Acampamentos pela habitação numa dezena de cidades em Espanha

A maior mobilização está em Madrid, na praça Porta do Sol, onde centenas de pessoas estão instaladas em perto de 400 tendas desde sábado à noite.

Há também notícias e imagens nos meios de comunicação social espanhóis de acampamentos de dezenas de pessoas em cidades como Santiago de Compostela, Málaga, Palma de Maiorca ou Sevilha.

Os protestos por causa da crise na habitação e a dificuldade crescente de acesso a uma casa têm-se sucedido na última semana em várias cidades de Espanha, com especial dimensão em Madrid, depois do despejo pela polícia de Maricarmen Abascal, de 87 anos, do apartamento no centro da capital espanhola em que viveu desde 1956.

Maricarmen Abascal saiu de casa levada por bombeiros numa maca, após horas de uma operação da polícia que retirou à força centenas de pessoas que bloqueavam o acesso ao apartamento da idosa.

O despejo, transmitido em direto pelas televisões espanholas, traduziu-se em "imagens da vergonha", que deram a volta ao mundo com "algo que nunca se deveria ter visto", disseram hoje numa conferência de imprensa em Madrid, na Porta do Sol, uma porta-voz do Sindicato das Inquilinas e inquilinos, Valeria Racu e a advogada de Maricarmen Abascal, Beatriz Duro.

"Mas acenderam uma chama que já não vai parar", disse Valeria Racu, sobre o ocorrido na semana passada com Maricarmen Abascal.

Segundo Valeria Racu, já houve 50 manifestações desde a semana passada em Espanha e há neste momento acampamentos pela habitação numa dezena de cidades.

A primeira reivindicação é que o Conselho de Ministros aprove hoje o "decreto Maricarmen", que evite despejos de pessoas vulneráveis e sem alternativa habitacional.

A associação pede também "contratos indefinidos" de arrendamento, defendendo que devem seguir o princípio de um contrato laboral e não ficar sujeitos à mera decisão dos proprietários.

Entretanto, o Sindicato das Inquilinas e Inquilinos sublinhou hoje que já foi conquistada a "primeira vitória" com estas mobilizações, com um pré-acordo alcançado na segunda-feira com a empresa proprietária da casa de Maricarmen Abascal, que permitirá o regresso a casa da idosa, se esta o desejar e aceitar.

A advogada Beatriz Duro sublinhou que foi a empresa que solicitou a reunião e propôs um acordo, mas que passou anos sem querer qualquer diálogo, recusando ouvir propostas ou negociar.

Para Beatriz Duro, o caso de Maricarmen Abascal demonstrou, por outro lado, que todas as administrações públicas, do governo central aos municípios, são "absolutamente incompetentes para responder ao problema social importantíssimo" da habitação e dos despejos de pessoas como estas, que não têm uma alternativa habitacional quando são expulsas de casa.

"É uma vitória que marca um antes e um depois" e há "um país inteiro que acordou", acrescentou Valeria Recu.

O pré-acordo alcançado na segunda-feira à noite entre familiares de Maricarmen Abascal, a advogada da idosa, o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos e a empresa Urbagestión Desarrollo e Inversión SL prevê o regresso ao apartamento da mulher despejada contra o pagamento de uma renda que não ultrapassa os 30% o seu rendimento líquido (uma pensão de cerca de 1.400 euros).

Segundo os envolvidos na negociação, se aceitar o acordo, Maricarmen Abascal continuará a pagar uma renda similar à que pagava até ser despejada (500 euros) e assinará um contrato de arrendamento de oito anos.

Governo espanhol pressionado nas ruas a aprovar decreto para habitação

Governo espanhol pressionado nas ruas a aprovar decreto para habitação

O Conselho de Ministros de Espanha reúne-se hoje com o objetivo de aprovar um decreto que proteja os inquilinos de despejos e aumentos descontrolados de rendas, pressionado por protestos que têm levado milhares de pessoas às ruas.

Lusa | 06:06 - 29/09/2026