António José Seguro escolhe há 32 anos a mesma aldeia do litoral alentejano para passar parte das férias e este setembro regressou já como Presidente da República. Rui Miguel Tovar, residente em Porto Covo desde novembro, percorre os lugares, as pessoas e as memórias que prendem Seguro à terra e avisa: “É mágico, Porto Covo”
Nônôs, Kikis, Santis, Tétés. A fauna de Porto Covo em Agosto entristece-me. Don’t get me wrong: é que vivo aqui no bem-bom desde Novembro, habituado a lidar com caminhantes estrangeiros, sobretudo alemães e italianos, todos over-60, cheios de genica nas pernas e olhar vivo, e, de repente, levar com camisas cócó, calças pipi, sapatos de vela e diálogos insanos é um maiúsculo BAQUE.
Again, don’t get me wrong. Sou português (não se nota?), gosto de portugueses e adoro Portugal. À cabeça, este belo do Alentejo. Se abandono Lisboa por vontade própria, é porque estou cansado de apanhar bonés, autocarros, metros, uberes e boltes. E, convenhamos, estou farto de embater em turistas e pessoas como se fosse uma bola de pinball. A escolha pelo Alentejo é unânime. Reúno-me com a minha cabeça e o meu coração, em salas separadas, ela no zoom, ele no teams. Ambos concordam, ela usa o adjectivo apaixonante, ele excitante.
Convencido estou, de armas e bagagens para o litoral alentejano eu vou (até já falo à Yoda, que beleza). O que se sucede daí em diante é um mimo. Lembro-me amiúde de Jacques Cousteau, o Sousa Veloso dos oceanos: ‘Para a abelha e o golfinho, a felicidade é a existência; o homem deve descobrir e maravilhar-se com isso.’ Descubro e maravilho-me. Porto Covo é um paraíso. De Novembro até Maio, digo. Depois a tal bola de pinball bate em mim. Com força, violência desmedida.
Há excepções, claro. Ver um miúdo vestido à Milan com o 22 de Kaká nas costas é um achado arqueológico ao nível daquele que li há dias em que, afinal, as pinturas rupestres se mexem, se acendermos a tocha certa. Ou ver dois LeBron James no mesmo dia e na mesma rua, um equipado à Lakers, a empurrar um carrinho de bebé, outro à Cavaliers, sentado no ‘Sorriso’ a ingerir comida saudável – é como aquela história que li sobre a descoberta de que estamos enganados há décadas e décadas porque, bem vistas as coisas, não há só o coelho europeu, também há o ibérico.
Enfim. Por muitos dias de céu azul, a nuvem negra acompanha-me a fazer a cena mais corriqueira, seja descer as escadas para a praia ou entrar em casa. Há sempre turistas e pessoas no caminho, apre! Se ainda fossem abelhas e golfinhos...
Dizia, é um paraíso de Novembro até Maio. É mágico, Porto Covo. Ponto de partida, é uma aldeia. Depois, zero semáforos. Finalmente, os seus habitantes. Fauna como deve ser. As conversas, um primor. Estou sentado na recepção do Alojamento Zé Inácio, na rua principal, a pedonal, e chega uma senhora com 89-quase-90 anos. De repente, palavra puxa palavra...
- A minha prima andou muitos anos com um rapaz e, um dia, deixou-se apanhar.
- Apanhar? (perguntei inocentemente)
- Engravidou!
- Ahhhhhh.
- Agora é que há umas artimanhas que nem sei o que são e impedem essas coisas.
(silêncio, tenho medo de fazer mais perguntas inocentes)
Mais acima, já perto da escola primária, aventuro-me a beber um café ao lado do mercado, à espera do autocarro. Mal entro, percebo a falta de sintonia entre duas senhoras over-60. Ofereço-me para desempatar. 'Não percebo a língua dela', diz-me a dona do spot, do lado de lá do balcão. Um-zero. "Hot, just hot water", responde-me a lady, do lado de cá. One-nil. A turista quer um copo de água quente para juntar à cevada. Faço a connection. Alegria no ar. A turista senta-se atrás de mim, triunfante com o copo de água, e mostra-me o frasco de cevada. Bebo o café na paz e arrepio caminho. À saída, tropeço em quatro homens de barba rija, em amena cavaqueira com a senhora do café. Ahhh, agora sim, ela domina a cena: em bom português nos entendemos.
