num mosteiro de clausura. Costumava dizer-se, de forma hiperbólica, que ele era “silencioso em cinco línguas diferentes”. Uma história aparentemente falsa, mas muito reveladora, conta que certa vez o “Silencioso Cal” ficou sentado num jantar ao lado da escritora Dorothy Parker, que lhe disse: “Hoje apostei com uma pessoa que conseguia que o senhor dissesse mais de duas palavras”. Ele respondeu, com a esperada coerência e com inesperado humor: “Você. Perdeu.” Presume-se que traumatizada, Dorothy Parker perguntaria mais tarde, ao receber a notícia da morte de Coolidge: “Como é que notaram a diferença?”

O silêncio de Calvin Coolidge parecia um traço de personalidade, ou, como se vê pelo parágrafo acima, apenas uma boa desculpa para alguém criar uma anedota. Mas, na verdade, era uma estratégia política de sobrevivência. Ele afirmava, mostrando uma cautela que se podia confundir com cobardia: “Nunca fui prejudicado por alguma coisa que não tenha dito”.

Há outra caraterística de Calvin Coolidge que pode acender uma luzinha de curiosidade na cabeça dos portugueses que tiveram de suportar as notícias desta semana sobre o caso Luís Neves. É que ninguém deu pela chegada do “Silencioso Cal” à Presidência e também ninguém deu pela sua saída. A chegada: quando o Presidente Harding morreu e Coolidge teve de o substituir de forma rápida para evitar um vazio de poder, prestou juramento de madrugada, em sua casa, tendo o pai, que era juiz, a oficiar o ato — logo depois, “Cal” voltou sonolentamente para a cama, que ainda devia estar quente. A saída: em 1928, anunciou com desprendimento que não pretendia concorrer à reeleição. Não via grandes motivos para continuar no poder.

Coolidge foi-se embora, mas deixou os problemas, que foram suportados, como sempre, pelos mesmos — os eleitores. Os historiadores dividem-se sobre a responsabilidade de Calvin Coolidge no que veio a seguir, mas a verdade cronológica é que poucos meses após o fim do mandato presidencial dele os Estados Unidos foram varridos pela Grande Depressão.

Não pretendo, de maneira nenhuma, estabelecer qualquer tipo de comparação histórica entre o 30.º Presidente dos Estados Unidos e qualquer outro Presidente de qualquer outro país cujo nome, eventualmente, comece pela letra “P”. Além disso, como se sabe, apesar de rimar, a história não se repete. Mas, mesmo assim, talvez possamos retirar algumas lições da Presidência do “Silencioso Cal”. Lição número um: as palavras presidenciais pesam, mas os silêncios presidenciais também. Lição número dois: quando um Presidente não toma decisões, a realidade toma decisões por ele. Lição número três: um Presidente irrelevante torna irrelevante, e desnecessário, um segundo mandato.

Talvez haja alguém que queira meditar sobre isto em Porto Covo.