Informação pessoal do Presidente da República, primeiro-ministro e líder das secretas exposta na internet. PJ está a investigar

A denúncia chegou ao Centro Nacional de Cibersegurança através de Andrea Mavilla, especialista italiano em cibersegurança: numa plataforma online estavam disponíveis os números de telemóvel, emails e moradas de várias entidades, como o Presidente da República, e isto poderia comprometer a segurança nacional.

As informações estão todas disponíveis numa plataforma cujo nome o jornal Expresso, que avança a informação na sua edição desta sexta-feira, omitiu. Nela constam dados de “membros do Governo, forças de segurança, serviços de informações, magistratura, organismos de cibersegurança e outras estruturas estratégicas”, relata o especialista Andrea Mavilla a este semanário.

Para mostrar como é fácil chegar a estes dados, num vídeo com menos de um minuto, o italiano demonstrou ao Expresso o processo: copiou o nome de uma juíza do site do Supremo Tribunal, colou-o na plataforma e todas as informações surgiram listadas. O Expresso escreve ainda que acedeu a dados que este especialista partilhou de várias personalidades. O semanário verificou-os um a um e todos estavam corretos.

Em causa estão informações relacionadas com o atual Presidente da República António José Seguro; o primeiro-ministro Luís Montenegro; e dois ministros do seu Executivo. E ainda informações pessoais do secretário-geral do SIRP (Sistema de Informações da República Portuguesa), Vítor Sereno; do diretor nacional da PSP, Luís Carrilho; do responsável pelo departamento operacional do Centro Nacional de Cibersegurança; de três banqueiros e dos CEO de duas das maiores empresas portuguesas.

Andrea Mavilla, responsável por denunciar esta fuga de informação, é consultor de cibersegurança e especialista em sistemas de nuvem, backoffice e frontoffice, detalha o Expresso. Foi também ele quem denunciou um caso semelhante em 2025, em Itália, no qual os dados pessoais da primeira-ministra Giorgia Meloni e os dados do presidente do país ficaram disponíveis. E denunciou ainda, também o ano passado, a exposição de dados pessoais do chanceler alemão Friedrich Merz.

Depois de Andrea Mavilla ter informado o Centro Nacional de Cibersegurança desta situação, a denúncia foi reencaminhada para a PJ e para o SIRP, escreve o Expresso. De acordo com o Centro Nacional de Cibersegurança, não há “indícios de comprometimento” de “nenhuma infraestrutura conhecida”, reconhecendo que tem havido casos recentes em que têm surgido fugas de informação (leaks) em que “houve adição de dados novos oriundos de plataformas B2B como as conhecidas ZoomInfo, UpLead, Apollo.io, Lusha e muitas outras”.

Segundo o italiano, em causa está uma plataforma comercial que tem como objetivo a agregação e enriquecimento de contactos profissionais e que é conhecida por vender uma extensão para o Google Chrome que permite ter acesso a emails e números de telefone a partir de perfis no Linkedin, escreve o Expresso. A plataforma em questão terá sido multada em 2024 por recolher contactos do Linkedin retendo-os demasiado tempo e não sendo transparente nos seus processos.

Andrea Mavilla considera que o caso português é “particularmente grave”, uma vez que o risco não está “apenas na presença de um número de telefone ou de um email, mas na possibilidade de ligar todas essas informações entre si e mapear setores inteiros do Estado”.

Contudo, fonte do SIRP disse ao Expresso que “a situação referida não constitui uma surpresa para o Serviço de Informações de Segurança (SIS) que, juntamente com as demais entidades nacionais competentes, detém, há longos anos, linhas de trabalho e de cooperação dedicadas especificamente à prevenção e à mitigação da ameaça constituída pela disseminação online de blocos de informação pessoal e profissional em volumes significativos”.

O SIS está focado “na deteção precoce de dados expostos” e na “implementação célere de medidas defensivas a priori do seu eventual uso hostil contra a segurança do ciberespaço português”, garante o SIRP ao jornal Expresso.

[Os serviços secretos portugueses enfrentam uma crise de segurança sem precedentes: existe uma toupeira infiltrada no SIS. A suspeita é de que esteja a vender segredos da NATO à Rússia de Putin. E a confirmação final vai ser feita pelas secretas norte-americanas: a CIA traz o nome de um dos espiões mais antigos do serviço. Já estreou “A Vida Dupla do Espião Traidor”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]