Um dos homens olha para mim, os outros fazem silêncio e sinto-me agrafado. Só que nada, sigo a marcha com um sorriso a abanar ligeiramente a cabeça. Há um burburinho atrás de mim. Quando vou sair, uma série de mochileiros atrapalham-me o andamento. O tal homem aproveita e toca-me no braço.
'O senhor não é o Rui Manuel Tovar?'
'Sou, sim!'
'É a fotocópia do senhor seu pai. Até o sorriso tímido.'
'Essa nunca me tinham dito.'
'Fui electricista no Estádio José Alvalade e o senhor seu pai aparecia lá muito. Cumprimentava-me sempre, sabe? Sempre! Nunca de frete, sempre a sorrir.'
Pele de galinha, eu. G’anda mariquinhas pé de salsa. Depois queixo-me dos portugueses aqui em Porto Covo no Verão... Pudera. Adiante, p’rá frente é o caminho. Já estamos no mercado. Tenho duas referências magníficas. A Dina, da peixaria.
- Quero bife de atum
- Leve antes a lula.
- Fantástico.
- Uma?
- Uma! E agora, como a cozinho?
- Cozida?
- Bahhh.
- Faça assim, tomatada de lula.
- Maravilha. Como é?
- Tem tomate em casa?
- Tenho.
- Cebola?
- Tenho.
- Batatas?
- Tenho.
- Pimento?
- Não.
- Compre ali, junte tudo com azeite e fica uma maravilha.
O ‘compre ali’ é na Dona Eulália
- Tem pimentos, dona Eulália?
- Há vermelhos e verdes. Prefiro os vermelhos, têm mais sabor. Os verdes também têm, mas menos. Os amarelos nem pensar. Os roxos, esqueça -- e nem são de cá.
- Venha o vermelho.
- Sabe o que é de cá?
- Não, o quê?
- Estas bananas, já viu?
- Maravilha.
- São daqui de Porto Covo, do dono da padaria. Ele tem uma bananeira e fornece-nos. Leve, vai gostar muito. Quantas quer?
- Seis. E também quero cenoura e feijão verde para fazer uma sopa. E quatro dióspiros.
- A sua cara não me estranha, sabe? Perguntei ao meu marido, ele é que me disse que aparece na televisão, tal como o seu pai. Eu sabia que o conhecia de algum lado. Como é que se chama?
- Rui.
- Olhe, senhor Rui, leve também coentros e este tomate para a sopa. Coentros na sopa é essencial. Sabe o que me aconteceu ontem?
- Diga.
- Fui a Lisboa e entrei num sítio para almoçar. Havia sopa de cenoura e a senhora perguntou-me com coentros ou sem? Disse-lhe que nunca tinha comido sopa de cenoura com coentros. E, claro, pedi com coentros. Temos de provar tudo. Estava bem boa. Tive de ir a Lisboa para provar sopa de cenoura com coentros, já viu?
- E eu tive de vir aqui ao mercado de Porto Covo para saber que se serve sopa de cenoura com coentros em Lisboa.
- Ahahah. Senhor Rui, dez euros.
- Só?
- Os coentros e o tomate são oferta.
Nada disto se compara ao meu outro Alentejo, o do interior. Falo de Oriola, onde mantive contacto com a população durante uns dois anos sem estar lá meses a fio, como aqui em Porto Covo. Mesmo assim, a fauna é diferente. As conversas... Decidam vocês, senhoras e senhores ouvintes.
O primeiro 'concorrente' chama-se Chanana, aliás, senhor Chanana, e é sobre licença de pesca para carpas e lúcios (desconhecia por completo este peixe)
- faço o pagamento da licença por multibanco, porque não estou para fazer duas viagens de 80 km ao todo até Évora para ter o comprovativo
- pois, é mais prático fazer aqui
- só que a nova tinta dos multibancos é preta e desaparece num instante
- (arregalo os olhos) verdadeeee, as letras perdem-se
- um dia fui multado porque já não se via o meu número fiscal; antigamente, a letra dos papéis de multibanco era a azul
- (arregalo sabem-muito-bem-o-quê) veeeedadeeee
O segundo é o Tomé, aliás, senhor Tomé, sobre construções manuais a três dimensões
- com este sol, hoje não vou fazer nada em casa, agora só com as trovoadas de maio
- há trovoadas em maio?
