Astrônomos descobrem 1º asteroide de três "cabeças" do Sistema Solar

Astrônomos identificaram o primeiro asteroide com três lóbulos já observado no Sistema Solar. O objeto, localizado no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, também possui uma pequena lua em sua órbita, revelada durante a mesma campanha de observações.

O asteroide é o 44 Nysa, descoberto em 1857. Até agora, observações realizadas ao longo de mais de um século — incluindo imagens obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble — indicavam apenas que ele poderia ter dois lóbulos, uma característica comum em alguns asteroides e cometas.

No entanto, novas observações feitas em conjunto pelo Large Binocular Telescope (LBT), no Arizona (EUA), e pelo Very Large Telescope (VLT), no Chile, mostraram que o objeto parece possuir três lóbulos, tornando-se o primeiro asteroide desse tipo já identificado.

“As imagens revelam um objeto extraordinariamente incomum”, afirmou Kate Minker, pesquisadora do Observatório Lowell e líder do estudo. “A explicação mais provável é que Nysa seja um trinar de contato, composto por três corpos conectados, ou um corpo único extremamente irregular, diferente de qualquer outro que já observamos.”

Imagens exigiram tecnologia avançada

  • Obter imagens detalhadas do asteroide não foi uma tarefa simples;
  • Os pesquisadores utilizaram os instrumentos de imageamento de alto contraste SHARK-VIS, instalado no LBT, e SPHERE, com seu polarímetro ZIMPOL, no VLT;
  • Os equipamentos operaram em conjunto com sistemas de óptica adaptativa, capazes de compensar as distorções provocadas pela atmosfera terrestre;
  • Além disso, a equipe aplicou técnicas especiais de processamento de imagens para remover o brilho intenso ao redor do asteroide, que poderia esconder objetos menores.

“Essas observações precisaram ser combinadas com técnicas de processamento de imagem especialmente desenvolvidas para aumentar ainda mais a nitidez e remover o halo brilhante ao redor do asteroide, que poderia ocultar companheiros pouco luminosos”, explicou Anthony Berdeu, do Observatório Europeu do Sul (ESO).

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Gráfico que explica o asteroide
Confira, de um jeito resumido, como é o asteroide – Imagem: gerada com IA (ChatGPT)/Olhar Digital

Asteroide tem 75 quilômetros e uma pequena lua

As imagens revelaram que o Nysa possui aproximadamente 75 quilômetros de diâmetro em seu ponto mais largo. Os cientistas identificaram ainda dois vales que circundam parte do asteroide e interpretam essas estruturas como os “pescoços” que unem seus três lóbulos.

Outra surpresa foi a descoberta de uma pequena lua com cerca de um quilômetro de diâmetro, orbitando o asteroide a uma distância mínima de 170 quilômetros.

O satélite recebeu, provisoriamente, a designação S/2026 (44) 1. Como ele foi observado em duas campanhas independentes, os pesquisadores conseguiram acompanhar seu movimento ao redor de Nysa.

“Tomamos emprestada uma técnica especializada de outra área da astronomia, conhecida como imageamento de alto contraste, para detectar essa pequena lua, cuja fraca luminosidade era ofuscada pelo intenso brilho do asteroide principal”, afirmou Gianluca Li Causi, integrante da equipe do SHARK-VIS no Instituto Nacional de Astrofísica da Itália (INAF).

Como esse asteroide se formou?

Os cientistas ainda não sabem exatamente como Nysa adquiriu esse formato incomum. A principal hipótese é que ele seja um trinar de contato, formado por três asteroides unidos pela própria gravidade.

Outra possibilidade é que o objeto tenha sofrido, no passado distante, uma colisão ou uma passagem extremamente próxima por um asteroide muito maior. Nesse cenário, as intensas forças gravitacionais teriam deformado sua estrutura e até fragmentado parcialmente o corpo, criando seu formato peculiar.

Segundo os pesquisadores, acompanhar a órbita da pequena lua poderá ajudar a resolver esse mistério. Ao medir com precisão sua velocidade orbital e seu período, será possível calcular a massa e a densidade do Nysa e verificar qual modelo explica melhor sua origem.

Pistas sobre a formação da Terra

Além da forma incomum, o Nysa desperta interesse científico por causa de sua composição. Sua superfície é rica em enstatita, um mineral de silicato pobre em ferro que torna o asteroide mais refletivo do que a maioria dos demais objetos do cinturão principal.

Por essa característica, ele pertence à categoria dos asteroides do tipo E, sendo o maior e mais brilhante representante desse grupo. Os pesquisadores acreditam que esses asteroides tenham se formado próximos ao Sol e possam ter participado da formação dos planetas rochosos do Sistema Solar, incluindo a Terra.

Se o Nysa realmente for um remanescente desse período, ele poderá fornecer informações importantes sobre as condições existentes no Sistema Solar interno há cerca de 4,5 bilhões de anos.

Os resultados foram publicados no repositório científico arXiv e também foram submetidos para avaliação na revista Astronomy & Astrophysics.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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