Artesã de Porto Santo transforma lixo marinho em arte

"A madeira que recolhemos na praia faz parte de uma memória. As pessoas [antigamente] recolhiam as madeiras para aproveitar nas suas casas, porque não havia árvores no Porto Santo, e, então, apanhavam as madeiras que davam à costa e faziam uma cadeira ou uma mesa, ou uma janela", contou à agência Lusa.

Vera Menezes, 46 anos, 'designer' gráfica de formação, procura dar continuidade a esta tradição, mas de outra forma, criando objetos decorativos, adornos e peças de arte, como barcos, peixes, candeeiros, mas também colares e pulseiras.

"As peças variam consoante o que vou encontrando e eu tento aproveitar a madeira na sua essência, não gosto de a transformar. No fundo, é só dar um toque", explicou.

A Loja do Profeta, situada na Vila Baleira, o principal núcleo urbano da ilha, abriu em 2018 e, no início, os locais não apreciaram o nome, devido à conotação pejorativa do termo.

Os porto-santenses são apelidados de "profetas" desde o século XVI, quando um homem chamado Fernão Nunes e a sua sobrinha, Filipa Nunes, se fizeram passar por profetas, em 1533, tendo grande parte da população acreditado neles. Os dois foram depois detidos e enviados para Évora, onde foram julgados e sentenciados a permanecer na escadaria da Sé com um cartaz que dizia "Profeta do Porto Santo".

Utilizando vários tipos de lixo marinho, sobretudo plásticos, Vera Menezes, que é natural e residente no Porto Santo, criou uma escultura que simboliza o velho profeta e colocou-a no passeio, à porta da sua pequena loja, onde os principais clientes são madeirenses.

"O que eu mais gosto de ver nas pessoas que cá chegam é a memória que têm do Porto Santo", confessou, explicando que grande parte das peças à venda reflete lembranças e histórias vividas pelos madeirenses nas férias de verão ao longo dos anos, como os passeios de burro, o sabor das lambecas, a imagem romântica dos moinhos de vento.

Também encontram colares de conchas, aguarelas, lapas coloridas com íman, peças de cerâmica, jogos de mesa, sabonetes com areia da praia e com seiva de dragoeiro, camisolas com imagens emblemáticas da ilha.

Já os estrangeiros procuram sobretudo peças criadas a partir de lixo marinho, sendo que os plásticos e os vidros recolhidos na praia também fazem parte da memória coletiva da população.

"As pessoas recolhiam tudo o que dava à costa e pudesse ser útil", observou Vera Menezes, apontando como exemplo as garrafas de vidro, que eram utilizadas para armazenar azeite ou vinagre.

O vidro e o plástico recolhidos são originários de vários pontos no mundo -- Argentina, Caraíbas, Marrocos -- e são também cada vez mais um "lixo novo", com rótulos que apontam prazos de validade que ainda não caducaram.

"Estas coisas não apareciam há 10 anos, ou 15 quinze anos, ou em criança, quando ia com o meu pai. O que se encontrava antes eram coisas muito mais antigas", contou.

A Loja do Profeta é também uma montra e um ponto de venda para o trabalho de outros artistas e artesãos locais, entre os quais se contam as irmãs Maria Amélia e Maria Otília Melim, de 95 e 81 anos, as últimas fabricantes de chapéus de palmito, um género de Panamá que se distingue pela sua elegância e maleabilidade e cujo início da produção remota a finais do século XIX, após a introdução de palmeiras na ilha.

O chapéu de palmito é um ícone do Porto Santo e Vera Menezes apreendeu a manufaturá-los com as irmãs Melim, mas admite que vai precisar de muitos anos para aprimorar a técnica.

"Para fazer um chapéu, o processo todo, até ao engomar, que é o último passo, são quatro dias de trabalho", disse, indicando que para cada unidade são necessários oito metros de trança e muita destreza nas mãos.

"Elas demoraram uma hora e vinte minutos a fazer um metro de trança, eu demoro o dobro", reconheceu.

Vera Menezes explicou que o palmito é o "olho da palmeira", ou seja, a folha nova, ainda fechada, por isso mais clara e delicada, sendo que, depois de colhida, tem de ficar ainda a secar ao sol durante 15 dias.

"A maior parte das famílias da Madeira, se não me engano, tem um chapéu de palmito do Porto Santo e todos os anos querem comprar um novo, ou um modelo diferente, para renovar", disse, lembrando que o lucro da venda constitui um extra para as duas artesãs, recentemente homenageadas pelo Governo Regional, através do Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira (IVBAM).

Apesar de a apanha de palmito estar agora proibida, devido à destruição de palmeiras provocada por um escaravelho, existe um 'stock' a garantir ainda a produção de chapéus, sendo que Vera Menezes, artesã certificada pelo IVBAM, também o utiliza no fabrico de malas, brincos, colares e outros artefactos.

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