- sempre. e espero que não sejam secas como há um ano, senão vai ser um problema. e, aí sim, volto a estar em casa para fazer as minhas construções. às vezes, perco-me nas horas. e outras irrito-me
(e mostra-me no telemóvel as suas invenções)
- isto dá trabalho, mas gosto muito.
(passa um miúdo de moto e sem capacete)
- eh bruto do cabrão, anda mais devagar; se o teu pai te vê, dá-te uma carga de porrada
(o miúdo pára e diz qualquer coisa)
- cuidado; se me dizes uma asneira, apanhas já e este senhor é testemunha
(arregalo os-já-sabem)
- inspirei-me nestas construções quando fui uma vez a uma fábrica muito conhecida de móveis. agora escapa-me o nome
- (tonto, eu) ikea?
- nã nã nã, estes móveis já estão feitos
- moviflor?
- também não.
(passam-se minutos em silêncio)
- Paços de Ferreira
(e arrepia caminho)
O terceiro e último, o senhor Zé, disserta sobre a vida ao contrário
- não sei o que faça, amigo
(olho para ele e penso 'não o conheço de todo, mas está mesmo a falar para mim porque não está aqui mais ninguém')
- tenho a mulher em Évora, que já não me quer, e tenho a amante em Viana, que não pára de me chatear no facebook
(já nem arregalo nada)
- não sei mesmo, vou mas é beber uma cerveja para ganhar coragem para dizer não à de Viana, que fala muito por facebook mas depois chego lá e nada.
Crazy world, Oriola. Não conheço nenhum destes três. Nem um. Nunca houve uma conversa entre nós, nem sequer um bom dia. É tudo de improviso. Apanham-me ali a jeito e toma lá disto, sem aviso prévio. Tenho o portátil ligado e aberto, à minha frente, e escrevo os diálogos as we speak. O barulho das teclas não os incomoda nem um pouco. Eu, feliz da vida. Penso eu. Quando chego a Porto Covo, entendo, aí sim, o conceito de felicidade. Bee happy, splash.
Novembro 2025, dia 11. São Martinho no Largo Marquês de Pombal, à frente da igreja iluminada, com direito a jeropiga, água-pé e castanhas assadas. Desço a rua e entro no Zé Inácio. Cumprimento o Paulo, dono e filho do Zé Inácio. A empatia é imediata. O Paulo é abelha e golfinho ao mesmo tempo. Também conheço o Jorginho, um gato bigger than life, cinzento, esperto e actor principal de Porto Covo, by far a personagem mais Instagramável das redondezas.
Começam os almoços prolongados de sabores do mar. E ouço, aqui e ali, o nome de Seguro, António José Seguro. Que o novo candidato às Presidenciais 2026 é já ilustre visitante de Porto Covo há uns 30 anos, que gosta de aparecer no restaurante para o passou-bem, que dá uns chutos na bola no Campo do Mar, ali em cima, ligeiramente para lá do mercado e da escola primária, que isto, que aquilo. Que o sogro, o senhor Freitas, é uma pessoa cinco estrelas. Que o sogro merece uma vénia. Que isto, que aquilo. Passam-se uns dias e happy new year, com dois emojis ☘️😘. Passam-se uns dias e Seguro é eleito Presidente da República, na segunda volta. Volta e meia, o seu nome vem à baila nos generosos almoços. Há aqui amizades enraizadas, pessoas com ligação a Seguro há anos e anos. É natural, o homem vem para aqui há 32 anos, a sua mulher há mais de 40.
O aqui é tanta coisa. Há o Primo Xico, agora ideal para tomar o pequeno-almoço, antes uma taberna famosa por abrir às sete da manhã para dar as boas-vindas ao então trio mais famoso daqui, o barbeiro Salvador, que cortava as cristas aos camones, Zé Sineiro e Tóino Lavagante (todos consumiam vinho e/ou bagaço a partir daquela hora e, já se sabe, era o fungagá da bicharada). Há a Cantarinha, com caracóis aos fins-de-semana e pastéis de nata caseiros dia sim, dia sim. Há o Pescador, local de peregrinação para quem gosta de mariscadas. Há o Miramar, antes Maresia, antes José Domingos, com vista soberba sobre o oceano e magnífica carne, do talho do senhor António, entalado entre o Meu Super e o Spar, uma inovação de 2026. Há o Ti Joaquim, com boas ameijoas. Há a Bella Vita da comida italiana, há o Sorriso da comida saudável. Há o Abranda, do Pedro, filho do Fausto, da Padaria, para beber vinho e comer queijo, presunto e boquerones. Há o Lamelas, também sofisticado e igualmente familiar, ou não fosse a chef Ana Moura a filha dos donos do restaurante. Há o restaurante Figo, antes o café Lucky Luke, com bilhar na cave. E há a padaria, com pão quente das dez da noite às duas da manhã no verão, sempre na companhia sorridente do senhor Manafaia, cujo tio tem nome de rua em Sines, tem nome de piscinas municipais, também em Sines, e foi cinco vezes campeão nacional de caça submarina. E há o Zé Inácio, já sabiam? Melhor é impossível.
Para sair deste ram-ram, há duas saídas a pé. Sempre a pé. O carro quer é descanso, senão também se queixa da bola de pinball. Para a esquerda, há a ilha do Pessegueiro. Vale a pena a caminhada de 40 minutos, desde cedo, muito cedo. Digo isto para apanhar o sol a nascer. Há uma série de praias minúsculas e apetecíveis para um mergulho até desaguarmos no areal imenso à frente da ilha. Para a direita, há a caminhada pela falésia até à Samoqueira, ao Burrinho, a São Torpes, you name it até Sines. Pelo meio, mais uma série de praias. A mais tentadora é a da Cerca Nova. Aqui, as escadas de madeira dividem-se para a direita e a esquerda. Prefiro a esquerda. Calma, isto não é política. Mas pode ser, é tranquilo. E até essencial.
Tenho um problema com a política. Não entendo nada. Nem a percebo. E fazem-me confusão as várias cabeças especadas atrás dos discursos inflamados de gravata aos microfones dos jornalistas, a azáfama popular por um aceno, as mentiras escandalosas, os ditos por não ditos, os mind games, os jogos de cintura, os infinitos programas de televisão e os pingue-pongues da má educação nos debates. Contas feitas, tal e qual o futebol. Também não o entendo, desde os discursos aos pingue-pongues.
De volta à política, não vejo interesse nenhum em ser ministro. Quero dizer, não o vejo como um prémio para ninguém. E se alguém pensa que sim, devia olhar para o seu umbigo e, quem sabe?, sacar ideias sobre a sua vida um pouco mais interessantes. É por isso que não há governos brilhantes? É por isso que não há governos brilhantes! Seja onde for. Eles querem ser ministros, é um sonho de consumo, e isso, para mim, não pode ser bom. Pergunto, e a comunidade? O sonho, digo eu, é a comunidade. Ser ministro para fazer a diferença, 'só' isso, e não para o status, a fama, o proveito, a ganância, a cadeira do poder, a arrogância do cargo, o achar-se importante só porque.
Tal como me intriga o futebol actual. Há muitas virtudes e também muitos defeitos, o maior de todos, e para colar à minha ideia sobre política, é a debandada de jogadores para a Arábia Saudita. Jogadores de selecção. A portuguesa, e não só. Rúben Neves, um exemplo. João Félix, outro. Trincão, mais um. Preferem o dinheiro à competitividade, tudo bem, nada contra. E também nada a favor. Afinal de contas, qual é a graça de ser o melhor em campo num jogo de marrecos? (que não me perdoem os sauditas) Claro, dinheiro. Pergunto, e jogar à bola ao mais alto nível?
Estilo... ser o herói num domingo à tarde em Inglaterra, que tal? Olhem lá para Palhinha, cujo golo solitário na última jornada salva o Tottenham da descida de divisão. Ou até João Mário, na insossa Grécia, a marcar o golo do título para o AEK Atenas aos 90’+3. Tudo isto conta mais que dinheiro. Quando falo ou escrevo sobre dinheiro, lembro-me sempre da reportagem d’A Bola com a mãe de Eusébio em 1960, ano em que o rapaz troca as voltas ao Sporting e aparece em Lisboa para jogar no Benfica. O título dá voz à mãe do king do futuro: ‘Benfica ofereceu-me dinheiro grande’. Dinheiro grande, ai ai.
Para fechar este capítulo, digo mais um fenómeno. Já temos política e futebol, acrescento televisão. Entrei na faculdade em 1995 e muitos colegas de curso ambicionavam logo ali o lugar de pivot no jornal da tarde ou da noite. A tendência mantém-se. Aliás, cresce a olhos vistos. Porque há mais canais, há mais media e há muito mais interessados em sentar-se na cadeira à frente da câmara para debitar pivots, alguns da sua lavra, outros nem tanto, cof cof cof. Insisto: se alguém pensa que sim, que isso é o melhor, devia olhar para o seu umbigo e, quem sabe?, sacar ideias sobre a sua vida um pouco mais interessantes. Pergunto, e fazer jornalismo? Começar por aí, pelo essencial, em vez do dinheiro grande, da ambição, do aparecer, do parecer.
Isto tudo vem à baila a propósito da palavra esquerda, vejam lá bem, tssss tssss. Sou destro, atenção. De resto... Quando apanho António José Seguro a subir a rua pedonal em Porto Covo, na companhia da mulher Margarida Maldonado Freitas, fixo-me à esquerda do Presidente para trocar umas impressões. Uns largos minutos depois, na hora do ‘say cheeeese’ e o clique é de uma espanhola, que passa férias em Porto Covo há 15 anos, estaciono à esquerda em relação à fotógrafa. Gotcha? Great!
A conversa é inesperadamente sentimental, porque Seguro conhece o meu pai desde os anos 80, quando se cruzavam no número 85 da Avenida Columbano Bordalo Pinheiro. Fala-me da igreja maná por baixo desse prédio e das bombas de gasolina à frente, falo-lhe da pastelaria Baloiço e da loja de móveis Kol, ambos à... esquerda da nossa casa.
Quando lhe comunico a encomenda da CNN à minha pessoa para um texto sobre ele-himself em Porto Covo, nem há um segundo de hesitação. Pega na bola, ataca a baliza e é golo. Fico pregado ao chão, atónito. Que vem cá há 32 anos, quase sempre em Setembro (a mulher fala de uns anos em que vieram meio Agosto e meio Setembro quando os filhos eram pequenos e deixa escapar um gesto com os olhos, como quem me diz ‘zero abelhas e golfinhos’), que gostava de calçar as chuteiras para ir aos treinos de futebol da equipa de Porto Covo no pelado do Campo do Mar, que já sabe da mudança para sintético do Campo do Mar há uns dois meses, que também joga futebol de salão no pavilhão multiusos com amigos, que tem muita gente amiga com quem estar durante estes 15 dias de férias, que ainda ontem comeu cabrito assado num convívio com 30 pessoas, que vai comer um destes dias sopa de lebre à Sonega com dois casais amigos (a mulher é engraçada e descreve a sopa ao pormenor, a última palavra é pão e dá-me água na boca às 11-e-pouco da manhã), que jogou futebol no Penamacorense, como avançado, que gosta de dar a sua volta matinal e tomar o pequeno-almoço lá acima, ao largo.
A Margarida, sempre ela!, fala então daquela rua pedonal em tempos idos: café do Hermínio, Restaurante Cá Come (onde se viu a preto e branco o Mundial-66) e o império do Isménio, dono do bar 31, da pastelaria-gelataria ‘Marquês’ e ainda do restaurante ‘Marquês’, mais de um bar à faroeste chamado Saloon na barraca do Chico Pêga ali no Portinho, com portas de... saloon e chão de terra batida, do trânsito rodoviário na rua de trás, a José Faial, das guitarradas iniciadas com cinco pessoas no largo e, depois, transformadas em ajuntamento popular até à Praia Grande, da invasão dos hippies alemães a promover o campismo selvagem e o desporto sui generis do vinho tinto a escorrer pela rua abaixo, e do nascimento da Ouriçada, agora um evento anual bem saboroso, por parte do capitão Guerreiro, natural do Cercal, estacionado em Grândola e com casa em Porto Covo.
É um desfile bem engraçado de memórias. Obrigado Margarida e António, os reis de Porto Covo – com a devida autorização do Jorginho, óbvio.